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Novidades nas prateleiras das farmácias

Os cientistas não pretendem apenas que, no futuro, todo mal tenha remédio. Eles procuram medicamentos mais eficazes, quase sem efeito colateral, fáceis de tomar.

Lúcia Helena de Oliveira e Eugênia Fernandes

Conquistar espaço nas prateleiras das farmácias é privilégio de poucas substâncias: dos mais de 5 milhões das conhecidas pela ciência, apenas cerca de 6 000 servem de princípio ativo nas fórmulas de cápsulas, comprimidos, injetáveis, xaropes, soluções e pomadas. Para cada 12 000 compostos químicos candidatos a se transformar em remédio, somente um termina aceito como fármaco — substância com ação terapêutica comprovada —, no final de exaustivos testes, que consomem até quinze anos. Sua inscrição nesse clube seleto sai cara: a pesquisa de um novo medicamento chega a custar, do início ao fim, 1 bilhão de dólares. Mas, apesar da incessante busca, os cientistas do mundo inteiro encontram, com uma dose de sorte, setenta novos fármacos por ano.

Dezenas de pesquisas brasileiras, na área das ciências farmacêuticas, caminham em ritmo de conta-gotas por falta de verbas. Especialmente aquelas que procuram drogas para curar doenças do Terceiro Mundo, que não tem recursos para recuperar o investimento. O fato é que, em toda a sua história, o Brasil nunca lançou uma novidade farmacológica. Mas entrará para a lista dos contribuintes no próximo mês, quando o Ministério da Saúde deverá registrar o primeiro medicamento brasileiro, um antiinflamatório extraído da Cordia verbenacea, conhecida popularmente por erva-baleeira.

Seu princípio ativo, a molécula chamada artemetina, parece resolver desde o problema de quem, por exemplo, levou uma martelada no dedo até aliviar o sofrimento provocado pela artrite reumática. Existem, é claro, dezenas de antiinflamatórios no mercado exibindo indicações idênticas na bula. Mas, segundo o químico farmacêutico Jayme Sertié, do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo, a erva-baleeira tem uma vantagem: “Ela não ataca o estômago como os outros remédios do gênero”, afirma. “Ao contrário, estimula a produção de um muco, que protege a parede gástrica.” Além disso, a planta — na realidade, um arbusto — é comum de ponta a ponta da costa brasileira e oferece folhas verdes de janeiro a janeiro.

O principal objetivo dos pesquisadores do Laboratório de Farmacologia de Produtos Naturais, chefiado por Sertié, é justamente descobrir fármacos em vegetais abundantes no Brasil, país que importa oito de cada dez matérias-primas dos seus medicamentos. Essa caça a remédios nas matas brasileiras tem, evidentemente, um ponto de partida. “Estudamos plantas de uso popular consagrado para certa finalidade”, explica Sertié. Sem essa pista, achar um medicamento específico para determinada doença na flora brasileira seria equivalente a ganhar na loteria: no planeta devem existir entre 250 000 e 300 000 espécies vegetais, das quais o Brasil possui cerca de 150 000; dessas, por sua vez, os químicos conhecem as características de uma única planta em cada 200.

“Às vezes, a sorte ajuda”, revela Sertié, com riso matreiro. Acende e cigarro e, baixando o tom da voz como quem faz confidências, conta que, no ano passado, aceitou um estudante como estagiário. Apesar de, na época, o laboratório não ter muito serviço, o rapaz insistia a todo instante que gostaria de fazer alguma coisa. Sertié, então, lembrou-se de três vidrinhos, esquecidos na geladeira, repletos de óleo de copaíba. Trata-se de uma substância muito usada pela indústria de cosméticos extraída de uma árvore da região do Amazonas. Para aplacar a ansiedade do estagiário, Sertié entregou-lhe o óleo, que já havia sido usado sem sucesso em outra experiência, e pediu que o testasse em ratos com tumor. Os resultados dessa ordem ao acaso surpreenderam: “Ratos com câncer vivem em torno de dez dias, enquanto aquelas cobaias sobreviveram, em média 45 dias”.

O problema das drogas para combater tumores é que elas agem como uma metralhadora na mira de um mosquito — disparam uma série de tiros que acertam o alvo e estilhaçam também o que eventualmente está ao redor. “O óleo de copaíba, aplicado no tumor, destruiu apenas as células cancerosas, deixando intactas suas vizinhas sadias”, comemora Sertié. O pesquisador desconfia que, de duas, uma: “Ou o óleo estimula o sistema imunológico, acentuando as defesas do organismo, ou a substância inibe a manifestação dos genes que ordenam o crescimento celular desenfreado, típico do câncer. Para saber o que realmente acontece, os pesquisadores devem iniciar, em breve, uma série de testes. Os segredos de qualquer planta costumam ser desvendados pelos especialistas em Farmacognosia, nome derivado do grego, que significa “conhecimento dos medicamentos”.

“Quando se quer descobrir o que uma planta tem de especial para curar determinada doença, fazemos extratos diversos, à base de água, de etanol, de clorofórmio”, exemplifica a professora Elfried Bacchi, da Faculdade de Ciências Farmacêuticas, da USP. “Assim, conforme o solvente, vão ser liberados diferentes componentes do vegetal. Mais tarde, testamos esses sucos em cobaias, para verificar qual deles tem o efeito esperado.” Uma vez encontrado o extrato certo, Elfried lança mão de equipamentos, como o cromatógrafo, que denunciam as moléculas ali presentes — uma ou mais delas devem ser o fármaco ou princípio ativo, a substância que de fato é responsável pela ação de um remédio. A palavra remédio, aliás, no vocabulário dos cientistas, designa um conjunto de substâncias, entre elas o próprio fármaco, só que acompanhado, por exemplo, de corantes, flavorizantes para dar sabor agradável, solventes para dar certa consistência.

Até os anos 20, quando surgiu a indústria da síntese de compostos químicos, a área da Farmacognosia englobava os medicamentos existentes, pois eram todos de fontes naturais. Atualmente, 48,9% dos fármacos são sintéticos, isto é, criados em laboratórios. “A indústria prefere reproduzir em tubos de ensaio aquelas moléculas encontradas na natureza, porque o processo costuma sair mais barato”, observa o farmacêutico Paulo Chanel de Freitas, também do Departamento de Farmacognosia da USP. “Certas moléculas, porém, são tão complexas, que não vale a pena sintetizá-las”, nota o cientista. É o caso dos chamados remédios digitálicos, derivados da planta Digitalis purpurea, usados por cardíacos para regular a pulsação. “Parece muito mais fácil obter seu fármaco das folhas, do que reproduzi-lo em laboratório”, diz Chanel. “Outro exemplo é a morfina, que continua sendo extraída da papoula.”Existem também os medicamentos semi-sintéticos, como os anticoncepcionais — moléculas de hormônios extraídas de planta são ligeiramente modificadas em laboratório, para ficarem idênticas às do hormônio progesterona do organismo da mulher, que impede a gravidez. 

“E como se a natureza realizasse metade do trabalho”, explica, risonho, o químico farmacêutico Andrejus Korolkovas, nascido na União Soviética, naturalizado brasileiro, cujos livros são leitura obrigatória em escolas americanas, alemãs e japonesas. Hoje, aos 68 anos, aposentado, Korolkovas talvez trabalhe mais do que nos tempos em que lecionava. Quase diariamente, visita seu antigo gabinete na Universidade de São Paulo, para orientar o trabalho de alunos e pesquisadores, além de preparar outro livro.O método mais antigo aplicado por especialistas em síntese, como Korolkovas é o da modificação molecular. Vale tudo para criar fármacos mais eficazes — acrescentar ou retirar anéis de átomos, alterar detalhes na distribuição espacial de uma molécula ou dividi-la em estruturas mais simples. “A tendência é os medicamentos serem criados sob medida”, comenta o professor. Ou seja, acusados os culpados por um problema de saúde, os pesquisadores vão investigar suas origens. Não deram trégua, por exemplo, à norepinefrina, antes conhecida por noradrenalina, o hormônio que jorra das glândulas supra-renais na corrente sanguínea, especialmente nos momentos de estresse. Os cientistas relacionam essa substância à pressão alta.

Ocorre que, no organismo, a maioria das substâncias não nascem prontas: é como se existissem linhas de montagem, que os cientistas chamam vias metabólicas. Pois os bioquímicos resolveram impedir a formação da norepinefrina analisando etapa por etapa da construção de sua molécula. Desse modo, projetaram outra molécula capaz de bloquear uma única substância, requisitada pela supra-renal para formar o hormônio. Sem essa substância a linha de montagem da norepinefrina ficou emperrada.Abre-se um inquérito semelhante para se desenvolverem novos antibióticos. “Uma bactéria e um homem têm proteínas muito parecidas. Cabe ao bioquímico farmacêutico bisbilhotar o organismo da bactéria até encontrar pequenas diferenças”, determina Korolkovas. “A meta dos antibióticos sempre é impedir a formação dessa proteína exclusiva do parasita, sem afetar as proteínas também presentes no organismo humano. Caso contrário, o remédio mata o paciente.

”O mais promissor recurso incorporado à síntese de medicamentos é, sem dúvida, a inteligência artificial. “Até então, você iniciava a procura de um fármaco sem a certeza de encontrar, no final, uma substância que funcionasse. Já o computador pode garantir à pesquisa um final feliz”, compara Korolkovas. Os programas de Informática desenvolvidos para os laboratórios farmacêuticos são capazes de quebrar as moléculas das substâncias conhecidas em centenas de pedacinhos e, ao mesmo tempo, listar as propriedades químicas de cada uma dessas pequenas porções. Assim, o pesquisador realiza suas experiências na tela do computador — o que, óbvio, economiza tempo. Pode saber o que acontecerá com determinada substância se mexer aqui ou ali, dando-lhe átomos extras ou arrancando uma parte de sua molécula. No final das alterações, o computador analisa a molécula criada na tela e a define de acordo com três parâmetros considerados fundamentais, quando se trata de um medicamento.

O primeiro deles são as forças elétricas presentes naquela molécula, pois toda reação química, olhada de perto, nada mais é do que uma troca de elétrons entre átomos. Ou seja, as cargas elétricas podem agir como ganchos, fazendo um fármaco reagir com outras substâncias — ou não. O segundo parâmetro é a solubilidade, ou seja, saber se o fármaco é mais ou menos solúvel em água ou em gordura. “Um medicamento bastante solúvel em água é rapidamente eliminado, através do suor e da urina; já um fármaco solúvel em gordura tende a se armazenar no organismo, o que pode ser perigoso se ele for muito tóxico”, compara a farmacêutica Maria Amélia Barata da Silva, da USP. Finalmente, ao se sintetizar uma molécula, é indispensável conhecer direito o seu tamanho e a sua forma. Faz sentido: para uma substância qualquer causar efeito, bom ou ruim, ela deve se ligar, ainda que por poucos instantes, com células do próprio organismo do paciente — ou com a molécula de um parasita, no caso de antibióticos — para acontecer a reação. 

“É como se o fármaco fosse esculpido para ter encaixe perfeito no lugar desejado, como uma peça de quebra-cabeça”, descreve Maria Amélia.Um dos maiores desafios dos cientistas, porém, é fazer com que esses fármacos, encontrados na natureza ou criados em laboratório, atinjam o foco de uma doença com a precisão de um antimíssil Patriot. “Inundamos o organismo de um paciente com 500 miligramas de um fármaco, quando 5 miligramas seriam suficientes, se soubéssemos dirigi-las ao lugar certo”, exemplifica Hatem Fessi, professor da Universidade de Paris, cuja equipe é considerada uma espécie de vanguarda na área da Farmacotécnica encarregada de tornar as moléculas do fármaco um remédio, como se vê nas farmácias. O laboratório em que Fessi trabalha, no tranqüilo Chatenay-Malabry subúrbio parisiense, não se contenta em produzir cápsulas, pílulas, injetáveis, enfim, as formas comuns de medicamentos. Ali, se estudam, por exemplo, cápsulas tão pequeninas, os lipossomos, que seriam necessárias quarenta delas pará preencher o diâmetro de um fio de cabelo.Quando alguém engole um comprimido este é bombardeado pelos sucos gástricos, até literalmente estourar, soltando o princípio ativo. 

Essa liberação pode ser desastrosa. Os antiinflamatórios são casos típicos: enquanto não são absorvidos pela corrente sanguínea, ficam irritando a parede do estômago. “Os lipossomas são minúsculos, a ponto de atravessarem os poros do intestino”, descreve Fessi. “Se uma molécula do antiinflamatório estiver ali dentro, não tocará as paredes do aparelho digestivo, durante o seu percurso.” Segundo o professor, os lipossomas poderão resolver, entre outras coisas, o problema de diabéticos, que precisam injetar doses diárias de insulina. “Esse hormônio não pode ser tomado por via oral, porque o suco gástrico é capaz de destruí-lo. Os lipossomas, porém, podem protegê-lo da degradação.” Trata-se, por enquanto, apenas de uma esperança. Afinal, é certo que a equipe de cientistas franceses conseguiu criar cápsulas em miniatura — aliás, audaciosos, começam a desenvolver as chamadas nanocápsulas, ainda mil vezes menores do que os lipossomas. Isso, no entanto, resolve somente um problema de tamanho.

Resta saber se os pesquisadores terão êxito em desenvolver microcápsulas suficientemente fortes para chegarem incólumes ao seu destino — teoricamente, mergulhadas em uma solução, via oral, elas deveriam ser quebradas já no sangue, ao atravessarem o fígado. “Hoje, essas partículas parecem frágeis”, reconhece Fessi. O cientista deve testar, nos próximos meses, a eficiência dos lipossomas, no tratamento de infecções e cânceres relacionados à AIDS: “A toxicidade dos medicamentos diminuirá até 30 vezes”, calcula. Os franceses também experimentam grudar em cada microcápsula um anticorpo monoclonal, fabricado em laboratório para conduzir o fármaco, como um bom motorista, até o local da doença, sem ficar retido em órgãos onde sua presença é absolutamente desnecessária e, muitas vezes, até prejudicial. A farmacêutica paulistana Ida Caramico Soares, professora da Universidade de São Paulo, estagiou seis meses no laboratório francês.
 
De lá voltou, em dezembro passado, com planos de desenvolver microcápsulas com drogas contra a malária, que são de difícil absorção. Outro projeto, porém, será disparado primeiro: “É possível criar um comprimido”, ela conta, “que cole no estômago, ficando ali por algumas horas. O efeito de um remédio será prolongado, o que pode ser muito útil em algumas doenças, freqüentes no Brasil, como o mal de Chagas. Os médicos nunca têm certeza se os doentes, geralmente pessoas menos informadas, estão tomando todas as doses, como foi recomendado” diz Ida. “Aumentar os intervalos entre um comprimido e outro facilitará as coisas.”

 

 

 

 

Para saber mais:

O mundo de cada um

(SUPER número 4, ano 4)

Com os minutos contados

(SUPER número 1, ano 8)

 

 

 

 

O caminho até o balcão

Cerca de 12000 compostos químicos são analisados, para se selecionar, em média, 2500 eventuais fármacos. Essas substâncias são testadas, primeiro, em animais pequenos, como ratos, aumentando o porte das cobaias até se chegar aos primatas. Conforme os resultados em macacos, começam os testes em seres humanos sadios voluntários, e, só depois, em doentes. Pode ser que, daí, nasça um novo remédio — ou não. São dez a quinze anos de trajetória sem Garantia de sucesso. Fonte: Faculdade De Ciências Farmacêuticas Da USP.

 

 

 

Formas novas para velhos remédios

Para certas pessoas, qualquer comprimido é difícil de engolir. “O pior é que nem todo remédio pode ser encontrado na forma de gotas, porque alguns fármacos perdem efeito em combinação com a água”, explica a farmacêutica Ida Caramico Soares. No futuro, porém, os comprimidos serão formados por uma espécie de esqueleto insolúvel, que confinará o princípio ativo propriamente dito. “Quanto menores os poros desse esqueleto, mais lenta será a liberação do medicamento”, revela Ida. “Assim, o horário de repetir a dose ficará adiado.”Quem tem medo de injeção também pode ficar otimista: os cientistas procuram substituir a picada, cuja vantagem é lançar o medicamento direto na circulação, por meios mais simples e menos dolorosos. Já começa a ser testada, por exemplo, a insulina na forma de spray, para ser vaporizada no nariz. “Aproveitam-se as mucosas, como a do olho e a do nariz”, conta a farmacêutica. “Esses tecidos são irrigados por um enorme número de vasos, o que facilita o acesso rápido da droga no sangue.”

 

 

 

Doses de exagero

No ano passado, a indústria farmacêutica aliada às empresas que prestam serviços de saúde — como os convênios médicos — conquistaram o segundo lugar no rol dos maiores anunciantes brasileiros, perdendo apenas para os fabricantes de cigarros. Para o professor Fernando Lefèvre, especialista em Educação da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo, isso reforça sua teoria de que os medicamentos viraram bens de consumo, como uma roupa da moda ou um carro último tipo. “As pessoas não tomam remédio porque cismam estar doentes, o que seria hipocondria. É diferente: elas engolem um comprimido porque só assim sentem manter a saúde”, raciocina o professor, que passou os anos 70 ,em Paris, estudando Semiótica, a área das ciências humanas que investiga os símbolos. “O fenômeno é mundial, isto é remédio passou a representar saúde”, diz Lefèvre, que publicou recentemente um livro sobre o assunto.No Brasil. porém, existe uma agravante: a automedicação. De acordo com o Ministério da Saúde, seis em cada dez pessoas que vão à farmácia entram ali sem receita médica e saem levando alguma droga para casa. Mesmo assim, Lefèvre insiste que a automedicação é a ponta de um iceberg. “Estudos médicos mostram que noventa por cento das dores de cabeça são passageiras”, exemplifica. “As pessoas, no entanto, suportam melhor a dor se engolem um analgésico — a promessa química, com receita médica ou não, de que o tormento irá terminar.”