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Antidepressivos combatem muito mais do que depressão

Parar de fumar e diminuir a timidez são algumas das indicações

A dor de Macabéa – personagem central do livro A Hora da Estrela, de Clarice Lispector – parece não ter remédio. Sozinha e abandonada numa cidade grande, a inocente migrante nordestina nem consegue dizer exatamente onde dói. Sem saber o que fazer, ela toma uma aspirina na esperança de aliviar a amargura.

Assim como Macabéa, muita gente já desejou poder tomar um comprimido capaz de atenuar sintomas que podem até não ser de doenças, mas incomodam e atrapalham o dia-a-dia e o relacionamento com todo o mundo. Panacéias não existem, mas remédios antidepressivos tradicionais estão sendo cada vez mais usados – e com eficiência – para combater problemas que não têm nenhuma relação aparente com depressão. Dor física, mau humor, ejaculação precoce, insônia e tensão pré-menstrual (TPM) são algumas das novas indicações desses velhos medicamentos.

O consumo dessa classe de remédio vem crescendo em todo o mundo, apesar dos efeitos colaterais. “Muitas vezes, é exatamente por isso que eles são receitados”, disse à SUPER Helena Calil, psiquiatra e psicofarmacologista da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Embora a expressão efeito colateral geralmente remeta para algo ruim, nesse caso estamos diante de efeitos positivos. “O fato de serem receitados devido aos efeitos colateriais não quer dizer que não sejam eficazes”, afirma a psiquiatra Laura Guerra de Andrade.

Embora favoráveis a esse tipo de indicação, muitos médicos consideram que essa tendência é problemática e preocupante por causa do hábito da automedicação no Brasil – um país onde, segundo o Ministério da Saúde, duas em cada três caixas de remédio são compradas por indicação de amigos ou parentes. Mas o problema não é só esse. “Há muita facilidade para médicos não especializados receitarem qualquer tipo de medicamento”, afirma Laura. “A má prática existe em todas as profissões”, acrescenta. Além disso, a população está aceitando melhor essas drogas porque diminuiu o preconceito em relação a problemas de origem mental e emocional. “Não é mais um tabu como era antes”, diz o psiquiatra Marco Antonio Marcolin”.

Mas quando eles podem ser usados, então? Só quando forem receitados por um médico, como todo remédio deve ser. Afinal, nem a Medicina sabe direito ainda como essas drogas agem no sistema nervoso, embora tenha boas pistas. “O que se conhece são as alterações que elas acarretam na quantidade de neurotransmissores no cérebro”, explicou à SUPER Roberto Frussa Filho, psicofarmacologista da Unifesp. “A partir de observações freqüentes do mesmo sintoma, pode-se inferir que a reação no cérebro e o comportamento estão relacionados.”

Os perigos para quem se automedica

Se pudesse escolher, não seria só Macabéa que moldaria sua personalidade de acordo com a própria vontade. Muita gente decidiria ser mais extrovertida ou menos estressada. Pois agora, além de antidepressivos, uma nova linha de medicamentos, já disponível no mercado, vem sendo usada para mexer com características emocionais. O problema é que eles podem ser perigosos, sobretudo quando consumidos por conta própria. Gente sem nenhuma patologia vem utilizando essas drogas para se destacar no trabalho ou ter melhor performance sexual.

“Medicação auto-aplicada pode esconder doenças graves”, alerta o neurologista Luciano Ribeiro Pinto Jr., do Instituto do Sono da Unifesp. “Uma apnéia, por exemplo, causa uma sensação de noite maldormida, mas não pode ser tratada com uma droga para a insônia.”

Uma das vedetes da moda para alterar comportamentos não patológicos é o metilfenidato – famoso com o rótulo de Ritalina –, receitado para quem tem dificuldades de concentração por ser hiperativo. Desenvolvido para crianças, hoje já é usado por adultos. “Ele faz indivíduos hiperativos se concentrar melhor, mas não causa o mesmo efeito sobre quem é normal”, explica a psicofarmacologista Clarice Gorenstein, do Hospital das Clínicas de São Paulo.

Outra droga perigosa é o Bros, nome fantasia para fosfatidilserina. Indicada para melhorar a memória e o raciocínio de pacientes com mal de Alzheimer, ela não faz efeito nenhum em quem é são. Há gente normal tomando essa droga acreditando que pode ficar mais inteligente, sem saber que ela pode acarretar lesões no fígado. “Esses remédios não deveriam de maneira nenhuma ser utilizados por quem não tem patologias”, diz Marcolin.

Cuidado com a moda dos comportamentos ideais. Problemas mentais e emocionais costumam ser complexos e demandam terapia sob o cuidado de psiquiatra e especialistas. Não há pílula que resolva. Nesses casos, a aspirina pode ser um remédio melhor. Pelo menos não vai fazer mal.

Algo mais

Em 1950, verificou-se que pacientes tratados com iproniazida – uma substância que estava sendo testada para o possível tratamento de tuberculose – tornavam-se eufóricos sob o efeito da medicação. Seis anos depois, descobriu-se que o efeito antidepressivo era acarretado por todas as drogas que, assim como a iproniazida, diminuíam a ação da enzima MAO, que age sobre os neurotransmissores dopamina, noradrenalina e serotonina.

Efeito marionete

Como os antidepressivos atuam no cérebro e indiretamente alteram o comportamento.

Os antidepressivos agem principalmente em três áreas do cérebro: o hipocampo, o sistema límbico e o núcleo da rafe. Ali, as células nervosas, os neurônios, trocam informações entre si convertendo impulsos elétricos em químicos. Os agentes dessa conversão são os neurotransmissores. Os antidepressivos atuam, principalmente, sobre dois deles, a serotonina e a dopamina. A cada intercâmbio, uma parte dos neurotransmissores é destruída por enzimas, outra é transmitida para a célula seguinte e o restante volta para onde saiu, num processo chamado recaptação. As drogas interferem nesse trânsito.

Efeito analgésico

A maior parte dos antidepressivos tradicionais age no núcleo da rafe, uma estrutura que fica no tronco cerebral. Dele saem neurônios que transmitem a serotonina, o neurotransmissor que age sobre a percepção e o humor, produzindo sensação de bem-estar e efeito analgésico. Um dos mais eficientes contra a dor é a nortriptilina, conhecida pela marca comercial Pamelor.

Parar de fumar

O bupropion, conhecido pelas marcas Zyban e Wellbutrin, é evitado por causa de efeitos colaterais como boca seca, prisão de ventre, visão borrada, náusea, diarréia e alucinações. Só que ele também aumenta a liberação de dopamina, o neurotransmissor produtor de euforia, prazer e recompensa, que age no sistema límbico, a área do cérebro responsável por instintos e funções vitais. Esse efeito diminui a carência de nicotina.

Sexo prolongado

Antidepressivos aumentam a recaptação de dopamina no sistema límbico. No entanto, em pacientes sem depressão provocam redução da libido. Esses ususários necessitam de maior estímulo sexual para atingir o orgasmo, o que prolonga o ato sexual, aliviando o mal da ejaculação precoce. O remédio mais empregado nesse caso é o Tofranil, nome fantasia da imipramina.

Sem timidez

A paroxetina, assim como a fluoxetina e a sertralina – os princípios ativos de antidepressivos como Prozac, Aropax, Pondera e Zoloft –, inibem a recaptação de serotonina indutora de bem-estar no sistema límbico. A Medicina não sabe por quê, mas isso diminui a timidez.

Bom humor

Antidepressivos como a amitriptilina (Tryptanol) e a cloripramina (Anafranil) também inibem a recaptação de serotonina no hipocampo, a estrutura cerebral que controla diversas funções, principalmente o humor e a memória. Isso faz com que a transmissão de serotonina aumente, atenuando o mau humor.

Palco de sensações

Uma nova geração de drogas é capaz de mexer com as atitudes. Mas apresenta riscos.

Vitamina na libido

O sildenafil (Viagra) provoca relaxamento nas artérias e fibras musculares do pênis, o que faz o sangue entrar no órgão e provocar ereção. A distensão também é produzida nos demais músculos do organismo. Por isso a droga é contra-indicada para quem tem problemas cardíacos. Outra substância similar, a fentolamina (Vasomax), bloqueia os receptores de adrenalina. Ela é a inimiga número 1 da ereção, porque deixa os músculos tensionados, dificultando a entrada de sangue no pênis.

Garota desinibida

A paroxetina, que tem no Brasil os nomes fantasia Aropax e Pondera, inibe a recaptação de serotonina, diminuindo a transmissão desse neurotransmissor, relacionado com a sensação de bem-estar. Os cientistas não sabem como, mas isso atenua a timidez. A fluoxetina, princípio ativo do Prozac, também tem efeitos semelhantes.

Memória virtuosa

A fosfatidilserina (princípio ativo do remédio Bros) age no hipocampo, potencializando a transmissão do neurotransmissor acetilcolina, relacionado à memória e às funções motoras. Isso melhora a memória em pacientes com disfunções cognitivas, como o mal de Alzheimer. Mas não há evidências de que ela tenha o mesmo efeito sobre um indivíduo sem esse tipo de patologia. Neles, pode acarretar lesões no fígado.

Sempre ligado

O metilfenidato (do medicamento Ritalina) potencializa a ação dos neurotransmissores noradrenalina e dopamina, diminuindo o que os médicos chamam de déficits de atenção. Isso faz com que o indivíduo hiperativo fique mais atento. “É um efeito semelhante ao da anfetamina”, explica a psicofarmacologista Clarice Gorenstein, do Hospital das Clínicas de São Paulo.

Repouso merecido

As drogas mais modernas para a insônia – como zolpidem (Stilnox e Lioran) e zolpiclone (Imovane) – produzem menos efeitos colaterais que as mais antigas, chamadas benzodiazipínicas (como Lexotan e Lorax). Além de fazer efeito mais rapidamente, eles não acarretam sensações desagradáveis como ressaca e sonolência no dia seguinte. Também não causam disfunções motoras e dependência.