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Mundo deserto

Um terço das terras do planeta são extensões estéreis. É o resultado da açào milenar das forças que moldam o clima. Agora, o homem começa a fazer a sua parte, para piorar tudo.

Gisela Heymann

Para atravessar em 1990 o deserto de Gobi, que se estende por 1600 desolados quilômetros na Mongólia, Asia Central, o explorador britânico Sir Aurel Stein, se muniu de muita coragem e de um antigo mapa. Nele, um viajante veneziano chamado Marco Polo tinha anotado, seiscentos anos antes, 28 indicações literalmente vitais para uma travessia desse porte — os oásis, onde pudera matar a sede nos quatro anos que levou para ir de Bassora, no extremo norte do Golfo Pérsico, a Pequim, na China. Para Sir Aurel, que passou quinze anos em Gobi, o mapa foi um guia precioso: sua exatidão poupou a caravana que comandava do risco de perecer por falta de água. Pior sorte tiveram os pioneiros colonizadores da Austrália, no século passado. Convencidos de que havia uma espécie de grande mar interior no centro do território, como o Cáspio, no sul da União Soviética — já que a maioria dos rios ali correm em direção ao mar — empreenderam expedições que acabaram liquidadas ou pelas setas dos aborígenes ou pela implacável aridez da natureza.

Experiências tão diversas como aquelas recheiam a volumosa, multissecular crônica dos desbravadores, cientistas, comerciantes e aventureiros que por motivos não menos variados ousaram confrontar as imensidões inóspitas de terras conhecidas como desertos, que, somadas, ocupam uma área surpreendente. “Se descontarmos as calotas glaciais, constituem pouco mais de um terço das terras emersas do planeta”, calcula o professor francês Pierre Rognon, geólogo especializado no estudo dos desertos, ou Eremologia, como dizem seus praticantes. “E em todo esse espaço, a vida se limita a poucas e obstinadas plantas e animais, além dos bandos nômades, cada vez menos numerosos.” Diretor do Laboratório de Geodinâmica dos Meios Continentais da Universidade de Paris VI, Rognon conhece como poucos o maior e mais famoso deserto do mundo: o Saara, que atravessa onze países no norte da África e cujos 8,6 milhões de quilômetros quadrados — pouco mais que um Brasil inteiro — ele vem pesquisando desde 1953, viajando de camelo, jipe e helicóptero. Haja dedicação: ali, a temperatura alcança 43 graus de dia e desce a 10 graus à noite.

Como o nome quer dizer em árabe antigo, é um “espaço vazio de solo nu e sem vegetação”. A descrição traça adequadamente o perfil das regiões desérticas do globo, caracterizadas por receberem menos de 250 milímetros anuais de chuva. A origem dos desertos está diretamente ligada ao clima da Terra. Não por acaso, a maioria deles se situa nos trópicos, onde zonas de alta pressão impedem que a superfície seja umedecida. Segundo a explicação mais aceita pelos cientistas, isso acontece porque nas zonas de clima tropical, mais próximas ao Equador, o Sol se avizinha do zênite, o ponto mais alto da abóbada celeste. Sua radiação, que por isso incide quase perpendicularmente, é em boa parte absorvida pela superfície, que a transforma em calor. O ar assim aquecido, por ser mais leve, ganha as camadas superiores da atmosfera, leva consigo grande quantidade de vapor de água proveniente dos oceanos e cria, num processo semelhante ao de um desentupidor de pia, uma zona de baixa pressão acima do solo.

À medida que o ar sobe, encontra regiões cada vez mais frias e começa a se expandir em direção aos pólos, dissipando seu calor. O vapor de água, que se condensa na presença do frio, forma pesadas nuvens que desabam em temporais que irrigam florestas como a da Amazônia, onde chove 3 mil milímetros anuais, ou do Vietnã. O ar, já então ressecado e resfriado, se torna mais denso e começa a descer exatamente sobre os trópicos, formando assim as zonas de alta pressão, também chamadas anticiclones. Quando chega perto da superfície, é atraído pela região vizinha, de baixa pressão — e o ciclo recomeça. Dessa forma, superfícies imensas no norte da África, na Austrália e na Península Arábica ficam privadas de chuva, pois o ar não consegue levar a água até elas. Existem ainda desertos, como os do Peru e do Chile, que devem sua extrema aridez a cadeias de montanhas, no caso os Andes, que barram a passagem das nuvens carregadas de água. E existem, enfim, os desertos de gelo, dos quais o melhor exemplo é a Antártida, com seus 13 milhões de quilômetros quadrados. Ironicamente, embora retenha o maior volume de água doce do planeta, a Antártida quase desconhece a chuva. “É o deserto perfeito”, define Rognon. “Ali, caem por ano ínfimos 127 milímetros, como na região de Tanezrouft, no coração do Saara. Além disso, o frio intenso, que chega a 50 graus centígrados abaixo de zero, contribui para restringir dramaticamente quaisquer manifestações de vida.” Embora pareçam à primeira vista extremos opostos, os desertos quentes e frios apresentam estranhas coincidências quanto às origens. Como um espelho, o gelo reflete a maior parte da radiação solar em direção à alta atmosfera e o ar é resfriado sem cessar em contato com a superfície.

Principalmente nos desertos quentes, onde as dunas penteadas pelo vento não representam mais de um quinto da área total, a natureza parece um eterno vazio, para além de qualquer mudança possível. Grande engano. Em 1981, a nave espacial americana Columbia, dotada de um aparelho de radar que emitia os sinais captados do solo para uma estação receptora nos Estados Unidos, sepultou aquela percepção. Vasculhando um trecho do Deserto da Líbia entre o Egito e o Sudão, onde a camada de areia é particularmente espessa e pode esperar até seis anos por uma chuva, a nave transmitiu uma imagem desconcertante para a equipe de geólogos de plantão em terra.”Meu Deus, que aconteceu com a areia?”, reagiu atordoada a cientista Carol Breed. Alguns minutos foram necessários para que se percebesse que o solo, de tão seco, foi incapaz de refletir as ondas eletromagnéticas do radar. A radiação ecoou, isso sim, nas rochas 5 metros abaixo da superfície. As fotografias resultantes, um verdadeiro tesouro, permitem dizer que, há mais de 20 mil anos, o Saara era uma região cortada por numerosos rios e, portanto, apta a abrigar exuberante vegetação e muitas formas de vida, incluindo a espécie humana. No meio do deserto onde hoje apenas algumas aves migratórias arriscam as penas, pode-se de fato encontrar um mar de inscrições rupestres, teslemunhas da ocupação humana da época do Neolítico, há cerca de 9 500 anos. São desenhos reveladores: mostram crocodilos, leões, girafas. elefantes e hipopótamos uma fauna pouco dada a freqüentar regiões extremamente áridas. Mas, naqueles idos, quando o bicho homem começava a adquirir endereço certo e sabido com a prática da agricultura, as terras do norte africano, embora cada vez menos providas de umidade, ainda podiam amparar a presença de vida.

A exploração superintensiva do solo acabaria ao longo do tempo por interromper o ciclo vital primitivo oriundo de um passado muito mais longínquo. Realmente, troncos fossilizados do que teriam sido frondosas árvores são indícios inequívocos de que o Saara foi há 70 milhões de anos uma exuberante floresta. A África estava então a mais de meio caminho de sua localização atual — as áreas que correspondem a países norte-africanos, como Argélia, Marrocos, Líbia e Egito, se encontravam na linha do Equador, onde estão hoje Gabão, Zaire, Uganda e Quênia, no coração do continente. Ainda antes disso, na quase inimaginável época que remonta a meio bilhão de anos, a placa africana fazia parte do aglomerado de terras situadas no Pólo Sul, ou seja, era um imenso deserto de gelo.

O fenômeno inverso também ocorreu: calcula-se que a Terra tenha tido desertos no mínimo desde o período Permiano, que terminou há 230 milhões de anos. Florestas como a da Amazônia, por exemplo, eram regiões semi-áridas naquele período. “A prova disso”, aponta o geólogo Kenitiro Suguio, do Instituto de Geociências da Universidade de São Paulo, “é que ainda há pontos onde a vegetação típica das savanas secas convive com a floresta úmida.”As mudanças geológicas fizeram desaparecer os desertos desta parte do mundo, para sorte dos brasileiros. O maior deles era o da Bacia Sedimentar do Paraná, que existiu no Jurássico, há mais de 135 milhões de anos, tomando todo o sul do continente. “Dentro desta grande evolução, existem pequenos ciclos”, precisa o geólogo francês Pierre Rognon. “Há épocas, como a atual, em que as regiões áridas se expandem e outras em que elas encolhem até quase desaparecer.”Hoje, apenas algumas variedades de escorpiões, serpentes e besouros se aventuram por zonas como o “Quarteirão (ou corredor) Vazio”, no sul da Península Arábica, uma das áreas menos habitadas do mundo.

Ali onde o clima é um pouco menos infernal, até alguns pequenos mamíferos insistem em sobreviver, ao custo de drásticas mutações. As espertas raposas do deserto, por exemplo, desenvolveram longas orelhas para, ao que tudo indica, aumentar a superfície de evaporação e assim manter estável a temperatura interna do corpo. Os lagartos chegaram a um verdadeiro requinte. Algumas espécies adquiriram nada menos que pálpebras transparentes, espécie de óculos naturais que permitem ao animal permanecer eternamente com os olhos fechados, a melhor defesa contra as tempestades de areia. Outros mamíferos armazenam na cauda grandes quantidades de gordura, que podem ser metabolizadas em água, num processo equivalente ao da corcova dos dromedários. Já as franzinas e desfolhadas plantas, por disputar cada gota das raríssimas chuvas, crescem a uma boa distância umas das outras e esticam as raízes por dezenas de metros para captar o máximo possível de umidade.

Os únicos lugares onde se pode encontrar formas de vida um pouco mais exuberantes são os oásis, que representam menos de 0,5 por cento das áreas desérticas. Sua origem é curiosa. As águas das chuvas que caem sobre encostas de montanhas, às vezes a milhares de quilômetros, infiltram-se em rochas porosas e seguem cursos que podem se dirigir para as regiões desérticas. Se, em pleno deserto, um vale ou uma fenda entre as rochas forem mais baixos que a zona regada pelas chuvas, a água aflora, podendo formar-se uma espécie de lago constantemente alimentado, ao redor do qual se juntam bichos e pessoas em busca de sombra e água fresca. Ainda hoje, grupos nômades mantêm a tradição de viver sob tendas desmontáveis, com seus magros rebanhos, prontos a levantar acampamento assim que percebem a escassez do precioso líquido. As cidades da periferia do Saara, instaladas perto de indústrias e assoladas por um invencível crescimento demográfico, causam por sua vez um fenômeno que assusta cada vez mais os estudiosos. Trata-se da desertificação, a formação de desertos pelo homem, que galopa à assustadora velocidade de 60 mil quilômetros quadrados por ano, o equivalente a quarenta cidades do tamanho de São Paulo.

Associando-se aos fatores naturais.como a falta de chuvas e os fortes ventos, o homem perpetra outra agressão ao ambiente, já não bastassem o efeito estufa, o buraco no ozônio e a chuva ácida. De fato, o crescimento demográfico nas áreas semi-áridas leva à ampliação dos rebanhos, que devoram as pastagens e esterilizam enormes extensões de terra. A produção de alimentos diminui devido ao encurtamento dos ciclos de plantio e colheita. Exausto, o solo passa a sofrer a erosão. Isso força o homem a buscar novas terras, incluindo as florestas nativas. As árvores são cortadas e consumidas, os arbustos e as plantas rasteiras comidos ou esmagados pelos animais; o solo, nu, é então varrido pelo vento e pela areia, que se liberta e invade as terras vizinhas. “Não há dúvida de que aí está um dos grandes problemas a serem resolvidos no século XXI”, comentou recentemente o geógrafo francês Edmond Bernus, dias antes de partir para uma temporada de dois anos no miserável Mali, no noroeste da África. O Mali, onde vivem atualmente mais de 8 milhões de pessoas, será, ao que tudo indica, o primeiro país do mundo a ficar literalmente inabitável em conseqüência dessa catástrofe ecológica.

 

 

Para saber mais:

O clima está mudando?

(SUPER número 3, ano 8)

 

 

 

 

Os cinco maiores vazios

 

a-Nome

b-Localização

c-Área (km2)

d-Chuvas (mm/ano)

e-Temperatura (máx. e min. em C°)

 

 

 

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a- Saara

b- Norte da África

c- 8 600 000 km2

d- 200 mm/ano

e- 43C°máx. e 10C°min

 

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a- Arábia

b- Sudoeste da Ásia

c- 2 330 000 km2

d- 100 mm/ano

e- 51C° máx. e 12C° min.

 

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a- Gobi

b- Ásia Central

c- 1 166 000 70 km2 a

d- 200 mm/ano

e- 45C° máx. e -40C°min.

 

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a- Patagônia

b- América do Sul

c- 673 000 90 km2 a

d- 430 mm/ano

e- 45C° máx. e -11C° min.

 

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a- Grande Vitória

b- Sudoeste da Austrália

c- 647 000km2

d- sem dados

e- sem dados

 

 

 

 

 

O inferno branco

A paisagem sugere um ofuscante tapete de gelo que se perde no horizonte, como na imensidão da Antártida. O calor, não raro, alcança calamitosos 50 graus. Trata-se, provavelmente, do lugar mais inóspito do planeta — a Depressão de Danakil, 5 mil quilômetros quadrados de puro inferno entre as montanhas que cortam a Etiópia, a oeste, e o Mar Vermelho, a leste, na África oriental. A brancura do cenário se deve à enorme camada de sal que recobre o solo e, em alguns pontos, desce 5 mil metros terra adentro. Isso porque, há muitos milhares de anos, a depressão era um braço do Mar Vermelho. Devido à intensa atividade vulcânica e das placas terrestres na região, o mar dividiu-se em grandes lagos. Estes, castigados pelo sol, acabaram por evaporar, deixando apenas a camada salina, algo como 1 milhão de toneladas ao todo, principal fonte de sobrevivência dos nativos das áreas próximas. Arrancados a golpes de picareta, os blocos de sal são transportados por mulas até o mercado de Makale, a 120 quilômetros, onde a carga é vendida aos comerciantes africanos.

 

 

 

 

Uma árida batalha

Em 1974, após uma prolongada seca na região da África conhecida como Sahel — faixa de terra árida ao sul do Saara —, a ONU convocou uma Conferência Mundial sobre Desertificação. Delegados do mundo inteiro se reuniram em Nairóbi, no Quênia, para estudar medidas que evitassem a expansão das áreas desérticas, como havia ocorrido no Sahel. Na época, estimava-se que um em cada oito seres humanos, a metade do gado bovino, um terço dos bovinos e dois terços dos caprinos já viviam nessas áreas, sendo necessários investimentos anuais da ordem de 4,5 bilhões de dólares para frear o processo até a virada do século. Esses números pioraram tanto, sem que se passasse dos projetos aos atos efetivos de combate à calamidade, que, uma década depois, previa-se que um terço da superfície do planeta estará morto até o ano 2000, ameaçando a já precária sobrevivência de 850 milhões de pessoas.

“A desertificação não é propriamente a formação de dunas, mas o esgotamento de toda a capacidade do solo de suportar a vida”, define o geólogo João José Bigarela, presidente da Associação de Defesa e Educação Ambiental de Curitiba, conhecido pela sua luta em defesa da natureza. “Entendido o processo como o aumento da aridez, podemos ver exemplos em todo o pais”, adverte ele.

O Brasil, segundo dados de 1983, da ONU, tinha cerca de 780 quilômetros quadrados de áreas desertificadas, concentradas principalmente no Nordeste, onde viviam mais de 10 milhões de pessoas. As autoridades negam a desertificação, entendendo o termo no sentido mais restrito, mas o fato é que a substituição das florestas tropicais pelo plantio extensivo para exportação, prática por sinal comum desde a chegada do homem branco ao continente, vem criando e alargando regiões áridas e semi-áridas.

Em menos de um século, por exemplo, destruiu-se 81 por cento da cobertura florestal do Estado de São Paulo. O Pontal do Paranapanema, na divisa com Mato Grosso, com mais de 1 500 quilômetros quadrados de área verde em 1950, está totalmente devastado, a exemplo das florestas subtropicais que cobriam a maior parte do território paranaense ou da Zona da Mata nordestina. Pelo menos 500 mil quilômetros quadrados do sertão nordestino já viraram desertos de verdade. Da mesma forma, os menos irrigados pampas gaúchos cresceram, apenas na última década, mais de 20 quilômetros quadrados. Até a floresta amazônica acusa o problema. Explica Bigarela: “Devido à composição química da terra e à grande quantidade de detritos vegetais que a cobre, o desmatamento ali nem chega a liberar para o cultivo solos férteis, que se degradam pela erosão das águas das chuvas.”