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Cloroquina aumenta número de mortes entre pacientes de covid-19

Análise de 96 mil pessoas internadas em 671 hospitais também verificou que de 4% a 8% dos medicados com a droga sofreram arritmia cardíaca.

Por Carolina Fioratti
Atualizado em 22 Maio 2020, 18h34 - Publicado em 22 Maio 2020, 18h33

Um estudo publicado nesta sexta-feira (22) no periódico The Lancet sugere que o uso de hidroxicloroquina e cloroquina não apresenta benefícios ao tratamento da covid-19. A pesquisa, baseada em dados de mais de 96 mil pacientes internados em 671 hospitais desde o começo do ano, demonstra que, entre aqueles que usaram o medicamento, ocorreram mais casos de arritmia cardíaca e a taxa de mortalidade foi superior.

Antes de entrar em detalhes sobre o estudo, é importante entender que ele é observacional. Ou seja: os pesquisadores coletaram estatísticas de pacientes que usaram a droga para valer – e não na condição de voluntários de um experimento controlado.

Normalmente, antes de um orgão regulador como a Anvisa autorizar o uso de um medicamento contra uma determinada doença, as empresas farmacêuticas precisam submetê-lo a três rounds de testes clínicos para verificar sua segurança e eficácia. Nesses teste, metade das cobaias voluntárias recebe o remédio verdadeiro, e metade, um placebo. Faixa etária, sexo, histórico familiar etc. são todas variáveis levadas em conta. Testes clínicos neste modelo são o único meio de chegar a conclusões confiáveis.

Os testes observacionais são outra coisa. Eles se baseiam a análise de pessoas que já foram medicadas, e têm a finalidade de mostrar como a droga tem se comportado na prática no combate contra a doença.

Hoje, a cloroquina é utilizada para o tratamento da malária, enquanto a hidroxicloroquina é aplicada no tratamento de doenças autoimunes, como lúpus e artrite reumatoide. A aplicação das duas drogas em pacientes de covid-19 foi sugerida como medida emergencial, por ser um medicamento já disponível no mercado. Tal sugestão não se baseia em evidências científicas. Enquanto não temos testes clínicos – por serem muito rigorosos, eles demoram para sair –, acompanhar o quadro clínico de pacientes que já estão usando a cloroquina como um tiro no escuro ajuda a determinar se isso é ou não uma boa ideia. 

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No estudo publicado no periódico The Lancet, foram analisados dados de 81 mil pessoas que não receberam tratamento com hidroxicloroquina ou cloroquina e 15 mil pessoas que receberam. As 96 mil pessoas deram entrada nos hospitais entre 20 de dezembro de 2019 e 14 de abril de 2020, cumprindo o ciclo completo do vírus (ou seja: no final, ou elas morreram, ou receberam alta). Não estranhe a data de 20 de dezembro: embora as primeiras notícias só tenham pipocado em janeiro, agora sabemos que o vírus, nessa época, já havia chegado até na Europa.

Todos estes 15 mil pacientes iniciaram seus tratamentos em, no máximo, 48 horas após a internação. Eles foram divididos em quatro grupos: um que tomava apenas a cloroquina (1854 pessoas), o segundo a cloroquina com um antibiótico macrólido (3783 pessoas), outro só a hidroxicloroquina (3016 pessoas) e o último a hidroxicloroquina com um antibiótico macrólido (6221 pessoas). Os antibióticos da classe dos macrólidos consderados são a azitromicina e claritromicina.

Os resultados foram os seguintes: entre aqueles que não estavam fazendo tomando nenhuma medicação, a taxa de mortalidade foi de um em cada 11. O tratamento com apenas um dos medicamentos aumentou o risco para um em cada seis. A proporção para quem tomou a cloroquina junto ao antibiótico foi de um em cada cinco, e entre aqueles que usaram hidroxicloroquina mais o antibiótico, o risco foi de um em cada quatro.

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Os quadros de arritmia cardíaca (frequência irregular dos batimentos) também se intensificaram quando utilizada a cloroquina ou hidroxicloroquina. Para as 81 mil pessoas que não receberam o remédio, o risco de ter o problema era de 0,3%. Os outro quatro grupos tiveram valores acima de 4%, sendo o pior dele o grupo da combinação entre hidroxicloroquina com antibiótico, em que a porcentagem alcançou os 8,1%.

Nenhum benefício foi observado no estudo. Sendo assim, os pesquisadores aconselham que o medicamento seja utilizado apenas para testes clínicos, e não para tratar a covid-19 na prática. 

Por outro lado, alguns líderes governamentais seguem defendendo o uso do medicamento. Donald Trump afirmou publicamente na segunda-feira (18) que estava utilizando a hidroxicloroquina junto a azitromicina como forma de prevenção a covid-19, mas voltou atrás na última quarta-feira (20) e disse que iria parar com o uso. 

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O presidente Jair Bolsonaro também é apoiador da aplicação. Ainda na última quarta-feira (20), foi divulgado pelo Ministério da Saúde um protocolo que permitia a aplicação de cloroquina e hidroxicloroquina em todos os casos da doença, incluindo os mais leves. De toda forma, o médico não é obrigado a recomendar o remédio e os pacientes devem dizer se aceitam ou não seguir com este tratamento.

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