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Diversidade animal: Alcatrazes

Laboratório da natureza

Denis Russo Burgierman

Para quem olha do litoral, Alcatrazes é apenas uma manchinha escura no horizonte, a 33 quilômetros da costa de São Paulo. Difícil acreditar que já foi possível chegar lá a pé, antes que acabasse a última glaciação, uns 8 500 anos atrás. Hoje, as doze ilhas, ilhotas e lajes se mantêm praticamente intocadas. O gelo derreteu, a água do mar subiu e o isolamento transformou o arquipélago num lugar inóspito para o homem.

Mas não foi só isso. Ao mudar o ecossistema da região, a natureza começou a fazer experiências, criando cobras com um veneno diferente, pererecas que só existem por lá e até um novo tipo de orquídea. Isolado, Alcatrazes também ficou atraente para aves e peixes. É visitado por golfinhos, hospeda centenas de espécies aquáticas e tem o maior ninhal de fragatas do país.

A ilha é um paraíso para aves marinhas

A maior ilha do arquipélago, que leva o mesmo nome, com 1,94 quilômetro quadrado, é literalmente dos alcatrazes, palavra que vem do árabe: algatttãz (mergulhador). Conhecidas também como fragatas, as aves dominam o lugar: são mais de 15 000. Elas só não mergulham. Quem entra na água mesmo é o atobá, corretamente apelidado de mergulhão. A fascinante relação de amor e ódio entre as duas espécies (veja o infográfico ao lado) é uma das curiosidades pesquisadas pelos biólogos do Projeto Alcatrazes, organização não-governamental sediada em São Paulo que deseja transformar o lugar em parque ecológico.

Segundo o levantamento da bióloga Tatiana Neves, do Instituto Florestal de São Paulo, moram na região cerca de 6 000 atobás, característicos das costas do Atlântico. As fragatas são fáceis de identificar pela exuberância dos machos. Com penas pretas, eles possuem um enfeite vermelho sob o bico, chamado bolsa gular, que incha para atrair a fêmea na época da reprodução, entre setembro e outubro. Já os atobás são cor de café e os filhotes são inteiramente brancos.

“Esses morros arredondados favorecem movimentos de ar ascendentes”, explica Rubens Junqueira Vilela, meteorologista da Universidade de São Paulo. A fragata aproveita as correntes de vento para, de cima, localizar o peixe. Mas quem vai pegar o dito cujo é o atobá. Isso porque ela não têm, como seu vizinho, a glândula que produz o óleo urupigial, substância impermeabilizante para as penas. Fragatas, com seu bico curvo, só pegam peixes que ficam na superfície da água, como a sardinha, enquanto atobás vão mais fundo. Assim, na hora do almoço um sinaliza em que lugar está o cardume, o outro ataca e ambos dividem a refeição.

A fauna e a flora tiveram que se adaptar

A jararaca que se arrasta em Alcatrazes é diferente das outras. Tem metade do tamanho de sua prima do continente mas, segundo Maria de Fátima Domingues Furtado, do Instituto Butantan, em São Paulo, guarda um veneno dez vezes mais eficiente para coagular o sangue e duas vezes mais para quebrar proteínas. Isso modifica o efeito do soro antiofídico produzido no instituto. Embora menos letal, para uma picada da cobra alcatrazense é necessária uma dose dupla do antídoto fabricado para combater o ataque da sua parente continental.

Essa transformação aconteceu pela necessidade de adaptação da jararaca às mudanças ambientais do arquipélago ao longo do tempo. Há cerca de 16 000 anos, no auge da última glaciação, havia três vezes mais gelo sobre a Terra. O nível do mar chegou a ser 130 metros mais baixo do que é hoje e todas as ilhas do sudeste brasileiro faziam parte do continente. Durante milênios, o arquipélago foi habitado pelas mesmas espécies animais e vegetais da Mata Atlântica. Depois do degelo, a distância fez com que a fauna e a flora perdessem o contato com as espécies do litoral, com exceção das aves e plantas cujas sementes podiam ser carregadas pelo vento.

O clima também mudou. Antes, quando ilha e continente eram uma coisa só, a Serra do Mar barrava as nuvens e provocava chuvas. Agora chove muito pouco porque os morros não são altos o suficiente para barrar partículas de água ou ter neblina. Com isso, os mamíferos se extinguiram, com exceção do morcego. Por falta de roedores, a jararaca teve de se contentar em comer lacraias. Seu tamanho diminuiu justamente por não precisar mais caçar animais maiores. Para os biólogos, também foi a nova dieta que alterou o teor de seu veneno – só não se sabe, ainda, como isso aconteceu.

A solidão criou um mundo rico debaixo d’água

Quem também gosta do isolamento de Alcatrazes são os habitantes do mar. A distância da poluição do continente e as barreiras impostas à pesca predatória, especialmente pelo fato de a ilha pertencer à Marinha (leia quadro abaixo), tranformaram o arquipélago num paraíso para várias espécies marinhas, residentes ou migrantes. Isso é visível para quem mergulha por lá, como a bióloga Leila Longo, da Universidade de São Paulo, estudiosa dos bentos, animais fixos do fundo do mar de que os corais são um subgrupo. “Ali não há bentos diferentes do resto Brasil, mas o número de espécies e a quantidade são imensos”, afirma.

No que diz respeito aos peixes, não é só a quantidade que impressiona. Num levantamento recente, Rodrigo Leão, outro biólogo da USP, contou cerca de 150 espécies. Dessas, dezesseis jamais haviam sido observadas na região até 1994. “Encontrei até mesmo uma espécie nova, o Chromis jubau. A fauna marinha da ilha é muito rica”, conta o pesquisador.

Tanta diversidade tornou-se uma ótima opção de cardápio para mamíferos aquáticos como o golfinho-pintado-do-atlântico, que freqüenta o arquipélago durante o ano todo. Ele pode ser visto principalmente perto das pedras da ilha maior. Até a imensa baleia-de-bryde, que pode atingir 15 metros de comprimento e pesar 25 toneladas, faz suas visitas. “Eu mesma já avistei essa baleia uma vez”, conta a pesquisadora Daniela Weil, que estuda os cetáceos da região.

Amor e ódio na pesca

Veja por que o alcatraz é visto como um parasita do atobá

1 – Lá vou eu

A fragata, que voa mais alto e tem mais estabilidade para planar do que o atobá, sai para comer.

2 – Olho vivo

Da pedra, o atobá, que não consegue planar, apenas observa o vôo da fragata.

3 – Paixe à vista

Lá do alto, a fragata procura comida. Assim que vê um barco ou cardume, pára.

4 – Sinal de alerta

Quando a a fragata fica sobrevoando um lugar, o atobá a segue.

5 – Agora é com ele

A fragata, que não pode mergulhar, espera que o atobá chegue para pegar o alimento no mar.

6 – Chuá

O atobá, como bom mergulhador, entra na água, apanhando o peixe e foge da fragata.

7 – Ao ataque

A fragata bate no atobá em pleno vôo e tenta fazê-lo soltar o peixe para apanhá-lo antes que caia na água.

Opção de cardápio

Se o atobá chega a engolir o peixe, a fragata continua atacando até que o pescador vomite o que comeu. Isso obriga o atobá a ficar pescando até que a “amiga” se farte.

Carona natural

Os morros arredondados da ilha, semelhantes ao Pão de Açúcar, formam correntes de ar que ajudam a fragata a alçar vôo com facilidade. Isso porque os paredões desviam para cima os ventos (seta azul) e o ar quente (seta amarela)

Temporada de turistas

Mais de sessenta espécies de pássaros visitam Alcatrazes todo ano

O albatroz-viageiro, habitante das ilhas subantárticas que chega a ter a maior envergadura de asa entre todas as aves (3,5 metros), voa para o norte no inverno e faz uma conexão, às vezes longa, no arquipélago. Mas há pássaros bem brasileiros (fotos), vindos do continente, que descem a Serra do Mar em busca de alimento. O biólogo Fábio Olmos, do Instituto Florestal de São Paulo, diz que alguns preferem se afastar da costa para evitar os concorrentes nas épocas de migração.

Siriri

Está entre os insetívoros que migram no verão. As chuvas que caem nessa época infestam as ilhas de sua fonte de alimento.

Trinca-ferro

É um dos frugívoros que chegam no início do inverno, época seca em que as árvores começam a dar frutos primeiro no litoral

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No meio do inverno, quando os frugívoros buscam as frutas que surgem serra acima, é a vez deste nectarívoro ir atrás das flores da ilha.

Paisagem exclusiva

Algumas espécies sobreviveram à seca, outras surgiram por causa dela

Beleza selvagem

Entre as espécies vegetais endêmicas, que só crescem no arquipélago, se vêem esta variedade da orquídea Catileia gutatta (foto) e a chamada “rainha do abismo”, ou Sinningia insularis, uma pequena flor amarela.

Marca registrada

As grandes árvores da Mata Atlântica não suportaram a seca. Sorte do cacto e do jerivá, ou jeribá, a Syagnus romazoffiana (foto), palmeira que sobrevive com pouca água. Sem ter que disputar espaço, o jerivá tomou a ilha.

Bibelôs da casa

Algumas espécies que só foram observadas na ilha são a diminuta Scinax alcatraz, ou perereca-de-alcatrazes (em cima), que mede pouco mais de três centímetros, e as três centopéias que medem entre três e cinco centímetros: Eurydesmus alcatrazensis (embaixo), Cladostreptus thalattophilus e Pseudonannolene halophila. A mudança genética destes animais ainda é um mistério para os biólogos.

Pequena e perigosa

Desde a extinção dos roedores, a jararaca da ilha (que ainda não recebeu nome científico porque está sendo classificada) só come lacraias. Esse tipo de alimentação fez com que ela crescesse menos do que as jararacas do continente e mudou a qualidade de seu veneno. Para uma picada desta cobra são necessárias duas doses do antídoto produzido pelo Instituto Butantan.

Um tipinho à toa

O teiú, que em tupi significa “comida de gentalha”, mas está catalogado cientificamante como Tupinambis teguixin (foto), é um lagarto que vive em buracos nas rochas e pode medir até 2 metros de comprimento. Ele é comum em todo o Brasil. Mas em Alcatrazes ele é mais comum ainda. É o típico exemplo de espécie animal pouco exigente que resistiu às mudanças ambientais e, sem predadores ou concorrência, se expandiu.

Área de tiro ao alvo

Ambientalistas querem suspender o treinamento praticado pela Marinha

Desde 1982 o arquipélago dos Alcatrazes é local oficial de treinamento de tiro e desembarque da Marinha brasileira. Foi essa força que construiu uma casa, um ponto de observação e um heliporto no Morro da Boa Vista (veja o mapa na página anterior). Logo abaixo, o paredão de rocha conhecido como Saco do Funil tem vários alvos pintados. Para realizar o treinamento cerca de dez vezes por ano, disparando entre 3 000 e 4 000 tiros no total, os navios costumam ancorar de 7 a 15 quilômetros de distância da ilha. Mas nem sempre foi assim. Em 1992 e 1993 a Marinha ficou impedida de atirar no paredão, que abriga ninhos de atobás. Por iniciativa do Projeto Alcatrazes, a ONG que desde 1989 quer proteger a fauna e a flora da região, uma liminar suspendeu os exercícios militares. Mas a Marinha derrubou a liminar e voltou a fazer o treinamento. Ela argumenta que o tiroteio não afeta as aves nem a vegetação porque as balas são cheias de areia, evitando que se estilhassem e que provoquem incêndios. Os ambientalistas dizem que já foram encontradas balas em locais afastados dos alvos, algumas até encravadas nas pedras. As duas partes só concordam em um ponto. Tenha o destino que tiver, acham que Alcatrazes precisa ser preservada a todo custo do turismo indiscriminado.