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Mergulhando nas águas geladas da Antártida

Uma perigosa aventura para conhecer a vida num profundo mundo azul-escuro e descobrir como restabelecer sua pureza original

Jon Lewit

Uma descarga de adrenalina percorreu meu corpo assim que eu afundei na água gelada. A luz, que em cima era um branco ofuscante, em baixo transformou-se num azul cada vez mais escuro. Por perto, ouvia a cação melodiosa de uma foca à procura de comida. E, mais no fundo, uma quantidade enorme de estrelas-do-mar vermelhas e corais rosa-pálido. Esponjas de todas as formas e tamanhos. Mariscos, vieiras e peixinhos estão por toda parte. Uma diversidade de imagens que atordoa meus sentidos. Olho para a superfície, 30 metros acima, e percebo um pequeno círculo brilhante, uma lua cheia contra um céu escuro. Mas lá em cima, eu sei, é pleno dia.

Essa lua cheia é luz solar que brilha no buraco circular, de 3 metros, aberto no gelo sólido para que eu pudesse mergulhar. A temperatura da água é de 2 graus Celsius negativos e eu sinto o rosto queimar com o frio. Os companheiros esperam minha volta, na superfície gelada do oceano. Somos biólogos marinhos e trabalhamos sob os mares gelados do McMurdo Sound, na Antártida, as águas mais meridionais do mundo. Abaixo da extremidade sul da África, da América do Sul e da Austrália, fica o grande continente da Antártida, com mais de 15 milhões de quilômetros quadrados, quase duas vezes o tamanho do Brasil. É o maior e o mais seco continente do planeta.

Praticamente todo coberto de gelo permanente, o substrato rochoso da Antártida, com uma espessura média de 3 000 metros, é visível somente em alguns vales e nas praias. Prateleiras de gelo permanente cobrem grande parte dos mares de Weddell e Ross, definidos respectivamente pelas duas grandes reentrâncias costeiras no sul da América e da Nova Zelândia. A barreira de gelo cerca o continente até o final dos meses de verão, tornando a navegação por ali quase impossível. Contribui para o isolamento da região o fato de, mesmo no verão, de dezembro a fevereiro, o mar ficar recheado de grandes icebergs. A temperatura chega aos 88 graus negativos, mais fria do que no Pólo Norte – e raramente ultrapassa, em direção ao calor, o ponto de congelamento.

Essas penosas condições impossibilitaram, até recentemente, a exploração do ambiente abaixo da superfície do mar. Somente nos últimos vinte anos, com a utilização de modernos equipamentos, os cientistas conseguiram chegar às regiões mais profundas das águas costeiras. Quem viveu essa experiência certamente presenciou um espetáculo que não existe em nenhuma outra parte da Terra. A existência de um continente no sul já havia sido “adivinhada” pelos gregos antigos, que imaginavam uma contrapartida para o Ártico gelado, que eles conheciam, indispensável se o mundo realmente estivesse equilibrado sobre uma balança. Em 1738, o francês Bouvet de Lozier descobriu a ilha subantártica hoje chamada Bouvetoya. Em suas viagens de 1772 – 1775, o capitão inglês James Cook circunavegou o oceano ao sul, embora ele próprio jamais tivesse posto os olhos no continente. Somente no final do século XVIII as ilhas e a península antártica (a parte do continente abaixo da América do Sul) começaram a ser exploradas por franceses, ingleses e americanos.

Esses pioneiros, é claro, não foram atraídos por alguma preocupação científica, mas pelas riquezas que a Antártida tinha a oferecer. Metodicamente, eles saquearam as praias do extremo norte, onde havia focas e pingüins, transformados em peles e óleo. Embora lamentável pela devastação causada, foi essa grande atividade comercial que levou à descoberta do continente, pouco mais tarde. Mas foi uma decepção para aqueles descobridores: a parte interna do continente exibia poucas riquezas e impunha uma vida muito mais dura aos caçadores de focas; graças a isso, ficou entregue às pesquisas da comunidade científicas.
Em 1957/58, o Ano Internacional de Geofísica, um programa internacional que englobava ciências como a Geologia, a Meteorologia, a Física e a Oceanografia marcou o início da exploração contemporânea da Antártida.

Foi nessa época que os americanos estabeleceram a Estação McMurdo, na Ilha de Ross. No final de 1959, doze das nações envolvidas nas pesquisas sobre a Antártida (Argentina, Austrália, Bélgica, Chile, França, Grã-Bretanha, Japão, Nova Zelândia, Noruega, África do Sul, Estados Unidos e União Soviética) assinaram o Tratado da Antártida, que declarou o continente área preservada para a pesquisa científica. Outros 39 países, que representam dois terços da população mundial, seguem atualmente suas diretrizes, o que significa, na prática, a transformação da Antártida num vasto laboratório ambiental, onde a cooperação internacional permite um livre intercâmbio de informações científica.

Nossa viagem para McMurdo começou na Nova Zelândia, em Christchurch. As roupas de sobrevivência, essenciais para o trabalho nas condições daquela região, foram distribuídas ainda durante o verão, o que nos fez suar bastante durante os testes que com elas realizamos. Cada um dos seis membros de nossa equipe levou 100 quilos de bagagem, aí incluídos os equipamentos para mergulho, para pesquisa científica, computadores e objetos de uso pessoal. O velho avião Hércules que nos transportou não foi construído para oferecer comodidades aos passageiros, sobretudo ao longo dos 4 000 longos e gelados quilômetros da nossa viagem de oito horas, rumo ao McMurdo.

Uma pequena cidade alojada nas praias do sul da Ilha Ross, com uma população de 1 20 pessoas, assim é este centro de exploração científica e principal base do programa antártico dos Estados Unidos. Levamos alguns dias instalando nossos equipamentos nos arredores da estação e fazendo um curso relâmpago sobre sobrevivência no gelo e no frio. Todo o pessoal participa dessa atividade, pois a temperatura na Antártida costuma mudar subitamente, sem nenhum aviso, e as equipes podem ficar em dificuldades horas ou mesmo dias, antes que sejam resgatadas. Nosso objetivo é avaliar o impacto que o homem pode causar no ambiente submarino.

Estamos em novembro e a primavera exibe uma natureza coberta de gelo sólido. Antes de mergulhar, é preciso abrir um buraco suficientemente grande para que uma pessoa passe por ele, usando equipamento completo. Isso é feito por uma serra hidráulica, montada num trator, que precisa de dez minutos para enfiar uma lâmina através de 3 metros de gelo. Furamos vários buracos ao redor de cada um dos nossos locais de pesquisa, a fim de obter mais segurança para os mergulhadores e também para facilitar o transporte por longas distâncias das amostras coletadas no fundo do mar.
Cada mergulho dura cerca de quarenta minutos. Usamos roupa impermeável, um fino uniforme de neoprene que pode ser inflado por uma mangueira conectada aos tanques de oxigênio.
Na verdade, esse uniforme não é muito quente; debaixo dele, usamos diversas camadas de isolantes térmicos.

Somente nosso rosto não é protegido pelo uniforme, para que possamos usar a máscara de mergulho. Sem o uniforme e as camadas isolantes, um mergulhador morreria em trem minutos, de hipotermia. Nossos mergulhos variam entre 3 e 45 metros de profundidade e mergulhamos duas a três vezes por dia. Entre os mergulhos, descansamos, caminhamos e analisamos as coletas.

Mergulhar sob o gelo antártico é diferente de mergulhar em qualquer outra parte do mundo. Aqui, o mergulho apresenta inúmeros desafios e estamos sempre sendo testados nos limites nossas capacidades. Mas é, de qualquer forma, a experiência mais excitante que já vivi. Quando descia pelo buraco cilíndrico furado no gelo, passava logo por uma zona de transição, entre a vasta superfície branca e o escuro do fundo. Com a visão ainda adaptada ao sol da superfície, a primeira visão sob a água é uma escuridão impenetrável. Sinto a água gelada queimar as bochechas e os lábios expostos. A luz difusa que penetra a superfície de 3 metros de gelo dá um tom azulado, fantasmagórico, ao mundo submarino.

A presença de espírito é fundamental para mergulhar na Antártida, pois aqui não há chance para pensar duas vezes, antes de tomar uma decisão. Ao contrário do mergulho nas águas abertas, aqui há um único caminho para voltar à superfície: aquele buraco aberto no gelo. Por isso, quem chega pela primeira vez é testado diversas vezes seguidas antes de entrar na água, sobretudo cientistas. Alguns membros do nosso grupo já haviam mergulhado aqui, e nos prepararam para enfrentar todas as dificuldades.

O continente antártico é um vasto deserto rochoso, coberto de gelo e praticamente destituído de vida animal na superfície. Debaixo d’água, entretanto, existem comunidades muito ricas e variadas. Os mares do sul formam um ambiente altamente produtivo, com plânctons e pequenos camarões, do tipo krill, proliferando nos meses de verão, quando alimentam as baleias migratórias. McMurdo Sound também hospeda grande número de orças, que podem ser vistas boiando, para respirar, nas rachaduras que se abrem no gelo, no final do verão. Os pingüins Emperor e Adele vêm ao McMurdo todos os anos, para fazer ninhos e agrupar os filhotes em grandes colônias, nas praias da Ilha Ross.

Os pássaros que sobrevoam o mar alimentam-se de peixes e, por sua vez, são comidos por baleias. Focas Weddell, as que mergulham mais profundamente, estão perfeitamente adaptadas à vida na região. Elas são capazes de localizar buracos no gelo, bem distantes, o que lhes permite escapar dos predadores. Arrastam-se para fora do gelo, para dar cria, e são nossas companheiras constantes, tanto na superfície quanto debaixo d’água. Mas impressionantes, mesmo, são as comunidades de invertebrados.

Aqui vivem muitas espécies de anêmonas-do-mar e lindas espécies de larvas que projetam suas imagens como flores para extrair da água o alimento de que necessitam. Há montes tão densos de mariscos que eles ficam empilhados uns sobre os outros, da mesma forma que as estrelas-do-mar, de um colorido brilhante. Esses animais vivem numa área geográfica reduzida e são os mais sensíveis às mudanças no meio ambiente, ainda que pequenas. E, lamentavelmente, mesmo nesse Éden aparente, começam a surgir os traços deixados pelos homens.

Ao longo dos anos, os habitantes da McMurdo – pelo menos até o despertar da consciência ecológica, nos anos 70 – jogaram seu lixo, esgoto, máquinas velhas no oceano, como qualquer outro grupamento humano. Hoje não se faz mais isso, mas os trastes continuam lá – e nossa tarefa é exatamente avaliar as proporções do problema para que os cientistas possam preparar os projetos de recuperação. Felizmente, a quantidade de lixo jogado em torno da estação é pequena, e a área atingida está bem delimitada. Como o mar fica coberto de gelo a maior parte do ano, quase nada da poluição é arrastada para fora da estação.
No entanto, essa pequena poluição, que em águas mais quentes não causaria preocupação, aqui pode tornar-se um problema grave.

A baixa temperatura faz com que os recursos naturais de limpeza funcionem bem mais devagar. Nós pegamos amostras de animais que vivem tanto embaixo quanto sobre o solo marinho. Esses minúsculos invertebrados são, em seu ambiente, os animais mais sensíveis a mudanças químicas. Determinamos quais as espécies presentes entre os contaminados e que elementos químicos os haviam contaminado. Essa informação é comparada com medições similares feitas em locais não expostos à contaminação e dessa forma avaliam-se as transformações resultantes do contato com o homem.

É difícil prever quanto tempo será necessário para a recuperação do ambiente, uma vez que tudo anda mais devagar nas águas geladas. Para descobrir os caminhos a serem percorridos na recuperação, estudamos áreas afetadas por fenômenos naturais. A principal alteração do solo marinho no McMurdo decorre dos grandes icebergs que deslizam em águas relativamente rasas (45 metros), no litoral. Um iceberg deslizando age como uma máquina de terraplenagem, que destrói todas as formas de vida ao redor. Recolhendo amostras de suas bordas geladas, podemos reconstituir a história das alterações do solo marinho, que abarca muitos anos. Dessa forma, estamos aptos a prever a escala de tempo necessária para a recuperação do ambiente abalado pelo homem.

Isolada do resto do mundo pelo gelo, a Antártida está a salvo de uma ação poluidora mais intensa. Embora esse tenha sido o primeiro ano de um projeto que deve durar vários, começamos já a compreender os efeitos de uma ação inconseqüente, no passado recente, e o que ela poderá representar no futuro. Esse conhecimento nos ajudará a prevenir problemas posteriores e conservar esse ecossistema, que é único, trazendo-o de volta à sua beleza primitiva. Um lugar para os cientistas explorarem, tomando notas e deixando suas memórias, mas não rastros desagradáveis de sua passagem.

Texto de Jon Lewit c. Azimut Productions