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Drogas: como funciona a redução de danos?

O mero proibicionismo não dá certo. O caminho é informar as pessoas sobre o que precisam saber para usar com responsabilidade.

Por Filipe Vilicic 15 abr 2026, 12h01
  • Durante a epidemia de HIV/Aids nos anos 1980 e 1990, governos e organizações propagandearam não fazer sexo como a solução para não se infectar. Em 1987, o então presidente dos EUA, Ronald Reagan, sugeriu que a abstinência estava ausente em boa parte da educação, e naquela época surgiram programas norte-americanos como o Abstinence Only Until Marriage (Abstinência Apenas até o Casamento).

    Essas estratégias logo se mostraram inúteis. Perante elas, sobressaiu a eficiência de campanhas preventivas, como as que promoviam o uso da camisinha. A mensagem “faça, mas com responsabilidade” com o tempo deu certo.

    Os métodos de Redução de Danos (RD), que é o nome dado a ações como a promoção da camisinha, protagonizaram o enfrentamento às Infecções Sexualmente Transmissíveis (as ISTs). Assim como na questão do sexo, a mesma lógica da RD agora se populariza no uso de drogas.

    Uma das iniciativas mais famosas nessa linha é a das salas seguras para uso de substâncias, que já existem em países como Suíça, Holanda, Alemanha, Dinamarca, Espanha, França, Canadá e Austrália (mas não no Brasil). Nelas, os usuários ficam livres para utilizar drogas, mas ao mesmo tempo têm à disposição suporte de saúde e de assistência social.

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    Nos EUA, estratégias do tipo têm sido fundamentais no combate à epidemia de mortes por fentanil, como ações de organizações de RD em parceria com polícias locais para encaminhar dependentes químicos para tratamento. Nos últimos dois anos, projetos como esse ajudaram na queda de 25% das mortes por overdose dessa droga.

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    A psicóloga Maria Angélica Comis, referência brasileira na área de RD, explica: “O início dessa abordagem se deu também nas décadas de 1980 e 1990, pois era um momento em que havia um consumo maior de drogas injetáveis, e isso contribuía para a propagação do HIV”. As campanhas giravam em torno de regras como o não compartilhamento de seringas.

    “Mas não houve mudanças estruturais e, quando a epidemia do HIV foi controlada e teve a migração dos usuários para drogas fumadas, como o crack, as pessoas que estavam em situação de vulnerabilidade assim continuaram”, diz Comis. Espalharam-se problemas sociais como a proliferação das cracolândias e as ondas de abuso de substâncias como ansiolíticos e metanfetamina.

    A primeira atitude diante dessa questão foi a repressão, com campanhas como a “Sou Careta. Drogas, Bah!”, que teve início nos anos 1990 e até hoje insiste em diferentes formatos. Mas, assim como foi com o sexo, essas iniciativas não deram certo. Uma das maiores evidências é que houve aumento de 80% no consumo de substâncias psicoativas em nosso país entre os anos de 2012 e 2023 (1).

    “O problema não é a abstinência como escolha, mas quando vira exigência para que se tenha cuidado. Quando se diz ‘primeiro pare de usar, depois te ajudo’, muita gente fica sem ajuda”, afirma a pedagoga Nathielly Janutte, coordenadora do Centro de Convivência É de Lei, ONG que atua na área de RD desde 1998.

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    A proposta da RD, é importante frisar, nada tem a ver com incentivar o uso. Acrescenta Janutte: “Não é contra a abstinência. Se uma pessoa quer parar de usar, a gente apoia. Se ela não quer, a gente também apoia”. É uma questão de encarar a realidade. Usar substâncias que alteram o nosso estado é um hábito que acompanha a humanidade há milênios, seja para fins religiosos, medicinais ou lazer. As pessoas não vão parar de usar drogas, assim como nunca pararam de transar (para a tristeza de Reagan).

    Se a escolha é não parar…

    O médico Uno Vulpo se tornou um influenciador nas redes sociais ao falar sobre como adotar a RD no dia a dia. Assim ele define: “Redução de Danos são práticas para minimizar problemas, traumas gerados, seja pelo uso de substâncias, como também por diferentes estilos de vida. A vida se torna mais saudável e segura”.

    Com cerca de 250 mil seguidores em seu perfil no Instagram, o @sento.mesmo, Vulpo ganhou fama nos últimos cinco anos, na esteira da popularização das conversas sobre RD. “Em um Carnaval logo antes da pandemia, fiz uma tabela sobre mistura de substâncias que acabou viralizando”, lembra.

    Marcas de grande porte, sobretudo as ligadas ao mercado das substâncias legalizadas, têm feito ações de RD. Desde 2024, por exemplo, a maior empresa de bebidas alcoólicas do País distribui água para os foliões no Carnaval. Em um mercado com menos consumidores (a taxa de adultos abstêmios no Brasil saltou de 55%, em 2023, para 64% em 2025), é de esperar que as empresas queiram entrar no debate para se manterem relevantes.

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    Neste ano, a revista online Breeza, da qual sou fundador, em parceria com a ONG É de Lei, espalhou informações sobre o tema por blocos de rua de São Paulo, por meio de tendas com redutores de danos profissionais (há cursos profissionalizantes de RD, embora a função ainda não seja regulamentada pelo Estado). Os redutores orientavam as pessoas e distribuíam leques que, além de aliviar o calor excessivo, traziam uma tabela que mostrava as consequências de misturar diferentes tipos de drogas. O projeto teve apoio de uma multinacional da área do tabaco.

    “É fundamental que essas empresas apoiem que se fale de RD”, diz Maria Angélica Comis. “Assim como no tema da sustentabilidade, as marcas que causam os danos precisam promover a conscientização de como diminuí-los.” Se é utópico deixar o mundo livre de drogas, é preciso lidar com a existência delas.

    “Inclusive, as empresas precisam achar as alternativas menos danosas, como no tabaco, em que a criação de dispositivos eletrônicos para fumar, ainda proibidos no Brasil, poderia ser estratégia para reduzir os danos das opções regulares de cigarro”, acrescenta a psicóloga. Regularizar essas alternativas seria uma forma de ofertar itens fiscalizados e comercializados apenas a maiores de idade. Não é o que acontece hoje, com os pods descartáveis e vapes vendidos no mercado ilegal, costumeiramente adulterados e fornecidos para adolescentes.

    Uno Vulpo, que se define como um redutor de danos, destaca a importância dessa conversa: “Vivemos um recorde anual de adoecimento mental, e o uso de substâncias, sejam as de farmácia ou não, tornou-se uma das principais formas de a população tentar remediar esse sofrimento. Diante de drogas mais acessíveis, e de uma população vulnerável, admitir a Redução de Danos é uma necessidade de saúde pública”. 

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    Filipe Vilicic é jornalista, mestre em Ciências da Comunicação pela USP, cofundador da revista Breeza e do podcast Saindo da Estufa, que se dedicam a reportagens e entrevistas sobre drogas, e editor do Guia da Boa Breeza, manual de referência sobre Redução de Danos.

    Fonte
    (1) dados do 3º Levantamento Nacional de Álcool e Drogas, recém-publicado por pesquisadores da Unifesp.

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