A era do autismo
Nos últimos 20 anos, o número de pessoas com Transtorno do Espectro Autista cresceu 500%. Conheça os estudos científicos que buscam explicações para isso – e entenda a discussão sobre o aumento dos diagnósticos.
Donald era um bebê diferente. Não respondia a estímulos e mal olhava para os pais, a professora Mary e o advogado Beamon Triplett. Quando aprendeu a falar, foi de um jeito estranho – respondia monossilabicamente, dizendo apenas “sim” ou “não”, e ao mesmo tempo demonstrava fascínio por certas palavras, como “crisântemo”, que repetia sem parar.
Tinha claras dificuldades de desenvolvimento, mas exibia poderes intelectuais surpreendentes – com 1 ano de idade, já sabia cantar várias músicas, e aos 2 memorizou um salmo da Bíblia (com 22 versículos e 354 palavras), além de 25 perguntas e respostas do catecismo presbiteriano. Não comia direito, não interagia com outras crianças e tinha comportamentos repetitivos, como uma obsessão por girar objetos redondos. Parecia ocupar um mundo à parte – no qual queria ficar sozinho.
A família buscou ajuda, e o menino chegou a passar um ano internado em uma clínica. Mas os pais se arrependeram, levaram Don de volta para casa e, quando o menino estava com 5 anos, procuraram um psiquiatra infantil, o austríaco Leo Kanner. Ao longo dos anos seguintes, Kanner se deparou com outras crianças que exibiam as mesmas características de Don e, em 1943, publicou um artigo científico (1) descrevendo 11 crianças, sendo três meninas e oito meninos, com o que batizou de “autismo infantil precoce”.
No artigo, Don era identificado como “Caso 1″. Ele foi a primeira criança a ser diagnosticada como autista, termo que até então tinha outro significado (a palavra, derivada do grego autós, “si mesmo”, foi cunhada em 1911 pelo suíço Eugen Bleuler para definir a tendência que adultos esquizofrênicos têm a se retraírem).
Don completou o ensino fundamental, cursou a faculdade (estudou francês e matemática) e foi aprendendo, aos poucos, a se inserir na sociedade da pequena Forest, no Mississippi (EUA), cidade onde passou a vida inteira e trabalhou como bancário durante 65 anos.
Dirigia, jogava golfe todos os dias e adorava viajar: visitou nada menos do que 40 países. Não namorou nem se casou, mas fez muitos amigos (“ele não é de papo furado”, contou (2) um em 2022). Morreu em junho de 2023, aos 89 anos. O autismo não o impediu de ter uma vida longa, produtiva e feliz.
É o que esperam, também, as pessoas e famílias que recebem esse diagnóstico, cuja ocorrência disparou nos últimos anos. Na década de 1970, 1 em cada 2.500 indivíduos era autista (3). Nos anos 2000, a incidência passou a ser de 1 em cada 150. Uma década mais tarde, em 2010, já era 1 a cada 68. Hoje, 1 a cada 31 crianças é autista, segundo dados do Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) dos Estados Unidos (4).
No Brasil, o cenário é similar: segundo o Censo 2022 do IBGE, 1 em cada 38 crianças foi diagnosticada com Transtorno do Espectro Autista (TEA). No total, contando também adultos (que já correspondem a um terço dos casos), o Brasil tem 2,4 milhões de pessoas autistas. A incidência do autismo quintuplicou em 20 anos – e cresceu 8.000% em cinco décadas. Por quê? A ciência vem se empenhando para tentar encontrar as respostas.
O banco de dados do National Institutes of Health, dos EUA, aponta que em 2005 foram publicados 938 estudos sobre autismo no mundo. No ano passado, 9.045. Quase dez vezes mais. A seguir, você conhecerá alguns dos mais intrigantes – e entenderá a discussão envolvendo os diagnósticos de TEA.
As falsas causas
“O Conselho julga o Dr Wakefield culpado de má conduta profissional […] e determina que seu nome seja excluído do registro médico. Esta é a única sanção apropriada para proteger pacientes e o interesse público, incluindo a manutenção de confiança na profissão, e é proporcional às sérias descobertas feitas contra ele.”
Terminou assim, em 24 de maio de 2010, a carreira do médico inglês Andrew Wakefield, que teve a licença cassada. Ele é o autor de um estudo, publicado em 1998 no periódico científico Lancet, que fazia uma alegação explosiva: a vacina tríplice viral (que protege contra sarampo, caxumba e rubéola) causava autismo.
O trabalho relatava os casos de 12 crianças com TEA – e afirmava que, em oito delas, o transtorno teria sido desencadeado pela vacina. Motivo: segundo os pais, os sintomas haviam começado após a vacinação, e as crianças tinham inflamações intestinais. Só que isso não prova absolutamente nada. E, como se descobriu nos anos seguintes, o estudo havia sido fraudado por Wakefield: alguns pais revelaram que não haviam dito aquilo (5).
O médico inglês forjou respostas, manipulou dados e, pior, estava sendo pago por um advogado, Richard Barr, que preparava um processo milionário contra os fabricantes de vacinas. Tudo não passava de uma armação. Há uma montanha de estudos, realizados com mais de 1,2 milhão de crianças, mostrando que vacinas não causam autismo (6).
O paracetamol, ou acetaminofeno, também não. No ano passado o presidente dos EUA, Donald Trump, acusou esse analgésico (cujo nome comercial é Tylenol) de causar autismo. Só ele sabe de onde tirou isso, mas pode ter sido de um estudo (7), publicado em 2024, que analisou os registros médicos de 2,5 milhões de crianças na Suécia – e apontou “riscos marginalmente aumentados de autismo e TDAH associados ao uso de acetaminofeno na gravidez”.
Ocorre que, como o próprio estudo diz, não é bem assim: após a exclusão dos chamados “fatores confundidores”, não havia aumento de risco para autismo. Ok, mas que fatores são esses? Há uma analogia que ajuda a entendê-los. No verão, duas coisas acontecem: as pessoas tomam mais sorvete e há mais casos de afogamento. Mas sorvete não causa afogamento. “O fator confundidor aqui é o clima quente, que aumenta tanto o consumo de sorvete quanto a propensão a nadar – e, portanto, o risco de afogamento”, explicou o epidemiologista Brian Lee, um dos autores do estudo, em entrevista à Universidade Johns Hopkins (8).
No caso do paracetamol, o fator confundidor é que muitas gestantes tomam o analgésico para tratar outras condições que podem estar relacionadas ao autismo, como infecções ou febre. Também há a predisposição genética dos pais, o uso de outros medicamentos na gravidez e mais alguns fatores que podem influenciar o risco [mais sobre isso daqui a pouco]. Por isso, as principais organizações médicas seguem recomendando o paracetamol como opção segura para uso durante a gravidez.
Os fatores ambientais
O autismo é uma condição neurológica, ligada a alterações no desenvolvimento do cérebro [veja infográfico acima]. Ela tem uma base genética, que pode se manifestar por si só (se for suficientemente forte) ou ser desencadeada por fatores ambientais. “Nas famílias em que o aspecto genético é muito forte, não é preciso o gatilho. É o que vemos em famílias com três, quatro ou até seis crianças autistas”, explica o neuropediatra José Salomão Schwartzman, especialista em TEA.
Os fatores ambientais são os que interferem no ambiente intrauterino, onde o feto se desenvolve. O uso de certos medicamentos na gravidez, por exemplo, poderia elevar o risco de autismo nos filhos. A maior certeza é sobre o ácido valproico (ou valproato), um anticonvulsivante que também é usado contra enxaqueca.
Um estudo com 655 mil crianças na Dinamarca concluiu que “o uso de ácido valproico na gravidez foi associado a um risco significativamente maior de TEA” (9). Essa substância é inclusive usada em laboratório para “produzir” ratos autistas. “Você dá ácido valproico à fêmea prenha, e os ratinhos vão apresentar o que a gente chama de ‘quadro autístico’, que são problemas de relacionamento social”, conta Schwartzman.
Há indícios, embora menos conclusivos, envolvendo alguns outros remédios. Entre eles, os chamados “medicamentos inibidores da biossíntese de esteróis” (IBEs), incluindo a sertralina e a atorvastatina. Embora tenham estruturas químicas e indicações diferentes (o primeiro é um antidepressivo, e o segundo é um remédio cardíaco), ambos interferem na síntese do colesterol – uma molécula vital para o desenvolvimento do cérebro.
Cientistas da Universidade de Nebraska, nos EUA, investigaram (10) a relação entre 15 IBEs e autismo em 6 milhões de gestações. As mulheres que usaram pelo menos um IBE durante a gravidez tiveram risco 47% maior de ter um filho com autismo, e cada IBE adicional prescrito elevou esse risco em 33%. Os dados preocupam porque o uso desses remédios vem aumentando (nos EUA, passou de 4,6% das gestações em 2014 para 16,8% em 2023).
Alguns estudos apontaram relação entre autismo e antidepressivos na gravidez – sobretudo os “inibidores seletivos da recaptação de serotonina” (SSRIs), o tipo mais comum. Lisa Croen, diretora do Kaiser Permanente Autism Research Program, nos EUA, analisou (11) dados de 298 crianças com TEA (e suas mães), bem como um grupo-controle de 1.507 crianças sem TEA. Resultado: entre as gestantes que usaram SSRIs no ano anterior ao parto, a incidência de autismo foi 2,2 vezes maior.
Pesquisadores ingleses e chineses revisaram estudos observacionais feitos entre 1946 e 2014 e também concluíram que houve maior risco de TEA em crianças expostas a antidepressivos na gravidez (12). No entanto, duas amplas revisões – uma realizada em 2017 pelo psiquiatra indiano Chittaranjan Andrade (13) e outra neste ano por cientistas da Universidade de Hong Kong (14) – chegaram a um resultado diferente.
Eles encontraram uma pequena relação entre autismo e o uso de antidepressivos na gravidez, mas, após excluírem os “fatores confundidores” (como a saúde mental das mães e a predisposição genética, com outros casos de autismo na família), essa associação deixou de ser significativa.
Morar perto de plantações com agrotóxicos parece ser um fator de risco, como mostrou um estudo da Universidade da Califórnia (15). Das 970 gestantes pesquisadas, um terço residia a menos de 1,5 km de um local de aplicação de pesticidas. E seus filhos tiveram em média 60% mais incidência de TEA.
Outro estudo, da Nanjing Medical University, na China (16), confirmou os resultados: mães expostas a agrotóxicos na gravidez tiveram filhos com 19% mais chances de autismo. Vale lembrar: é uma associação, não uma prova de causa direta, já que estudos observacionais como esses não conseguem isolar outros fatores, como a genética.
Já quando se trata da idade dos pais, as evidências são mais robustas. Uma análise de vários estudos publicada por cientistas chineses concluiu que cada aumento de dez anos na idade da mãe e do pai eleva o risco de TEA nos filhos em 18% e 21%, respectivamente (17). Uma possível explicação é que, com a idade, aumenta o risco de alterações genéticas nas células reprodutoras.
A maior pesquisa (18) já realizada nesse campo incluiu 5,7 milhões de crianças (30.902 delas com TEA) em cinco países (Austrália, Dinamarca, Israel, Noruega e Suécia), bem como seus pais. Homens com 50 anos ou mais tiveram risco 66% maior de ter um filho autista, comparados a pais entre 20 e 29 anos.
Para as mães de 40 a 49 anos, o risco foi 15% mais alto que o de gestantes na faixa dos 20. “O risco era maior quando ambos os pais eram mais velhos, mas também aumentava entre pais com idades muito diferentes”, concluem os autores. Isso pode explicar uma descoberta intrigante feita pelo estudo: mães adolescentes tiveram risco 18% maior quando comparadas a mães na faixa dos 20. É que, no caso delas, havia uma diferença maior em relação à idade do pai.
Também há pesquisas relacionando o sobrepeso da mãe a maior risco de TEA nos filhos. Cientistas da Universidade do Sul da Austrália analisaram (19) dados de 42 estudos sobre 3,7 milhões de gestantes. Filhos de mães obesas tiveram 42% mais risco de autismo. Isso supostamente acontece porque a adiposidade materna geraria inflamação e alterações metabólicas no ambiente uterino, que interferem no desenvolvimento fetal.
Nascer prematuro também eleva o risco de autismo. Uma metanálise de 52 estudos realizada por psicólogos da Universidade de Birmingham, na Inglaterra, constatou que diagnósticos de autismo eram 3,3 vezes mais frequentes em indivíduos nascidos prematuros (antes da semana 37) que na população em geral (20).
Nas últimas décadas, as pessoas passaram a ter filhos mais tarde e a obesidade disparou. Esses dois fatores podem ajudar a explicar o crescimento nos casos de TEA. Mas falta incluir outro fator-chave na equação: os critérios usados no diagnóstico, e como eles foram se transformando.
A evolução do autismo
A quantidade de pessoas com TEA realmente está aumentando? Ou o número sempre foi esse, mas os casos só agora estão sendo reconhecidos? “Não temos esse dado com clareza, porque a forma como definimos o autismo mudou. Pode ser que o número de pessoas tenha aumentado em função da mudança dos critérios”, diz Guilherme V. Polanczyk, professor do Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da USP. “Muitas das crianças que eu diagnostico com autismo hoje eu não diagnosticaria há dez anos. Porque são alterações mais leves e qualitativas, que no passado entendíamos que não eram autismo.”
De fato, um estudo publicado recentemente na revista JAMA Psychiatry mostra que as crianças diagnosticadas nos últimos anos parecem ter uma carga genética menor para autismo do que as diagnosticadas décadas atrás (21). “Isso pode ser um indício de que estamos, de fato, diagnosticando crianças que apresentam quadros clínicos mais leves. E, por isso, aumentando o número de diagnósticos”, diz Polanczyk.
Em 1979, a psiquiatra inglesa Lorna Wing, mãe de uma menina autista e fundadora da National Autistic Society, introduziu (22) o conceito de espectro: a condição é um conjunto de três características (dificuldade de comunicação, dificuldade de interação social e dificuldade de pensamento imaginativo, acompanhada de comportamentos repetitivos), cada uma das quais poderia ser mais ou menos intensa.
O Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM), a bíblia da psiquiatria, só reconheceu isso em 2013, em sua atualização DSM-5. A versão atual, DSM-5-TR (2022), estabelece duas dimensões de sintomas. A primeira envolve três prejuízos na comunicação e na interação social – o diagnóstico exige que todos eles estejam presentes. Já a segunda dimensão envolve alterações de comportamento, e são necessários pelo menos dois dos quatro sintomas listados para preencher o diagnóstico (23).
Por isso pessoas com autismo têm perfis muito variados. Uma pode falar pouco, outra ser tagarela; uma pode olhar nos olhos, outra jamais fazer contato visual; uma pode ter sensibilidade maior a ruídos, outra a texturas, e por aí vai. O DSM também categoriza o autismo em três níveis, conforme a quantidade de auxílio que a pessoa necessita [veja quadro abaixo].
“O diagnóstico de autismo é feito através da avaliação clínica: envolve a observação da criança e o relato das pessoas próximas a ela, incluindo os pais e a escola”, explica Polanczyk. “As crianças com autismo têm alterações em múltiplos domínios do desenvolvimento, como linguagem, motor e aprendizado. Então muitas vezes precisamos de avaliações de outros especialistas”.
É o ideal, mas nem sempre funciona assim, pois há poucos profissionais bem-treinados e alta demanda por atendimento. “E essa é outra das razões pelas quais o diagnóstico de autismo está aumentando: há diagnósticos equivocados, que eventualmente colocam no grupo [do] autismo crianças com outros transtornos do neurodesenvolvimento”, afirma Polanczyk.
Jéssica Borges, educadora e presidente da Abraça (Associação Brasileira para Ação por Direitos das Pessoas Autistas), diz que o aumento de diagnósticos “muitas vezes reflete pessoas finalmente sendo enxergadas”, com mais acesso a atendimento médico, não um aumento real da condição. Mas ela faz uma ressalva. “Também existe uma reserva de mercado: o autismo virou um nicho, explorado por profissionais que se autodenominam especialistas sem ser”, acrescenta.
E, junto com esse movimento, também têm crescido os diagnósticos incorretos. “Claramente, condições como o autismo se expressam como um espectro, no sentido de que são alterações dimensionais na maior parte das vezes. Mas o nome ‘espectro’ trouxe confusão. Porque o diagnóstico de TEA não é um espectro. Ele é categorial: você tem ou não tem”, diz Polanczyk. “Isso tem feito com que pessoas com alterações dimensionais, mas não intensas o suficiente para o diagnóstico, entendam equivocadamente que têm autismo.”
Uma boa forma de entender isso é fazendo um paralelo com as alterações de glicemia (açúcar no sangue). Taxas de glicemia até 99 mg/dL são consideradas normais, de 100 a 125 indicam pré-diabetes, e acima de 126, diabetes. “Com a ideia do espectro do autismo, é como se pessoas com 92, 95 ou 98 de glicemia [taxas normais] também estivessem recebendo o diagnóstico”, afirma Polanczyk.Nem todas as pessoas apresentam as mesmas características, na mesma intensidade.
“Esse é o grande problema. Há quadros mais sutis e mais clássicos. Quanto menos clássico for, mais diagnósticos inadequados vamos encontrar”, afirma Schwartzman. Para ele, o número de pessoas diagnosticadas com TEA nível 1 tem aumentado muito porque não há um marcador biológico específico para o autismo.
A ciência já identificou mais de 1.000 variações genéticas em pessoas com TEA, mas ainda falta saber quais de fato têm relação com o transtorno. A descoberta de marcadores biológicos pode contribuir para diagnósticos mais precisos, mas não se pode perder de vista que o autismo envolve o contexto e as interações sociais.
“Se não entendemos o contexto onde a criança está inserida, e reduzimos todas as experiências dela a um marcador cerebral, perdemos muito”, diz Polanczyk. “Espero que a gente não chegue a um momento em que a psiquiatria seja como a radiologia, que a gente tenha um exame de imagem, faça um diagnóstico e aí saia uma prescrição automática.”
A sociedade neurodiversa
Quanto mais entendemos o autismo, mais fica claro que nem todo cérebro humano funciona da mesma forma. E que as pessoas que divergem das normas sociais não são doentes ou incapazes, e sim variações normais da humanidade. Foi isso que motivou a socióloga australiana Judy Singer a cunhar o termo “neurodiversidade” em 1998, fazendo uma analogia com “biodiversidade”.
De lá para cá a conscientização aumentou, mas os neurodivergentes ainda enfrentam barreiras. Para serem aceitos na sociedade, muitos deles tentam ajustar ou mascarar seus traços. É a “camuflagem social”: se a pessoa tem alguma repetição de movimento, por exemplo, ela vai tentar se conter; se está numa roda de conversa e todo mundo dá risada, ela vai rir também.
Mas essa estratégia tem um custo. “As principais consequências associadas à camuflagem são a ansiedade e a depressão”, diz a psicóloga Tally L. Tafla, pesquisadora de pós-doutorado na Universidade de São Paulo (USP). Segundo Tafla, há também evidências do chamado “burnout autista”: a pessoa está o tempo inteiro gastando uma energia para não ser quem é… até que desaba.
Foi o que aconteceu com Luciana* (nome alterado para preservar a identidade da entrevistada). “A vida inteira eu tratei uma depressão que hoje vejo que não era depressão. É um esgotamento, pelo tanto que eu preciso estar no social e me relacionar. Isso exige muito de mim, e chega uma hora que é como se eu pifasse”, conta ela.
Mãe de um autista nível 3 de suporte, Luciana recebeu o diagnóstico depois do filho – como vem ocorrendo com muitos adultos. Dado o componente genético do autismo, mães e pais começam a ligar os pontos e percebem que também tinham certos traços na infância. “Por um lado, isso explica muita coisa do meu funcionamento, das minhas dificuldades. Por outro, quando vejo as barreiras que meu filho enfrenta, muito maiores, me pergunto: em que medida eu falar para o mundo que também estou no espectro ajuda ou atrapalha?”, diz.
A inclusão escolar também é um desafio. A Abraça defende que todas as pessoas autistas frequentem escola regular. “Esse é um direito constitucional, independentemente do nível de suporte (1, 2 ou 3). Segregar por ‘nível’ contraria o próprio conceito de inclusão”, afirma Jéssica Borges.
O psiquiatra Guilherme Polanczyk frisa a necessidade de ajustar o ambiente escolar para acomodar crianças autistas – algo que a legislação prevê, mas ainda é raro. “É muito difícil haver planos educacionais individualizados numa sala de 30 alunos da rede pública ou mesmo privada.”
No quesito tratamento, as terapias com maiores evidências científicas para o autismo são as de base comportamental. A mais reconhecida é a Análise do Comportamento Aplicada (ABA, na sigla em inglês), que busca ensinar habilidades e estimular comportamentos por meio do reforço positivo (elogios, por exemplo).
Outras abordagens comuns são a psicoterapia, a terapia ocupacional e a fonoterapia, mas o acesso a elas é um empecilho. “Terapia boa é a que a família pode custear. Ditar o que deve ou não ser feito pelas famílias é desconsiderar de onde essas famílias partem: de que classe, raça e gênero estamos falando”, afirma Jéssica Borges, da Abraça. “Somos veementemente contra abordagens que buscam cura, normalização ou mudança de comportamento, e temos críticas diretas a métodos que usam ‘prêmios’ (comida, doces ou tempo de celular) ou punição como moeda de troca”, diz ela.
“Não existe uma receita de como a sociedade pode ser um lugar melhor para pessoas autistas. O caminho é ouvi-las, ver o que cada uma precisa e personalizar as intervenções ambientais para elas”, diz Tafla. Segundo ela, projetos como os do Laboratório Nina Lab, do Instituto de Psicologia da USP (24), respeitam mais a neurodiversidade, e trabalham com os pais para identificar formas alternativas de estabelecer vínculos com a criança.
Para Jéssica Borges, da Abraça, o ponto central é que o autismo não é doença, não é um problema individual e não é apenas um jeito de ser. “É uma neurodivergência que deve ser entendida como deficiência; e, portanto, assim como outras deficiências, é perene e encontra barreiras para a participação social”, diz.
Assim como a forma de ver o autismo tem mudado, a forma de enxergar as deficiências em geral também mudou. Está em curso uma transição do chamado “modelo médico da deficiência” para o “modelo social da deficiência”. No modelo médico, a deficiência é algo que está na pessoa; já no modelo social, a deficiência está nas relações e nas barreiras que ela enfrenta para poder existir em pé de igualdade com as demais.
Essa mudança é positiva. Mas as mudanças sociais na forma de encarar o TEA não são consenso dentro da comunidade autista. “O movimento da neurodiversidade deu muita visibilidade ao autismo nível 1 e 2. Mas as famílias de autistas nível 3, que nos EUA vem sendo chamado de ‘autismo profundo’, estão incomodadas com a forma como esse conceito da neurodiversidade vem evoluindo, e com a própria ideia de espectro”, diz Luciana*. “Porque você acaba dando muita atenção ao autismo que tem menos necessidade de suporte. As famílias de quem precisa de acompanhamento 24 horas por dia vivem uma realidade muito mais dura – e muitas vezes a política pública não olha para essas pessoas”, diz ela.
O que não muda, no entanto, é a esperança. Porque o cérebro e as sociedades que ele constrói têm em comum uma característica essencial: a plasticidade, ou seja, sua capacidade de formar novas conexões. Inclusive entre pessoas que, mergulhadas no autós, podem parecer distantes – mas, na verdade, só expressam as muitas variações do que significa ser humano.
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Fontes (1) “Autistic disturbances of affective contact”; (2) veja vídeo em www.pbs.org/video/our-guy-donald-triplett-ckczdp/ (3) “Epidemiology of autistic disorder and other pervasive developmental disorders”; (4) “Prevalence and early identification of autism spectrum disorder among children aged 4 and 8 years”.
(5) “How the case against the MMR vaccine was fixed”, BMJ, 2011; (6) “Vaccines are not associated with autism: an evidence-based meta-analysis of case-control and cohort studies”; (7) “Acetaminophen use during pregnancy and children’s risk of autism, ADHD, and intellectual disability”; (8) “Understanding the evidence on pregnancy, Tylenol, and autism”; (9) “Prenatal valproate exposure and risk of autism spectrum disorders and childhood autism”;
(10) “Sterol pathway disruption in pregnancy: a link to autism”; (11) “Antidepressant use during pregnancy and childhood autism spectrum disorders; (12) “Exposure to selective serotonin reuptake inhibitors during pregnancy and risk of autism spectrum disorder in children: a systematic review”; (13) “Antidepressant exposure during pregnancy and risk of autism in the offspring, 1: meta-review of meta-analyses”; (14) “Maternal and paternal antidepressant use before and during pregnancy and offspring risk of neurodevelopmental disorders”; (15) “Neurodevelopmental disorders and prenatal residential proximity to agricultural pesticides: the CHARGE study”.
(16) “Maternal exposure to pesticides and autism or attention-deficit/hyperactivity disorders in offspring: a meta-analysis”; (17) “Advanced parental age and autism risk in children: a systematic review and meta-analysis”; (18) “Autism risk associated with parental age and with increasing difference in age between the parents”; (19) “Associations between maternal preconception and pregnancy adiposity and neuropsychiatric and behavioral outcomes in the offspring”; (20) “The prevalence and profile of autism in individuals born preterm: a systematic review and meta-analysis”;
(21) “Changes in genetic contributions to ASD and ADHD by year of diagnosis”; (22) “Severe impairments of social interaction and associated abnormalities in children: epidemiology and classification”; (23) “Clinical testing and diagnosis for autism spectrum disorder”, CDC, 2025. (24) sites.usp.br/ninalab/







