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Os bichos pedem passagem

Gabriela Aguerre

Em 1998 começam a ser implantados sete gigantescos santuários na Amazônia e na Mata Atlântica. Com eles, os animais vão ter segurança para circular num espaço muito mais amplo que o atual.

A data para a revolução é julho deste ano, e o local, a Floresta Amazônica e a Mata Atlântica. Objetivo: pôr em prática uma nova maneira de defender os animais e as plantas. É que, se tudo der certo, eles não vão ficar protegidos apenas no interior das reservas já estabelecidas, mas também em grandes áreas vizinhas, inclusive as que conectam os santuários atuais uns aos outros. Para os bichos, significa liberdade para circular em espaços muito mais amplos que os de hoje. Os novos territórios conquistados receberão o nome de corredores ecológicos. “Com os corredores vamos poder fazer o que agora não podemos, que é trabalhar nas regiões entre as reservas”, diz o principal idealizador do projeto, o biólogo José Márcio Ayres, do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, o CNPq. Os planos dessa grande revolução foram obtidos pela SUPER com exclusividade. Nas páginas seguintes, você vai descobrir de que maneira os corredores podem ajudar o Brasil a conservar a sua biodiversidade, que é a maior do mundo.

A ordem agora é abrir as porteiras

Na tentativa de proteger os animais, o homem já criou várias fórmulas, dos zoológicos às grandes reservas naturais, todas elas obedecendo a uma mesma idéia fundamental. Trata-se de delimitar territórios nos quais a natureza deve permanecer intocada, e onde ninguém, a menos que tenha autorização especial, pode entrar. Só que isso, apesar dos benefícios que traz, também é uma fonte de problemas. O fato é que, por maior que seja a reserva ou o parque, muitos dos seus ocupantes sempre ficam meio apertados. E acabam num beco sem saída. Se cruzam a fronteira da reserva, perdem a proteção. Se tentam se ajeitar no espaço disponível, podem não achar o que comer, ou um parceiro para acasalar.

Todas as espécies, das borboletas aos micos, sofrem com as limitações. Prisioneiros das áreas em que estão confinados, os bichos cruzam com parentes próximos, o que torna os seus genes muito iguais entre si. Com isso, os filhotes nascem com aberrações ou estéreis. A mesmice genética também atrapalha na hora de enfrentar as mudanças naturais dos ecossistemas, como uma redução das chuvas em certa região. Imagine um grupo de árvores que têm, todas, a mesma versão do DNA. Nenhuma delas vai ter um gene que ajude a suportar a seca. Mas se houver variedade genética pelo menos alguns vegetais poderão se reajustar e sobreviver.

Uma saída para esses problemas seria abrir as porteiras das reservas, criando um território extra, que está sendo chamado de corredor ecológico. Nessa área, a natureza não vai receber proteção absoluta, como nas reservas tradicionais, mas será mais controlada. Com isso os órgãos e instituições que trabalham para implantar os corredores (veja no quadro abaixo) acreditam que vai dar para montar um ambiente intermediário, favorável à preservação.

Excursões mortais

A jacutinga fica vulnerável quando vai buscar semente do palmito.

Como faz pequenas migrações para catar sementes de palmito fora das áreas em que é protegida, a jacutinga vem sendo dizimada pelos caçadores. Sua carne é ótima. Com a criação dos corredores, a população em torno das reservas vai ser ensinada a policiar a caça. A jacutinga desta foto habita o Parque Estadual Intervales, no sul de São Paulo.

O sagüi perde a namorada

Quem abre uma clareira na mata pode estar separando um casal.

O sagüi-de-coleira salta nos galhos perto de Manaus, inclusive em quarteirões de matas existentes dentro da cidade. Como tem dificuldade para atravessar áreas abertas, muitas vezes fica separado da namorada por uma simples clareira. O jeito é convencer a população urbana e rural a não cortar árvores indiscriminadamente. Para o sagüi, elas significam a possibilidade de um romance.

O bicho homem vai para dentro da reserva

Do total de 5,5 milhões de quilômetros quadrados da Amazônia, apenas 11% já foram afetados pelo desmatamento. Ou seja, ainda resta um vasto mundo intocado. Mas amanhã pode ser tarde demais para evitar desastre maior. Foi esse raciocínio que norteou, no ano passado, a implantação da Reserva de Mamirauá, 600 quilômetros a oeste de Manaus. Ela é inovadora porque abriga gente, o que é proibido nas áreas de proteção convencionais.

O povo ajuda na preservação, aprendendo, entre outras coisas, a cortar árvores apenas na medida das necessidades e a patrulhar os caçadores.

A idéia dos corredores ecológicos veio de Mamirauá (SUPER, ano 11, número 3, página 56). “Por isso, o novo projeto deve nascer lá perto”, diz José Vasconcelos, membro da Comissão Européia, entidade ligada à preservação da natureza que está apoiando a iniciativa. “O dinheiro virá de organizações européias e sua aplicação será coordenada pelo Banco Mundial”, afirma Cristoph Diewald, funcionário do banco. Tudo vai custar, só nos primeiros cinco anos de trabalho, 50 milhões de dólares.

Por favor, não perturbe

Sem sossego, o galo não consegue namorar.

O galo-da-serra tem hábitos muito especiais. Para realizar o ritual de acasalamento, durante o qual fica imóvel como uma estátua tentando hipnotizar a fêmea, exige local tranqüilo e sombreado. Sem isso, fica tímido. O problema é que fora das áreas protegidas o galo dificilmente consegue fugir dos bisbilhoteiros humanos. Daqui para a frente, avisada dos caprichos da ave, a população vai ter que se tocar.

Filhotes preguiçosos

João-barbudo faz ninhos no chão, à mercê dos assaltantes.

Nas poucas vezes em que abre o bico, ele canta na Serra dos Carajás, no sul do Pará, que é a região mais desmatada da Amazônia. Faz seus ninhos em locais de fácil acesso aos predadores, como os barrancos. Para piorar, o nascimento é demorado, já que os ovos só se quebram depois de quinze dias e a ninhada, preguiçosa, leva mais vinte dias para voar. Quem quiser garantir a sobrevivência da espécie vai ter que aprender a localizar os ninhos e tomar providências para que eles não sejam atacados.

O amor vem de longe

Os juparás, que dormem de dia, farão casamentos melhores.

Eles são conhecidos na Amazônia como macacos-da-noite. E não é à toa. Durante o dia, dormem. É no escuro quepasseiam e jantam, de preferência aves e frutas. Raramente descem dos galhos para o chão. Ainda há grupos de juparás em diversas áreas da Amazônia. Mas, como vivem em bandos isolados, é comum o acasalamento entre parentes próximos, o que prejudica a espécie. Por isso os juparás estão ameaçados. Com os corredores, ficam mais folgados.

Encurralado pela agricultura

Quatipuru ainda é abundante, mas causa preocupação.

Essa espécie é um esquilo comum

na Amazônia Central. Mora nas árvores e só desce para buscar comida, o que acontece geralmente ao amanhecer e ao entardecer. O espécime da foto foi encontrado na parte da Amazônia que não alaga, no Acre. Como lá as áreas agrícolas estão em expansão, é provável que a médio prazo grupos deste roedor fiquem isolados uns dos outros. E aí, por mais que seja esperto e ágil, o quatipuru sofrerá os efeitos desse isolamento.

Ainda há salvação para a Mata Atlântica

Restam, hoje, apenas 8% da superfície que era coberta pela Mata Atlântica na época do descobrimento. São 120 000 quilômetros quadrados com 20 000 espécies de plantas, 160 de pássaros, 128 de anfíbios e 73 de mamíferos. Diversos grupos de animais, em muitas dessas espécies, estão ameaçados pela falta de espaço.

Se a mata vem sumindo desde o século XVI, a preocupação agora é evitar que as plantas e os bichos que restaram fiquem ainda mais desabrigados no futuro. Dá para fazer isso criando duas grandes faixas protegidas na floresta. Das duas, a mais importante é o chamado Corredor Central da Mata Atlântica, que se estende entre a Bahia e o Espírito Santo, medindo 200 quilômetros de largura. Ele cobre uma região riquíssima, na qual foram registrados os maiores recordes mundiais em diversidade botânica. Para se ter uma idéia, lá existem de 450 a 476 espécies vegetais em cada hectare, que é uma área equivalente à de um quarteirão. Apesar disso, só 2% desse território está coberto por parques e reservas. O desafio que fica é o de cuidar dos 98% desguarnecidos.

Salvar a pele do gato

Ele é o menor felino selvagem da América do Sul.

O conflito do gato-maracajá-pequeno, o menor gato selvagem da América do Sul, lembra o da onça. Ele precisa de áreas extensas para conseguir comida. Assim, escapa das reservas, aproxima-se de habitações e é caçado. Os felinos de sua estirpe têm peles raras e bonitas, das quais, na década de 80, foram vendidas cerca de 110 000 exemplares no mundo.

A fidelidade do sauá

Monogamia agrava o risco de ele ficar sozinho.

O sauá é um mico assustado e de poucos amigos. Evita o encontro com outras espécies, anda em família ou acompanhado de outros micos machos, sempre em pequenos grupos, de dois a cinco indivíduos. Se tem que atravessar uma área aberta na mata, pode preferir não sair do lugar. O problema é que ele é monogâmico. Tem uma só namorada ao longo de sua vida. E, se ela estiver longe, uma clareira pode ser a causa de um romance sem final feliz. A questão mais preocupante é que o sauá é uma espécie raríssima, que habita algumas poucas regiões da Mata Atlântica do Sudeste.

O sagüi do Espírito Santo

Pai cuida dos filhotes mas não tem quem olhe por ele.

Os caçadores atormentam o sagüi-de-cara-branca para vendê-lo como animal de estimação. Bem pequeno, podendo pesar apenas 100 gramas (no máximo 700 gramas), tem a cauda comprida, maior que o corpo. É para manter o equilíbrio enquanto pula nos galhos atrás da seiva. Seus dentes são especializados em perfurar cascas. Anda em grupos de seis a sete indivíduos, geralmente distantes uns dos outros, no Espírito Santo. Curiosidade: as fêmeas geralmente têm gêmeos e cabe ao pai cuidar deles logo após o parto.

A borboleta por um fio

Espécies como esta só são encontradas no Rio de Janeiro.

O problema da Mimoides lysithous harrisianus é que ela é encontrada apenas em áreas particulares em Barra de São João, no município do Rio de Janeiro. Se essas áreas, como previsto, ficarem dentro do Corredor Central da Mata Atlântica, a espécie pode escapar à ameaça de extinção.

O direito animal de ir e vir

Os corredores vão ligar várias reservas entre si.

Mesmo depois de criados os corredores, as áreas de conservação originais continuarão funcionando. A diferença é que em volta delas haverá um novo espaço de proteção, abrindo caminhos entre um santuário e outro. E aí quem vai cuidar da fauna e da flora nos corredores será a população local, que passará por uma revolução cultural. Os habitantes dos corredores ecológicos vão aprender a proteger animais achados fora das reservas. Também vão poder criar santuários particulares, abrindo espaço para bichos e vegetais. A orientação ficará a cargo dos órgãos e instituições que trabalham para montar os corredores: o Ministério do Meio Ambiente, o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e o Instituto de Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (Ibama).

1. A área desenhada aqui representa uma das reservas que podem existir dentro de um futuro corredor ecológico.

2. O espaço de uma reserva pode não ser suficiente para a onça, que precisa de uns 50 quilômetros quadrados para caçar e acasalar.

3. Agora ela poderá circular entre uma reserva e outra, mas dentro do corredor, onde vai receber proteção e segurança.

4. A onça é conhecida como espécie “guarda-chuva”. Significa que, se for preservada, todos os outros bichos também estão sendo beneficiados.

Passam por aqui, passam por ali

Os cinco novos refúgios da Região Norte.

1. Corredor Central da Amazônia 360 000 km² inclui 12 unidades de conservação*

2. Corredor Norte da Amazônia 180 000 km² inclui 17 unidades de conservação

3. Corredor Oeste da Amazônia 320 000 km² inclui 24 unidades de conservação

4. Corredor Sul da Amazônia 450 000 km² inclui 9 unidades de conservação

5. Corredor dos Ecótones Sul-Amazônicos 350 000 km² inclui 5 unidades de conservação

* Número total de estações, parques (nacionais e estaduais) e reservas.

Os recordes das florestas brasileiras

Números que nenhum outro país bate.

Vertebrados terrestres: 3 000 espécies

Primatas: 76 espécies

Anfíbios: 517 espécies

Peixes de água doce: 3 000 espécies

Plantas com flores: 55 000 espécies

Uma luz no fim da mata

Proteção para os 8% que restam da cobertura original.

1. Corredor Central da Mata Atlântica 120 000 km² inclui 35 unidades de conservação*

2. Corredor da Serra do Mar 115 000 km² inclui 51 unidades de conservação

* Número total de estações, parques (nacionais e estaduais) e reservas

Iniciativa privada

Faça sua própria reserva ambiental.

Desde 1990, existe no Ibama um programa para estimular a criação das chamadas Rppns, sigla para Reservas Particulares do Patrimônio Natural. De lá para cá, 128 cidadãos e empresas aderiram ao programa, muitos com a idéia de explorar o ecoturismo, o que é permitido desde que não comprometa a biodiversidade. Os parques particulares são úteis e qualquer um pode ter o seu. Basta apresentar o documento de propriedade e obter a aprovação técnica. O Ibama fará inspeções anuais no local. A implantação pode demorar até sessenta dias.

Programa Rppn – Ibama

Responsável: Célia Pereira tel: (061) 316-1078