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“Que a minha alma resida no senso comum”, Thomas Reid

 (Redação/Superinteressante)

Thomas Reid mantinha uma respeitosa discordância em relação a David Hume. Um lia os textos do outro e ambos tinham sérias críticas ao modo de pensar do colega. Reid descendia de uma linhagem de reverendos presbiterianos e tornou-se um pastor marcado por suas pregações emotivas. Quando não estava no púlpito, tratava de justificar filosoficamente aquilo que chamava de instintos “do vulgar” — isto é, do homem comum. Diferentemente de Hume, que se mantinha cético quanto às causas de determinados eventos e à nossa capacidade de interpretá-los sem uma experiência prévia, Reid advogava a favor do que denominou de “o senso comum”. Para ele, nossos instintos são inatos e pertencem à natureza humana, seguindo o modo como fomos construídos para nos preservarmos frente aos desafios do mundo: o senso comum seria o responsável por sabermos de antemão que não é saudável pular de abismos ou provocar animais selvagens, por exemplo. Reid dizia ser possível manter as crenças e as ações afastadas daquilo que o senso comum recomenda, mas isso significaria uma negação dos comportamentos naturais — e teria o custo de gerar uma série de conflitos tanto em nosso corpo quanto na mente.

Assim como pular de um abismo seria pouco recomendável, formular ideias contrárias aos conhecimentos naturais acabaria provocando frustração e sofrimento intelectual. Ironicamente, um episódio da história pessoal do colega Hume podia ser usado para fortalecer o argumento de Reid — de que contrariar esses comportamentos, mesmo em pensamento, realmente tinha um custo tão alto, Hume acabou sentindo na pele: enquanto formulava seus textos para desconstruir a ideia de conhecimento adquirido via senso comum, ele sofreu um colapso nervoso e levou quase cinco anos para se recuperar.