GABRILA65162183544miv_Superinteressante Created with Sketch.

Aids hoje

Os aidéticos já dispõe de novas e eficientes armas para defender sua vida: dois novos medicamentos estão chegando ao mercado para ajudar o AZT a evitar a derrocada do sistema imunológico. Mas ainda falta muita pesquisa para que a guerra seja vencida.

Lúcia Helena de Oliveira e Gisela Heymann

Será que a Aids é provocada única e exclusivamente por um vírus? Os cientistas admitem: a dúvida não é nova. Mal o HIV foi isolado em células de aidéticos e acusado pela ruína do sistema imunológico desses pacientes, ainda em 1984, alguns pesquisadores já começaram a questionar se o microorganismo seria, de fato, responsável sozinho pela doença. Até recentemente, essas discussões costumavam acontecer entre as paredes dos laboratórios. Mas, há dois meses, o próprio descobridor do vírus réu, o francês Jean-Luc Montaigner, resolveu divulgar suas suspeitas de que talvez o HIV não agisse isolado. Existiriam comparsas ou co-fatores, como preferem os especialistas. Há quem acredite que o pesquisador foi forçado a se manifestar diante de outras declarações, bem mais polêmicas — as do alemão Peter Duesberg, há 23 anos professor de Biologia molecular na Universidade da Califórnia, Estados Unidos.

Na contramão da trilha traçada pelos estudos sobre Aids, Duesberg vem insistindo na completa inocência do vírus mais investigado na história da ciência: “O HIV é o engano do século”, ousa dizer. Do outro lado do mundo, no Instituto Pasteur, em Paris, Montaigner rebate: “O HIV é necessário para o desenvolvimento da Aids. Resta saber apenas se ele é suficiente”. Os dois cientistas, junto com outros colegas, tiveram a oportunidade de debater suas idéias, em meados de maio, numa conferência realizada na Holanda. Discutiu-se a hipótese de diversas moléstias, como o herpes ou a hepatite, e até mesmo o uso crônico de antibióticos ajudarem na derrocada das defesas dos portadores do HIV. Falou-se, ainda, na possibilidade de o vírus ser uma espécie de estopim, levando o sistema imunológico a se auto destruir.

Enfim, o maior objetivo do evento era reavaliar as causas da síndrome. Só que, infelizmente, cada palestrante agiu como se fosse o dono da verdade e ninguém buscou pontos em comum entre as diversas teorias apresentadas.”De qualquer modo, a ciência sempre avança quando surgem confrontos”, comenta o infectologista Jamal Suleiman, diretor do ambulatório e do pronto-socorro do Hospital Emílio Ribas, em São Paulo. Mas, em seguida, hesita: “Muita gente nem sequer imagina direito o que é um vírus e ignora as medidas corretas para evitar a infecção. Se, ainda por cima, os médicos saírem falando em co-fatores, a confusão vai aumentar, e bastante”. A maioria dos médicos brasileiros parece compartilhar esse temor.

Mato-grossense de Aquidauana — “a porta do Pantanal”, como gosta de definir —, Suleiman conhece como poucos as dúvidas, os preconceitos, os medos que passam pela cabeça das pessoas, quando o assunto é Aids. Com 32 anos, o mais jovem diretor do Emílio Ribas só trata aidéticos, desde que se formou, em 1983. “Na época, ninguém queria ficar com esses pacientes”, recorda. “Eu e dois colegas aceitamos. Um deles acabou desistindo.” Até dois anos atrás, a dupla restante tocou o barco sozinha; hoje, o ambulatório conta com uma equipe de dezessete profissionais, entre médicos, psicólogos, assistentes sociais e enfermeiros. Mas esse progresso não é nada, perto da mudança de cenário. “Entre 1986 e 1989, o consultório funcionava em um banheiro”, faz questão de contar o infectologista. “As coletas de sangue eram feitas no corredor, embaixo da escada. Precisamos armar uma briga feia para fechar aquele canto com madeira, a fim de garantir a privacidade de quem queria fazer o exame de Aids.”

Atualmente, o ambulatório se espalha no andar térreo de um dos blocos do hospital. Ali, grávidas e adolescentes furam fila — “essas pessoas devem ser atendidas no instante em que chegam atrás do teste ou de um esclarecimento”, determinou Suleiman num belo dia, com seu estilo direto. “Sou contra ficar elaborando projetos no papel. Prefiro ir botando a mão na massa.” Isso, por sinal, ele começa a fazer às 8 da manhã, sem ter hora de parar. Em cada jornada, atende cerca de vinte portadores do vírus e aidéticos, como devem ser chamados só aqueles que já manifestam sintomas. Entre os doentes, há um caso extraordinário, do qual cuida há três anos, mas não gosta de fazer alarde: o paciente tem a peculiar tuberculose pneumocística, além de outros dos 25 distúrbios que caracterizam a síndrome dos aidéticos; no entanto, nenhum dos testes para acusar a presença do vírus, HIV, deu resultado positivo.

“Atenção, o vírus certamente está lá, no sangue do doente”, adverte Suleiman. “Apenas, os glóbulos brancos não reagiram à sua presença”, especula. Até se provar a eventual ausência do vírus (o que se flagrou, de fato, foi a ausência dos anticorpos detectáveis pelos exames), exemplos raríssimos como esse não indicam que o HIV seja dispensável para o surgimento da Aids. Os casos excepcionais mostram, isto sim, que os cientistas acumularam uma série de informações sobre a ação do HIV dentro de tubos de ensaio, mas ainda têm muito o que aprender sobre o seu comportamento no corpo humano. Por enquanto, ninguém explica como o vírus, ao atacar o sistema imunológico, consegue às vezes driblá-lo, a ponto de não receber o troco, na forma de anticorpos. A principal indagação, entretanto, é por que alguns portadores demoram mais para desenvolver a Aids do que outros. “Os mecanismos que disparam a doença são a grande incógnita”, reconhece Suleiman.

Certa vez, George Bernard Shaw (1856-1950) definiu a ciência como algo que nunca resolve um problema sem criar dez outros. A ironia do escritor e teatrólogo irlandês se aplica para ilustrar a situação atual dos estudos sobre Aids. Os cientistas se deparam com uma série de incertezas a respeito do gatilho da Aids — aquele capaz de disparar a doença no portador do vírus —, justamente porque começam a montar o quebra-cabeça da depressão imunológica juntando as peças obtidas nesses doze anos de estudos. Graças ao quadro que se delineia, o clima é de colheita nos laboratórios. Por exemplo, quinze vacinas estão sendo testadas, quatro delas em fase final, ou seja, em seres humanos.

Outra evidência de avanço na área: só de outubro passado para cá surgiram dois novos remédios anti-HIV, aparentemente tão eficazes quanto o AZT — o medicamento pioneiro, que demorou sete anos para aparecer e levou outros cinco sendo a única arma específica para ajudar os aidéticos. Além desses, 27 substancial antivirais estão sendo desenvolvidas pelas indústrias farmacêuticas, em todo o mundo. Uma dessas drogas, criada pelos Laboratórios Merck, nos Estados Unidos, está sendo experimentada pela primeira vez em seres humanos, com a ajuda de quarenta voluntários paulistas. Desde maio, essas pessoas seguem a rigor o horário de engolir os comprimidos de L-696 — o nome do produto analisado — e anotam possíveis efeitos colaterais em um diário. Com isso, o Brasil finalmente entrou no rol dos centros de referência sobre Aids para a Organização Mundial da Saúde. “Os resultados devem sair em agosto”, estima o infectologista André Villela Lomar, diretor científico do Emílio Ribas. A rigorosa Food and Drugs Administration (FDA), orgão que controla os medicamentos nos Estados Unidos, vem apressando a aprovação de remédios para combater a Aids, numa atitude inédita.

Até então, antes de permitir a venda de um fármaco, os americanos consumiam dois a cinco anos em exaustivas análises clínicas, isto é, um prazo que o aidético não pode se dar ao luxo de esperar. Pressionada pela opinião pública, a FDA antecipou, há nove meses, o lançamento do DDI, droga criada nos Estados Unidos, para pacientes que não toleram o AZT. Mas recorde bateu o DDC da indústria suíça Roche, no último mês de abril — trata-se do primeiro medicamento autorizado sem o sinal verde dos testes em seres humanos. Nenhum médico pode receitar o DDC sozinho. Até se avaliar com precisão seus efeitos no homem, o terceiro fármaco anti-HIV deve sempre ser ingerido junto com o AZT. Os especialistas não reclamaram dessa exigência, porque existem suspeitas de que uma droga potencializa os resultados da outra.

Na realidade, AZT, DDI e DDC miram o mesmo objetivo, que seria atrasar a replicação do vírus responsabilizado pela imunodepressão. Os antivirais rendem 100% durante, mais ou menos, seis meses. Depois desse tempo, é como se o HIV aprendesse a se desviar do obstáculo químico que impedia o seu avanço. Mas os três medicamentos existentes hoje em dia são barreiras diferentes — enquanto o vírus derruba uma delas, as demais continuam de pé. “Quando o AZT deixar de fazer efeito em um doente, ele passará a tomar o DDI”, exemplifica Lomar. “E quando, por sua vez,a eficiência deste segundo também cair, sobrará a alternativa do DDC. O tempo de sobrevida deve triplicar.”

Calmo e falante, Lomar se entusiasma ao relatar sua experiência com pacientes que iniciaram as doses de AZT antes de irromperem os sintomas da doença. Segundo ele, algumas dessas pessoas vêm conseguindo manter, há três anos, o nível das células CD4, aquelas arrasadas pelo vírus. “Muitas vezes, essa contagem até melhorou”, revela, sem receio de críticas. Porque, ultimamente, uma das brigas mais acirradas contrapõe os que defendem e os que condenam o uso do AZT Pelos Portadores do vírus em que a doença ainda não se manifestou.

“Recentemente, surgiram indícios de que o AZT não prolonga a sobrevida, como se pensava”, diz o professor americano Donald Abrams, da Universidade da Califórnia, ouvido por SUPERINTERESSANTE. “O que a droga faz é adiar o surgimento dos sintomas da Aids. Mas tenho dúvidas se isso significa mais conforto ou saúde para o usuário. O AZT pode provocar desde úlceras no estômago até anemias terríveis. Tomar ou não a droga pode ser uma questão de escolher qual dos males.”

O professor Abrams faz parte do comitê convocado pela FDA, em meados de junho, para determinar a melhor época de iniciar o uso do AZT e, na esteira, das outras duas drogas antivirais. “Teremos uma conclusão até o final do ano”, prevê. Até lá, deverá ter sido lançada no mercado brasileiro uma versão nacional do AZT, desenvolvida pelo Laboratório Microbiológica, no Rio de Janeiro. Batizada Zidovudina, a droga custará a metade do preço da marca inglesa, cujo frasco com 100 comprimidos sai por cerca de 130 dólares e dura apenas vinte dias. Os efeitos colaterais do AZT são velhos conhecidos dos médicos e dos usuários Supõe-se que O DDC despertará sintomas idênticos aos do AZT; por sua vez, o DDI é capaz de causar pancreatite, a inflamação da glândula produtora de insulina, deficiente em pessoas diabéticas. Os doentes de Aids, no entanto, não têm outra saída, senão correr os riscos. Até por que, mais do que nunca, vale a pena enfrentá-los

Em primeiro lugar, a sobrevida do aidético já não é o calvário de antes. O arsenal químico para combater as chamadas infecções oportunistas vem aumentando. Cientistas alemães e americanos sintetizaram moléculas de antibióticos, sob medida para barrar o protozoário da rara pneumonia pneumocística, que até recentemente era a causa mais freqüente de mortes entre aidétieos. Outro exemplo de vitória são as drogas contra o citomegalovírus. Quando a infecção por esse micróbio era diagnosticada, os médicos sabiam que o paciente só teria entre quatro e seis meses de vida. E, pior, iria enxergar cada vez menos, até morrer cego.

Novos remédios retardam os sintomas do citomegalovírus por até um ano e meio. No futuro próximo, a soma dos antivirais com medicamentos específicos contra micróbios oportunistas devem transformar a Aids em uma doença controlável. A cura, é verdade, não pode ser vista no horizonte do ano 2000, isto é, não existe até lá a previsão de uma vacina capaz de evitar infeção do HIV ou ainda de impedir completamente o avanço do vírus no organismo dos portadores. Antes de isso acontecer, os cientistas precisam conhecer todos os co-fatores da doença. Para o fisiologista Robert Root-Bernstein, da Universidade de Michigan, Estados Unidos, “as próprias infecções oportunistas também causam depressão imunológica. Talvez, para as defesas, elas façam mais estragos do que o HIV”. Sua colega, a americana Joan McKenna. defende uma curiosa teoria de efeito estufa — e, aqui, não se trata do fenômeno ambientar de aquecimento do planeta.

A pesquisadora investigou um grupo de cem homossexuais, entre eles, 24 aidéticos. Dez pessoas do grupo sofriam de hepatite crônica; 27 delas tiveram, em média, uma infecção urinária por ano, na última década. A maioria relatou ainda cerca de vinte incidências de gonorréia, no curto período de três anos. A partir desses dados, a cientista concluiu: “Essas infecções somadas ao uso freqüente de antibióticos para combatê-las transformam o organismo num tipo de estufa, onde crescem micróbios raros.” E mais: “A imunodepressão pode ser causada por uma nova espécie de sífilis, a qual não seria diagnosticada pelos exames. E o HIV, no caso, seria um vírus oportunista.”

Mas as teorias baseadas na idéia de que o HIV só se desenvolve em pessoas com saúde debilitada não explicam, por exemplo, a existência de

2 600 crianças portadoras do HIV no Estado de São Paulo. Bebês sadios, cujo único comportamento de risco, por assim dizer, foi amamentar-se no peito de mães com o HIV. De certa maneira, o novo estudo do francês Montaigner contorna as contradições: “Nem todas as pessoas com o vírus terão Aids”, afirmou na Holanda, sem o aval do Instituto Pasteur, de onde partiu uma nota oficial, esclarecendo que o seu mais célebre pesquisador não falava em nome dos vizinhos de laboratório.

Aparentemente constrangido, Montaigner contou à eclética platéia do evento que, há três anos, observou, in vitro, a morte de linfócitos B em amostras sangüíneas contaminadas pelo HIV. Tratava-se de uma apoptose, ou seja, as células se suicidaram, ao ativarem uma proteína, capaz de quebrar suas cadeias de DNA. Normalmente, o fenômeno ocorre para eliminar uma célula de defesa pronta para atacar as proteínas do próprio corpo.

Pois bem: Montaigner desconfia de que os chamados micoplasmas — micróbios em geral inofensivos, abundantes na mucosa genital — podem induzir a replicação do HIV e certas proteínas do vírus estimulariam o suicídio das células, dessa vez sem motivo. Experiências recentes mostram que determinadas enzimas conseguem evitar a apoptose. “Se isso se comprovar”, aponta Montaigner, “haverá um novo caminho para interromper o processo da doença.” Se, contudo, a epidemia continuar se expandindo, a possibilidade da cura diminuirá. “Quanto mais o vírus se espalha, maior a probabilidade de mutações”, diz Montaigner. “Quando as pessoas se esquecem de medidas simples, como o uso de camisinhas, elas estão freando os avanços na direção de uma vacina eficaz.”

Para saber mais:

Heróis da resistência

(SUPER número 11, ano 9)

Aids a 1% da cura

(SUPER número 10, ano 10)

1959

Morre o suposto primeiro aidético, um marinheiro inglês com tantas doenças raras que, na época, o caso chegou a intrigar uma equipe de pesquisadores da Universidade de Londres. Vinte e cinco anos mais tarde, ao reexaminarem as amostras congeladas da biópsia, os cientistas constataram a presença do HIV naquele paciente. Por enquanto, é a vítima de Aids mais antiga de que se tem notícia.

1980

A descoberta oficial da doença aconteceu depois de serem registradas nos Estados Unidos, diversas ocorrências do chamado sarcoma de Kaposi um raríssimo tumor de pele. Os cientistas afirmaram que, na realidade, o organismo dos pacientes havia perdido a capacidade de destruir, por exemplo, células cancerosas. Mas o câncer seria apenas um dos sintomas da Síndrome de Imunodeficiência Adquirida ou Aids (do inglês Acquired Immunodefciency Syndrome).

1981

Apareceu o primeiro caso brasileiro, um fotógrafo paulista. Como o vírus fica incubado cinco anos, em média, no organismo dos portadores, supõe-se que o HIV tenha entrado no pais ainda em meados dos anos 70.

1983

Isolado um vírus suspeito. Logo no inicio do ano, um biólogo presenteou o professor Luc Montaigner, do Instituto Pasteur, em Paris, com um gânglio extraído de um dos primeiros pacientes de Aids na França. Como desconfiava que a doença era virótica, Montaigner cultivou as células daquele gânglio para caçar ali o microorganismo culpado. Semanas depois, conseguiu isolar um vírus, que descreveu em um trabalho publicado na edição de maio da revista americana Science. Em julho, Montaigner foi aos Estados Unidos com uma bagagem peculiar: alguns tubos de ensaio com o vírus francês. No final da visita, resolveu oferecer aquelas amostras ao professor americano Robert Gallo, que também pesquisava as causas da Aids.

1984

O HIV foi acusado pela doença.

Então, o secretário da Saúde americano declarou solenemente que o professor Robert Gallo era o descobridor do vírus e, conseqüentemente, um dos responsáveis pelo teste capuz de detectar anticorpos contra a doença. Os franceses, claro, começaram a brigar pelos direitos da descoberta.

1987

Surgiu o AZT, a primeira droga capaz de agir diretamente no vírus, impedindo a sua proliferação, durante certo tempo. Nesse ano, também, a equipe americana chefiada por Robert Gallo e a francesa de Luc Montaigner aceitaram o acordo de dividir os lucros pela descoberta do HIV.

1991

Termina a briga na justiça entre franceses e americanos que se diziam descobridores do vírus da Aids: os cientistas do Instituto Pasteur ganharam a causa, depois de provar, graças a exames nos genes do HIV, que os microorganismos isolados por Robert Gallo nada mais eram do que filhotes dos vírus que Luc Montaigner havia carregado na bagagem até os Estados Unidos, oito anos antes.

“No dia-a-dia, atendendo aidéticos, é quase impossível analisar se um herpes, no passado, ajudou a desencadear a deficiência imunológica do paciente. Talvez, embora a gente não perceba, outras doenças sirvam de gatilho para o HIV. Mas não existe Aids sem o HIV “

Caio Rosenthal, infectologista diretor do hospital Emílio Ribas 2, em são Paulo

“Quando surgiram os primeiros Casos de Aids, já desconfiávamos que existiam co-fatores capazes de fazer a vítima morrer mais depressa. Isso não significa que o HIV seja menos culpado. Ele é o chamado agente etiológico, isto é, a semente da qual se origina a doença. É uma enorme bobagem negar isso, argumentando entre outras coisas que o vírus infecta um número pequeno de células do sistema imunológico. Os médicos estão cansados de conhecer uma série de outros males em que os vírus em si fazem poucos estragos. O vírus da hepatite B é um exemplo típico: ele próprio não causa danos diretamente; a reação violenta do sistema imunológico é que provoca as lesões no fígado. Será que com o HIV não seria a mesma coisa, isto é, ele não poderia agir de maneira indireta?”

André Vilella Lomar, diretor científico do Hospital Emílio Ribas

O desafinado dó de peito dos dissidentes de Amsterdam

Entre 14 e 17 de maio passado realizou-se em Amsterdam, na Holanda, uma bizarra Conferência Alternativa do Grupo para Reavaliação Científica da Aids. No soturno prédio de uma antiga igreja protestante, De Rode Hoed, no centro da cidade, juntaram-se cerca de duzentas pessoas, entre as quais havia cientistas do porte do francês Jean-Luc Montagnier, o descobridor do HIV, muitos doentes, alguns acompanhados de seus médicos particulares, homeopatas, jornalistas como a enviada especial de SUPERINTERESSANTE, Gisela Heymann, e o implacável editor da revista científica inglesa Nature, John Maddox, e populares não qualificados. A operação consumiu 100 000 florins (algo como 60 000 dólares), conseguidos do governo holandês por uma Fundação para Pesquisa Alternativa da Aids.

A estrela do espetáculo deveria ser o americano Peter Duesberg, da Universidade da Califórnia, em Berkeley, defensor da completa inocência do HIV nessa terrível questão (SUPERINTERESSANTE número 5, ano 6). Tudo indica que ele perdeu a chance de brilhar: mesmo Maddox, que já desafiou a ira dos defensores da ortodoxia aidética oferecendo-lhe as sagradas páginas de Nature para expor suas idéias, decepcionou-se com seu desempenho, iniciando um artigo sobre a conferência com esta frase devastadora: “Dr. Peter Duesberg, de Berkeley, o enfant terrible da etiologia da Aids, é um pouco menos terrible agora”.

Duesberg ficou isolado. Embora nenhum participante da conferência — exceto o professor R. Coutinho, um epidemiologista do Centro Municipal de Saúde de Amsterdam que, apesar do sobrenome familiar é holandês legítimo — sustentasse ser o vírus o único responsável pela doença, ninguém perfilou com Duesberg a tese da inocência absoluta. Em longas sessões de trabalho tornadas penosas pela precariedade das instalações — o calor era forte, faltava um sistema de som adequado, não havia serviço de tradução —, os conferencistas dedicaram-se a debater três temas centrais: o já citado papel do HIV no processo, a eficiência do AZT no tratamento da Aids e — mais interessante de todos — até onde a simples revelação da presença do vírus contribui para piorar a situação do paciente, na medida em que soa como uma sentença de morte.

No debate desse capítulo despertou especial interesse o depoimento do americano Michael L. Callen, um novaiorquino que atribui sua sobrevivência ao vírus ao cuidado de seu médico em receitar-lhe medicamentos para todas as infecções possíveis de aparecer no rastro da Aids. Do púlpito onde antigamente se pregavam sermões contra o diabo Callen exibiu um saco plástico cheio de vidros de remédios, e revelou tomar 56 comprimidos todos os dias. Devem ter sido eficientes, pois ele convive com o HIV há dez anos, e não parece doente.

Callen reclamou da falta de atenção dos pesquisadores à especial personalidade desses “sobreviventes de longo termo” (foi capaz de citar outros 48), “mal humorados, agressivos e bem-informados”. Mudanças no modo de vida são fundamentais, segundo o orador que não tem nenhuma dúvida, como sobrevivente há dez anos: quem toma AZT fica sempre em piores condições.

Embora dele não se tenha ouvido falar, aqui no Brasil, esse congresso despertou grande interesse na Inglaterra, e os jornais dedicaram-lhe bom espaço no seu noticiário. Que tipo de notícias foram essas pode-se deduzir pela irada nota divulgada pelo austero Conselho Britânico de Pesquisa Médica: depois de classificá-las genericamente como “letal coquetel de mentiras e ignorância”, os conselheiros de Sua Majestade dirigem-se especificamente à estrela do espetáculo: “Sugerir, como fez Duesberg, que segurança no sexo é inútil na luta contra a Aids é uma irresponsabilidade que beira o criminoso. Publicar essas sugestões é igualmente irresponsável.” Aparentemente, não era pura má vontade dos ingleses; ainda em Amsterdam, o francês Montagnier desabafou sua decepção ao ouvido de Maddox: “Eu vim a esta conferência de boa fé; mas não atenderei a outro convite semelhante”.

“Saber até que ponto vai a ação do HIV e até que ponto agem os co-fatores é mero detalhe. Eu sei de pessoas acidentadas que tiveram de receber apenas meio litro de sangue. Elas deveriam sair daquela situação numa boa. Mas, por falta de controle na transfusão, saíram do acidente como portadoras do HIV e, tempos depois, desenvolveram a doença. Portanto, nem todos os aidéticos são pessoas que já tinham um organismo debilitado, como querem mostrar algumas teorias. Acho que, do ponto de vista prático, alguns cientistas estão se perdendo nessa questão marginal dos co-fatores.”

Dráuzio Varella, oncologista do Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo

“A Aids, apesar de ter sido identificada há pouco mais de uma década. foi objeto de intensos estudos por parte de médicos e cientistas de todo o mundo. Muito já se descobriu, em especial detalhes sobre as características do HIV, sua biologia molecular, formas de transmissão e medidas preventivas. Apesar do imenso progresso obtido, não dispomos ainda de um remédio eficaz contra o vírus ou de um efetivo controle dos infectados. Todos esperamos que, em futuro próximo, consigamos ter a agradável surpresa de descobrir um fármaco ou uma vacina realmente eficazes contra a doença.

Adib Jatene, ministro da saúde

Sem tradução

O vírus é uma única molécula de ácido nucléico, envolvida por uma fina capa de proteína. Dentro das células humanas existem dois tipos de ácido: no núcleo concentra-se o DNA, que guarda a bagagem hereditária no organismo: ao redor, espalha-se o RNA, responsável pelo bom funcionamento da célula. O vírus, formado por um DNA, corre direto para tomar o comando do núcleo. O HIV, porém não é um vírus comum, mas um retrovírus, porque é formado por um RNA. Ao infectar uma célula, uma enzima dentro de seu invólucro vai torná-lo DNA, o único ácido capaz de penetrar no núcleo. As três drogas existentes contra a Aids — AZT, DDC e DDI — atrasam essa invasão, eliminado a enzima tradutora.

Estratégias para evitar a contaminação

Há dois modelos de vacina. O primeiro é para prevenir o organismo sadio contra a doença. O segundo evita a replicação do HIV nos portadores.

Modelo 1: O objetivo é treinar o organismo para atacar o HIV, antes que ele se alastre. Isso é difícil, porque o vírus da Aids é extremamente mutante. Certas vacinas experimentais são feitas a partir de pedaços do HIV que tendem a ficar iguais mesmo quando ele passa por mutações (A). Outras usam microorganismos inofensivos que, graças a manipulação genética, passaram a produzir essas moléculas supostamente imutáveis do vírus (B). Mas, na prática, conhecer parte do HIV não é garantia de que o corpo humano conseguiria reconhecer o vírus inteiro.

Modelo 2: O vírus precisa se encaixar no receptor da célula CD4, para infectá-la. Os cientistas experimentaram, com sucesso em tubos de ensaio, injetar anticorpos sintéticos, que funcionam como rolhas nos receptores (A). Outro recurso testado é programar os genes dos glóbulos brancos para destruírem a célula, quando ocorre a entrada do HIV (B).

Ataque ao quartel-general

O sistema imunológico age como um verdadeiro exército diante de qualquer ameaça à segurança do corpo humano — pode ser um intruso terrorista, como um vírus, ou pode ser um agente subversivo, como uma célula cancerosa do próprio organismo. Há sempre poucos soldados de prontidão armados especificamente para cada espécie de inimigo. Mas, quando há necessidade, esses defensores se multiplicam para formar pelotões. Como em qualquer quartel, o coronel é o encarregado de recrutá-los. Essa patente que nunca participa diretamente das batalhas, corresponde à famosa célula CD4 (que alguns insistem em chamar T-4, como é conhecida em camundongos). o maior alvo do vírus da Aids.

Por não entrar em combate, a CD4 é classificada como auxiliar pelos imunologistas. Seu papel, entretanto, é fundamental em épocas de guerra. Afinal, ela libera substâncias, os fatores de crescimento, capazes de ordenar a reprodução das tropas de elite, que se dividem em dois grandes grupos. O primeiro é o das células citotóxicas, especializadas em lutas corpo a corpo. elas encostam em um tumor, por exemplo, para impregnar-lhe substâncias que podem destruí-lo. O segundo grupo, dos linfócitos B, libera moléculas de anticorpos, comparáveis a mísseis teleguiados para destruir um micróbio nocivo. Quando a CD4 é invadida pelo HIV, porém, tanto as células citotóxicas como os linfócitos B deixam de receber a ordem para crescer — e o organismo, então, não consegue mais defender-se eficientemente contra os vírus, fungos e bactérias, responsáveis pelas doenças oportunistas, que vão provocar a morte.