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Covid-19: Butantan anuncia candidata a vacina 100% nacional

Sem a necessidade de importar insumos, a expectativa é produzir 40 milhões de doses do imunizante até o fim do ano. Saiba como ele funciona.

Por Rafael Battaglia 26 mar 2021, 16h14

Nesta sexta-feira (26), o Instituto Butantan anunciou, por meio de uma coletiva com o governador de São Paulo, João Doria, que sua vacina contra a covid-19 está pronta para os testes clínicos. O laboratório solicitou à Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) que as fases 1 e 2 dos ensaios clínicos comecem já em abril.

Batizado de Butanvac, o imunizante é resultado de um consórcio internacional liderado pelo Instituto Butantan, que será responsável por 85% da produção. Além do centro de pesquisa paulista, intituições do Vietnã e da Tailândia participam da pesquisa – na Tailândia, inclusive, a primeira fase de testes em humanos já começou. Segundo nota divulgada pelo instituto, o foco inicial é “fornecer a vacina ao Brasil e a países de baixa e média renda”.

Um dos trunfos do novo imunizante é não depender de insumos estrangeiros para a sua produção, como é o caso, por exemplo, da Coronavac, produzida por aqui pelo Butantan em parceria com a chinesa Sinovac. A vacina de Oxford, feita em parceria com a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), também exige insumos vindos da China. Isso pode acelerar a fabricação e distribuição de doses em um momento crítico da pandemia no Brasil, que recentemente ultrapassou a marca de 300 mil mortos pela covid-19.

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O governador João Doria exibe a embalagem da Butanvac em coletiva nesta sexta-feira (26). Governo do Estado de São Paulo/Youtube/Reprodução

Como a Butanvac funciona?

Existem sete tipos de vacina em desenvolvimento, em testes clínicos ou já em fase de aplicação contra o coronavírus. A Butanvac mistura dois desses sete tipos. Vamos entendê-la.

A vacina do Butantan utiliza o método conhecido como vetor viral, no qual os cientistas pegam um vírus inofensivo e o modificam geneticamente para que ele produza determinada proteína, à qual o sistema imunlógico humano irá reagir. No caso da covid-19, essa proteína é a já conhecida spike, utilizada pelo Sars-CoV-2 para penetrar nas nossas células.

O vetor da Butanvac é o vírus de uma gripe aviária conhecida como Doença de Newcastle, inofensivo para seres humanos – mas com uma spike à bordo, capaz de gerar resposta imune. Um outro exemplo de vacina de vetor viral é a da Oxford/AstraZeneca, aplicada no Brasil. A diferença é que, nesse caso, o vetor é um adenovírus, que infecta chimpanzés.

  • De acordo com o instituto, o vetor viral da Butanvac é cultivado dentro de ovos embrionados de galinha. “É a mesma técnica já utilizada para produzir a vacina da gripe”, explica Raquel Stucchi, infectologista e professora da Unicamp. “É um método que o Brasil já domina e é muito vantajoso, uma vez que é possível produzir grandes quantidades de doses de uma forma mais barata, sem a necessidade de importar insumos.”

    Depois que o vetor é cultivado, entra a segunda parte da “receita”: inativar o vírus, algo que normalmente é feito com calor e produtos químicos como o formol, para torná-lo incapaz de se replicar dentro do corpo. Várias vacinas funcionam com vírus inativo, como as contra poliomielite, raiva e hepatite A. A Coronavac também pertence a essa família.

    “A presença combinada dos dois métodos é algo inovador”, disse Stucchi. Dimas Covas, diretor-presidente do Butantan, afirmou que a tecnologia utilizada na Butanvac é uma forma de aproveitar, justamente, o conhecimento adquirido no desenvolvimento da Coronavac.

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    Vale lembrar que a Butanvac não é a única vacina em desenvolvimento no Brasil. Por aqui, existem ao menos 16 pesquisas em andamento para criar um imunizante para a doença. Um exemplo é o Instituto do Coração (InCor), do Hospital das Clínicas da USP, que desenvolve uma vacina de proteína do tipo VLP (sigla em inglês para “partícula semelhante ao vírus”). As partículas em questão imitam o formato do vírus, mas não carregam o seu material genético, o que as impossibilita de infectar alguém. Você pode entender melhor esses artifícios nesta reportagem da Super.

    Quais serão as próximas fases?

    De acordo com a Folha, a Butanvac começou a ser testada ainda em 27 de março de 2020. Era a fase pré-clínica, na qual são avaliados os efeitos positivos e negativos da substância em animais.

    O pedido feito à Anvisa nesta sexta (26) visa começar as fases 1 e 2 de ensaios clínicos no mês que vem, em abril. Essas fases são realizadas com voluntários humanos (um número baixo de pessoas) e servem para testar a segurança, a dosagem e a capacidade de produzir resposta imune do composto.

    As fases iniciais da Butanvac contarão com 1,8 mil voluntários; a fase 3, mais abrangente, com 9 mil. Depois, sua eficácia será avaliada, e caso ela seja superior a 50% (o valor mínimo que a Anvisa e a OMS consideram para aprovação), o Butantan pode solicitar o uso emergencial da vacina. Ainda não é possível saber se o imunizante será oferecido em uma única dose ou se precisará de uma segunda, como no caso da Coronavac e da vacina de Oxford/AstraZeneca.

    A produção da Coronavac será afetada?

    Não. Segundo o Butantan, tanto a produção da Coronavac quanto o envio de insumos da China não sofrerão alterações no cronograma.

    De acordo com Dimas Covas, o plano é que a Butanvac comece a ser produzida em larga escala a partir de maio, que é quando termina a produção da vacina anual contra influenza – o vírus da gripe. Todos os anos, cerca de 80 milhões de vacinas da gripe são feitas pelo Butantan. “Atualmente, nossa fábrica envasa a Influenza e a Coronavac. Estamos em pleno vapor”, disse Covas em comunicado.

    A expectativa do instituto é produzir 40 milhões de doses da Butanvac até o fim do ano. Doria foi otimista e disse que o imunizante pode estar disponível à população já em julho. Para Covas, a possibilidade existe pois, considerando as vacinas que já foram estudadas até agora, o período de testes da Butanvac poderia ser encurtado.

    Para além da Butanvac e da Coronavac, vale lembrar que, recentemente, o Instituto Butantan pediu à Anvisa que autorizasse os testes do soro anti-Sars-CoV-2. Produzido a partir do plasma sanguíneo de cavalos, o composto, diferente das vacinas, não deve ser usado como imunizante, mas sim para amenizar os sintomas de quem já foi infectado pelo coronavírus. Você pode ler mais sobre o soro aqui.

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