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Copo sem fundo

A abstinência sempre foi a única cura para o alcoolismo. Agora, a polêmica técnica da redução de danos defende que, em alguns casos, o melhor não é tentar parar, mas beber menos.

Krishma Carreira

Seja sincero. Quando você está estressado, o que sonha fazer? Sair com os amigos para uma happy hour? Chegar em sua casa e tomar uma dose de sua bebida predileta? Que alívio, os problemas parecem ir embora no primeiro gole. Assim como tinham sumido ontem, anteontem e em todos os dias da semana passada. Tanto que você começa a ficar incomodado. Será que já é tempo de parar de beber?

A solução clássica para quem já admitiu ser dependente de álcool sempre foi a busca da abstinência, ou seja, abandonar a bebida de vez. Mas a verdade é que nem todo mundo quer ou consegue parar de beber. E muitos usuários não precisam mesmo dessa medida radical. Para felicidade deles – e da indústria do álcool –, basta aprender a lidar com a bebida da forma mais saudável possível. Esse pensamento é compartilhado por um grupo de estudiosos no Brasil, que defende essa abordagem diferente, conhecida como redução de danos.

Um exemplo de como isso funciona está na Faculdade de Medicina da Universidade Estadual Paulista de Botucatu (Unesp). A idéia surgiu depois que os professores descobriram que, entre 1998 e 2001, 25% dos alunos bebiam cinco ou mais drinques em uma única ocasião por mais de uma vez em um período de duas semanas (situação de risco para quem entende do assunto). Os alunos desse grupo passaram a receber uma aula de como diminuir seus riscos sem largar a bebida. Os responsáveis pelo programa aboliram do discurso qualquer apelo à abstinência. Eles sabem que isso só afastaria a garotada. As dicas dadas a eles valem para qualquer um (leia na página 75).

Também faz parte da redução de danos atacar os prejuízos que o hábito traz, em vez de simplesmente atacar o consumo de álcool. É o caso da campanha que aconselha a não dirigir embriagado. Essas campanhas não querem que as pessoas parem de beber, e sim que parem de se acidentar. As medidas coletivas de redução incluem ainda disponibilização de bafômetros nos bares para quem quer descobrir o grau em que se encontra e até a não utilização de recipientes de vidro em festas populares para evitar ferimentos. Em alguns lugares do país, garçons estão sendo treinados para identificar aqueles que passaram do ponto.

A internet tem tudo para ser uma aliada essencial dos adeptos dessa estratégia. Um site da Nova Zelândia (www.alcohol.org.nz) e outro do Canadá (www.virtual-party.org) têm uma proposta interessante. No primeiro há jogos e testes que simulam situações, discutem hábitos e atitudes em relação ao álcool. No segundo, o internauta pode se identificar como o convidado de uma festa. Por meio da escolha de comportamentos, ele vai aprender as conseqüências de cada um de seus atos.

Há quem defenda a redução de danos mesmo para alcoólatras com alto grau de dependência química. Um dos argumentos é que só três em cada dez dependentes conseguem se manter abstinentes até o fim da vida. Para quem prega a abstinência, esses casos são contabilizados como fracassos. Mas se o bebedor tem uma vida com autonomia ele é um sucesso para os que pregam a redução de danos. Mesmo que continue com o copo na mão. Na Conferência Internacional sobre Álcool e Redução de Danos, realizada em Recife no final de agosto, a pesquisadora Linda Sobell afirmou que existem muitos usuários de álcool que não atravessam a entrada das clínicas porque não querem receber o rótulo de alcoólatras. Como saída, ela propõe um programa diferencial.

Linda, que dirige uma clínica de estudos psicológicos na Flórida, Estados Unidos, cita como exemplo um grupo de 825 bebedores que receberam informações sobre o uso do álcool durante um ano por carta ou telefone. Eles mesmos traçaram metas de redução de consumo e 28% teriam conseguido diminuir o número de drinques tomados por semana. Linda concluiu que, com os drinques a menos, diminuíram os problemas.

Mas é claro que há polêmica em jogo. Muitos especialistas não se convencem com esse tipo de pesquisa. Eles pregam tratamentos que vão desde a internação em clínicas a atendimentos ambulatoriais que não exigem o afastamento da família com o objetivo de fazer o alcoólatra parar de beber. Mas segundo o psiquiatra José Carlos Galduróz, da Unesp, “a tendência natural hoje não é tirar o alcoolista do meio que ele freqüenta, e sim dar a ele condições para estar bem nesse próprio meio”. O problema é que alguns alcoólatras não têm dinheiro para bancar tratamentos ou atendimentos com especialistas. A saída para eles pode estar em grupos de auto-ajuda como os Alcoólicos Anônimos, que trabalham com a chamada filosofia do espelho: o dependente aprende a se conhecer e a se controlar a partir dos relatos de experiências de outro dependente.

O álcool é uma droga

Se você gosta de beber, não está sozinho: oito em cada dez pessoas no mundo bebem eventualmente. Segundo o Escritório das Nações Unidas para o Controle de Drogas e Prevenção ao Crime, a ingestão de álcool no Brasil é maior que a de leite. Aqui, o consumo per capita de cerveja é de 49 litros por ano. Parece muito, mas é menos da metade da Alemanha: 131 litros por pessoa, o maior do mundo.

Tudo isso faz do álcool a droga mais consumida do planeta. Espera aí, quer dizer que quem bebe uma cerveja depois do trabalho está se drogando? Do ponto de vista médico, sim, sem dúvida. O álcool age no sistema nervoso central, assim como a maconha, a cocaína e a heroína. O álcool vicia mais que maconha e causa mais danos que todas as outras drogas juntas, se somarmos aí os prejuízos causados por acidentes, conflitos regados a birita e doenças.

O problema relacionado ao álcool tem um nome: dependência química, e quem tem esse problema é conhecido como alcoólatra ou alcoolista (o termo politicamente correto): 12% dos brasileiros têm essa doença (sim, é uma doença reconhecida pela Organização Mundial de Saúde desde 1967). Uma coisa é certa: os dependentes químicos são os que mais sofrem por causa do álcool. Um usuário se torna dependente a partir do momento em que pára de beber por prazer e que passa a transformar cada gole numa forma de aliviar os sintomas de abstinência do álcool – tremores, náuseas, sudorese, ansiedade, pesadelos e até alucinações.

A intensidade da dependência varia de pessoa para pessoa. Mas, segundo a OMS, existem alguns pontos em comum entre elas. No começo, o usuário não bebe todos os dias. Depois, o hábito se torna diário. A bebida já não é mais ingerida só à noite, mas também no almoço. Com o tempo, muitos dependentes passam a beber de hora em hora desde o momento que acordam. O local da bebedeira já não tem mais importância, vale tomar todas no trabalho ou até no trânsito. Sem contar que chega uma hora em que a dose precisa ser aumentada para obter o mesmo efeito de antes.

Esse pessoal é que causa a maior parte dos problemas que se jogam na conta do álcool. Estima-se que a indústria do álcool movimente 3,5% do Produto Interno Bruto no Brasil. Mas o país gasta 7,3% do PIB para tratar problemas resultantes da bebida, da dependência à perda de produtividade. Segundo a Organização Mundial de Saúde, os brasileiros perdem, em média, 11,6% dos anos saudáveis da vida devido ao álcool. Em 1997, cerca de 80 mil internações motivadas pela bebida foram registradas nos hospitais brasileiros.

O corpo também sofre sob o uso abusivo. Saiba que o corpo demora três dias para se livrar do efeito de um porre, ou seja, o raciocínio demora isso tudo para voltar ao normal. Isso quer dizer que, se você bebe o tempo todo, pode não estar entendendo nada há muito tempo. O fígado leva uma hora para processar apenas uma lata de cerveja. No cômputo geral, o uso abusivo é apontado como responsável por 350 doenças físicas e psíquicas catalogadas pelos médicos. Outro dado impressionante: a taxa de suicídio entre alcoólatras é 15 vezes maior do que entre a população em geral.

Mas muitas doenças podem ser causa, e não efeito da bebedeira. Segundo o psiquiatra Dartiu Xavier, na maior parte das vezes a depressão leva ao uso do álcool, e não o contrário. Em uma pesquisa, Dartiu constatou que 77% dos pacientes pesquisados tinham a doença antes da dependência, o que reforça a hipótese de que passaram a usar o álcool como uma espécie de “automedicação” para aliviar os sintomas.

E você? é dependente?

Hoje já existe um consenso entre os médicos a respeito da quantidade média tolerável para o organismo de um adulto. Cada bebida tem um número próprio de unidades de álcool. Uma lata de cerveja, por exemplo, possui 1,5 e uma dose de destilado, 2,5 unidades. Segundo os especialistas, as mulheres devem se contentar com 14 unidades por semana (cinco doses de uísque) e os homens com 21 (oito doses). A diferença deve-se ao fato de as mulheres terem de três a quatro vezes menos enzimas responsáveis pela metabolização do álcool no organismo que os homens. Mas não adianta tentar se enganar. A quantidade estipulada como de baixo risco vale para uma semana inteira. Tomar todas as doses em um único dia pode gerar inúmeros problemas.

Mas por que algumas pessoas têm problemas com o álcool e outras não? Não existe um único motivo. Há, por exemplo, um gene que predispõe ao alcoolismo. Estudos apontam que filhos de alcoólatras têm quatro vezes mais chances de se tornarem dependentes (chance e não certeza, é bom deixar claro). Em média, 20% dos casos de alcoolismo têm origem genética. Mas o parentesco não é o único fator determinante.

Também entram na conta a idade em que se começa a beber, as características psicológicas e o ambiente. No livro O Alcoolismo, o psiquiatra Ronaldo Laranjeira e a psicóloga Ilana Pinsky contam que muitas brigas familiares estão associadas à maior possibilidade de desenvolvimento de abuso de álcool por parte dos adolescentes. “Pode-se afirmar que o alcoolismo se desenvolve com mais freqüência em famílias cujos pais impõem limites muito tênues (ou não os impõem) aos filhos”, dizem os autores.

Outro motivo é a propaganda de bebidas na televisão. Três estudos feitos com jovens da Universidade de Auckland, na Nova Zelândia, esquentam os debates. Em dois deles, os pesquisadores concluíram que a propaganda de cerveja tem influência direta na quantidade de álcool consumida. No outro, mostraram que o gosto por um comercial específico de cerveja implica fidelidade àquela marca.

O fato é que a dificuldade de enfrentar problemas comuns a todos nós leva um bom número de pessoas a se renderem aos encantos do álcool de forma abusiva. Para esses, restam alternativas. O primeiro – e mais importante – passo é querer ajuda. O resto… só o tempo dirá.

Para saber mais

Na livraria:

O Alcoolismo, Ronaldo Laranjeira e Ilana Pinsky, Contexto, 2000

Drogas nas Escolas, Mary Garcia Castro e Miriam Abramovay, Unesco, 2002

Na internet:

http://www.icahre.org, Organização holandesa de redução de danos (em inglês)

http://www.einstein.br/alcooledrogas, Página do hospital Albert Einstein

http://www.alcohol.org.nz, Organização neozelandesa de redução de danos (em inglês)

http://www.alcoolicosanonimos.org.br, Página dos Alcoólicos Anônimos

http://www.virtual-party.org , Simulação de uma festa regada a álcool e suas conseqüências (em inglês)

Mandamentos do bom bebedor

Como evitar problemas sem largar o copo

Coma antes de beber

Com o estômago cheio, o álcool é absorvido mais lentamente, o que evita uma rápida intoxicação

Beba devagar

Dê um intervalo de tempo entre um drinque e outro. Quem precisa de um copo na mão deve alternar o álcool com refrigerantes, sucos ou água.

Tire a tentação de casa

Para reduzir o nível de consumo, tenha menos ou não tenha bebidas em casa para evitar tentações.

Curta a vida

Utilize seu tempo livre para atividades de lazer que dispensem o uso do álcool. Beber durante uma caminhada, por exemplo, é bem pouco confortável.

Beba água

Esqueça as vitaminas B12 ou aspirina para curar ressaca. Só a água pode ajudar a diminuir os sintomas de um porre.