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Ecologia à moda da casa

As tentativas de estabelecer uma convivência harmoniosa entre a natureza e desenvolvimento.

Martha San Juan França

Nos últimos seis meses, a rotina da veterinária Rose Lilian Gasparini não tem mudado muito. Cedo às 7 horas, ela já está a cavalo, pronta para uma visita de inspeção a quase uma dezena de piquetes, como são chamados os pastos de 9 hectares onde estão confinados exatos 30 cervos do Pantanal, resgatados das várzeas do Rio Tietê, inundadas pela Hidrelétrica de Três Irmãos, em São Paulo quase na divisa com Mato Grosso do Sul. Durante cerca de duas horas, ela percorre a área à procura desses animais e observa seus hábitos. Quando o sol já está alto e o calor excessivo espanta os cervos para seus esconderijos no mato, a veterinária, uma moça decidida de 23 anos, está de volta. Durante o resto do dia, o seu trabalho é mais burocrático. Ela transforma as informações que obteve em anotações que servirão para o Conhecimento dessa espécie de animais hoje em extinção, mas que outrora habitava da Região Centro-Oeste até o Sul do Brasil.
 
Seus relatórios são valiosos: quase nada se sabe sobre esses bichos ariscos que facilmente podem morrer de susto quando capturados e pouco resistem à vida em cativeiro.”É um trabalho lento, mas que vale a pena”, explica a veteriná-ria. O objetivo de Rose é garantir a sobrevivência dos cervos em semicativeiro para que a espécie, no futuro, mais adaptada à presença do homem, tenha condições de voltar a viver em áreas preservadas do Estado de São Paulo. Há dois anos, recém-formada, ela nem sabia das experiências de manejo de animais silvestres em extinção, aliás, pouco conhecidas em todo o território brasileiro, onde as construtoras de hidrelétricas costumavam simplesmente abandonar os animais à própria sorte, ou executar uma operação de salvamento de última hora nas áreas prestes a serem inundadas. 

Na época, apesar de ser uma paulistana pouco entusiasmada com as promessas da vida campestre, Rose tinha um objetivo incomum entre os colegas: dedicar-se a uma atividade ligada à conservação do meio ambiente. “Nunca pensei na natureza como algo intocável”, afirma. “Mas acredito que os seus recursos podem ser mais bem aproveitados.”Hoje, trabalhando na reserva de Promissão, no interior paulista, que a Cesp (Centrais Elétricas de São Paulo) mantém como um dos lugares de preservação dos cervos do Pantanal, Rose já não é uma raridade em sua geração A tendência dos novos profissionais saídos da universidade é, cada qual em sua especialidade, procurar maneiras de estabelecer uma convivência harmoniosa entre natureza e desenvolvimento—por mais que essa idéia soe como utopia no Brasil de hoje. Em sua maioria, não são ecólogos—aliás, uma palavra tão nova que nem existe no dicionário.

A atividade também não está regulamentada, mesmo porque só existe uma Faculdade de Ecologia em todo o Brasil. Trata-se de uma das unidades da Unesp (Universidade Estadual Paulista) que fica em Rio Claro, e cuja primeira turma formou-se em 1979. Esses profissionais—cerca de 300, como calcula o professor José Galizia Tundizi, da Universidade de São Paulo, presidente da Sociedade de Ecologia do Brasil-são biólogos, biólogos, agrônomos, que trabalham em universidades, órgãos do governo, empresas de consulta ia ou entidades ecológicas. Em geral, motivados pelo trabalho que realizam, acabam aperfeiçoando os estudos em algum dos seis cursos de pós-graduação em Ecologia do pais. Quando se fala em Ecologia, a primeira imagem que vem à cabeça é a de uma ruidosa manifestação de militantes do verde contra a instalação de alguma fábrica malcheirosa, pela preservação da Mata Atlântica ou o fim da caça às baleias. E, nesse caso, a primeira impressão faz sentido. Apesar de o Brasil estar vinte anos atrasado em relação ao despertar ecológico que sacudiu os Estados Unidos, a Europa e o Japão, também por aqui as entidades preservacionistas têm chamado a atenção com campanhas pela melhoria da qualidade de vida. 

Talvez por isso os técnicos que estudam, identificam e apontam soluções às vezes ousadas para os problemas causados pelo homem à natureza acabem associados ao ativismo ecológico. Na realidade, acontece o contrário. A militância está deixando a fase em que valia mais o entusiasmo, para alcançar causas imediatas e se empenha na realização de projetos de manejo sustentado da natureza. Hoje, uma entidade como a Fundação S Mata Atlântica, por exemplo, reúne profissionais de diversas entidades governamentais e privadas visando avaliar as possibilidades de usar imagens de satélite de sensoriamento remoto para um banco de dados da floresta. A ciência ecológica, por sua vez, é muito mais antiga do que a militância com que freqüentemente passou a ser contundida. Remonta ao século XIX, época em que o cientista inglês Charles Darwin (1809-1882) revolucionou a Biologia com a sua teoria sobre o mecanismo da evolução das espécies. Como uma chave para tentar explicar por que algumas espécies ganham melhores aptidões para desbancar suas competidoras, o zoólogo alemão Ernst Haeckel (1839-1919), admirador de Darwin, usou a palavra “ecologia” pela primeira vez numa conferência proferida na Universidade de Jena, Alemanha, onde lecionava.

Junção das palavras gregas oikos (casa) e logos (conhecimento, estudo), Ecologia significa o estudo do lugar onde se vive e das relações entre os organismos e o seu ambiente. Dizem os historiadores dessa ciência que Haeckel inventou a palavra, mas não a aplicou no seu próprio trabalho sobre a morfologia—estudo das formas—de seres microscópicos. Nesse caso, a Ecologia deve muito mais a outros cientistas da época, como o naturalista alemão Alexander von Humboldt (1769-1859), que mostrou a influência do clima sobre a vegetação, e o botânico dinamarquês Eugenius Warming (1841-1924), considerado o primeiro ecólogo, por ter pesquisado como as plantas se ajustam ao calor, à luz, à alimentação e à água disponíveis.Diferentemente das ciências exatas, a Ecologia, muito mais abrangente, tomou de empréstimo os conhecimentos da Geologia, Biologia, Física e Química, para analisar um rol de fatores, como a transferência de energia e matéria — alimentos, água e oxigênio—, que afetam populações e comunidades numa determinada área. Quando fala de comunidades, a Ecologia não tem limites. 

“A mais nua das rochas da Antártida fervilha de microorganismos”, lembra o ecólogo Sérgio Rosso, da Universidade de São Paulo. Rosso estuda, há anos, a vida das algas, dos mexilhões, dos ouriços-do-mar, das anêmonas, da vegetação, das bactérias, enfim, da rica comunidade de seres vivos que ocupa os costões rochosos brasileiros. Em sua sala, no Departamento de Ecologia, estão guardadas centenas de frascos contendo pequeninos organismos marinhos à espera de serem identificados. Minucioso, Rosso enumera em gráficos, que depois são transformados em modelos no computador, a freqüência com que essas comunidades aparecem nos rochedos do litoral. “Se eu acompanhar o ciclo de vida dessas populações durante o ano, posso identificar quando um fator anormal estiver ocorrendo”, explica. Por fator anormal leia-se qualquer espécie de poluição invadindo as praias.Durante anos, os americanos fizeram esse tipo de estudo na poluidíssima Baía de Chesapeake, no nordeste dos Estados Unidos. Hoje, graças aos parâmetros ali obtidos, eles têm condições de controlar qualquer ameaça a outras áreas de risco do litoral. 

Rosso acredita que isso também poderia acontecer nos costões brasileiros. Ele pretende este ano concluir a análise das espécies existentes na Praia de Barequeçaba, no litoral paulista, para apresentar as sugestões de cuidados que devem ser tomados na construção de um emissário de esgotos. Da mesma forma, no Rio de Janeiro, a instalação de um pólo petroquímico em Itaguaí, próximo da Baía de Sepetiba, só terá início com a aprovação do Rima—Relatório de Impacto Ambiental—que avaliará os efeitos da indústria sobre o litoral. Quarenta anos atrás, quando começou a ser implantado o pólo petroquímico de Cubatão, no litoral paulista, ninguém se preocupou com eles. E o resultado todos conhecemos e lamentamos: Cubatão ganhou o título de campeã mundial da poluição.Essa diferença de tratamento entre o passado—quando a preocupação com o meio ambiente era rotulada de romantismo—e o presente mostra como mudaram os valores das questões de poluição. Foi-se o tempo, por exemplo. de obras como a Hidrelétrica de Balbina, ao norte de Manaus, sempre lembrada quando se fala em falta de planejamento ambiental. Balbina, inaugurada há dois anos, inundou uma área equivalente à do lago de Tucuruí, sepultando madeira nobre e um número incalculável de animais, para fornecer trinta vezes menos energia que a usina paraense. Se fosse planejada hoje, depois de promulgada a nova Constituição, sua licença dependeria de uma análise prévia do impacto ambiental que viesse a provocar.

Mais recentemente, a construção da barragem de Rosana, no Rio Paranapanema, entre São Paulo e Paraná, foi precedida por um estudo da qualidade da água e identificação de grupos de peixes, plancton e algas. Além disso, toda a área a ser inundada sofreu um processo de desmatamento. “Assim, quando o lago começou a cobrir a região, há quatro anos, não havia excesso de nutrientes provocado pela vegetação apodrecida”, explica o biólogo Pedro Umberto Romanini, da Centrais Elétricas de São Paulo, responsável pelo trabalho. Durante esse tempo, Romanini fez coletas bimestrais de água e participou de pescarias periódicas na região, até poder afirmar, de maneira categórica: “Devido aos nossos cuidados, ocorreram poucas alterações no ecossistema”.Quando a Rio—Santos, ligando o litoral paulista ao Rio de Janeiro, foi construída vinte anos atrás, pouca gente no Brasil dava atenção às questões da natureza. 

A estrada avançou pelas praias, lavouras, escarpas e matas da Serra do Mar, causando consideráveis perdas ao patrimônio turístico que pretendia valorizar. Atualmente, sem ter nas mãos um Rima, ninguém pode construir uma obra de porte com impacto ambiental. Foi assim no projeto da Rodovia do Sol, que ligaria a região metropolitana de São Paulo ao litoral norte do Estado. “Passamos semanas no meio do mato para identificar as espécies de vegetação que estariam no caminho da estrada”, recorda-se o ecólogo Waldir Mantovani. Um dos raros especialistas brasileiros em fitossociologia, ou estudo das comunidades de plantas, Mantovani foi contratado como consultor da Themag Engenharia, encarregada das obras, para fazer um estudo que oferecesse subsídios ao Relatório de Impacto Ambiental.Foi um trabalho minucioso, no qual contaram-se as plantas e a variedade de espécies em encostas, fundos do vale e no alto dos morros do Parque Estadual da Serra do Mar, uma das poucas reservas da Mata Atlântica que ainda restam na costa brasileira e por onde passaria a rodovia. “O desmatamento em declives tão acentuados traria o grande perigo dos desabamentos”. concluiu Mantovani. “A vegetação restante também não resistiria às alterações do terreno.”

Essas considerações foram debatidas em audiências is públicas que contestaram a validade da estrada. O Estado, agora, terá de procurar uma opção que provoque menos prejuízos ecológicos, mesmo que isso signifique gastar mais, pois os órgãos ambientais só permitem que as obras sejam reali-zadas com a aprovação dos Rimas. Por isso mesmo, resume Mantovani, “esses relatórios são um recurso importante —desde que bem feitos”. Mantovani se refere assim à falta de preparo de uma parte dos técnicos que produzem os relatórios. De fato, nesses tempos de aprendizado sobre como conciliar desenvolvimento com natureza, por falta de informação ou simplesmente má fé, vários diagnósticos de impacto ambiental são superficiais ou acabam omitindo problemas ecológicos e sociais.Por causa disso, pessoas como o economista Emilio Lebre La Rovere, ex -chefe da área de Energia da Finep (Financiadora de Estudos e Projetos), sentiram a necessidade de implantar o primeiro curso de pós-graduação em Impactos Ambientais a funcionar no país, na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Seu objetivo, como coordenador do curso, é formar equipes multidisciplinares de engenheiros, economistas e outros profissionais mais acostumados a fazer contas para diminuir os custos das obras do que a pensar no preço da qualidade de vida.

Mais amplo do que a pós-graduação em Ecologia, o curso de Impactos Ambientais analisa os problemas relacionados à natureza sob o aspecto da legislação, da segurança de construções, da arquitetura e do impacto social. Segundo La Rovere, “na maioria dos órgãos do governo e da iniciativa privada, os departamentos de meio ambiente não participam do processo de decisão. É preciso mudar essa mentalidade”. O exemplo da UFRJ foi seguido em São Paulo, e hoje a USP está iniciando também a sua pós-graduação em Ciências Ambientais reunindo especialistas em Engenharia, Saúde Pública, Física e, naturalmente, Ecologia. Segundo a coordenadora do curso, Sylvia Campliglia, diretora do Instituto de Biociências, “existe, no pais, uma estrutura de defesa contra problemas de meio ambiente que funciona, mas de maneira isolada. Por enquanto, estamos aprendendo a apagar incêndios. Se formarmos mão-de-obra, vamos estabelecer uma estratégia global para acabar com o fogo”.

 

 

 

 

 

Para saber mais:

Terra quente

(SUPER número 4, ano 3)

 

A multinacional da ecologia

(SUPER número 4, ano 5)