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Pior que o 7 x 1

A Copa do Mundo terá 104 jogos. Mas a nossa falta de tempo pode ser um grande obstáculo para vê-los.

Por Rafael Battaglia 15 Maio 2026, 12h00 | Atualizado em 15 Maio 2026, 12h24
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Carta ao Leitor da edição 487, de maio de 2026.

Meu avô acompanhou a Copa de 1958 no radinho da oficina em que trabalhava. Meu pai assistiu à de 1982 com a família em volta da TV. Viram Zico, Sócrates e cia. ao vivo e em cores. Mágico, até sermos eliminados pela Itália.

Eu acompanhei a de 2014 entre uma aula e outra do colégio. Durante algumas delas também, confesso. Era ensino integral, foi difícil resistir. Mas não fui o único: no laboratório de informática, a professora pediu a todos que desligassem as abas com o minuto a minuto de Espanha X Austrália. Só que ela se esqueceu de mutar o próprio computador, que foi o primeiro a gritar “gol” pelo alto-falante.

Eu e meus amigos também assistimos aos jogos nos sofás de uma loja de eletrodomésticos num shopping perto da escola, no Centro de São Paulo. Era clima de Copa, e ninguém se importou com a nossa presença – até um de nós deitar no chão em frente à TV.

A matemática por trás da bola da Copa do Mundo

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Não dá pra culpar o vendedor por expulsar um bando de adolescentes caras de pau, ainda mais em uma época crucial para o varejo. As vendas de TVs disparam por conta da Copa. Em 2022, por exemplo, o comércio brasileiro vendeu 34,5% aparelhos a mais nos meses pré-torneio em relação ao mesmo período do ano anterior, segundo a NielsenIQ.

As pessoas aproveitam a data para dar um upgrade na TV de casa. Em 2022, 72% dos aparelhos vendidos pouco antes do torneio eram de resolução 4K, e quase metade tinha 51 polegadas ou mais. Ideal para assistir a Arábia Saudita X Cabo Verde numa sexta à noite (rs).

Até quem não acompanha futebol costuma entrar na onda da Copa. A matéria sobre todos os 48 escudos dos times desta edição, lindamente diagramada pela Caroline Aranha, é mais um oásis para apaixonados por história e geografia do que uma matéria esportiva.

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Parte da beleza da Copa é o sentimento de que todo mundo está ligado na mesma coisa. Mas, neste ano, não será bem assim. Na matéria de capa, o editor Bruno Carbinatto mostra em detalhes como a ascensão do futebol nos EUA contrasta com as restrições do evento, de ingressos a preços impraticáveis às barreiras migratórias, que impedirão torcedores de acompanhar os seus times.

Mas há um outro tipo de barreira, que extrapola os estádios: a falta de tempo. De que adianta uma TV nova se a impressão é a de que os dias estão cada vez mais curtos? São expedientes com mais de dez horas diárias, muito comuns entre motoristas e entregadores de aplicativo. Tempo perdido no trânsito e no transporte público. Poucas folgas nos fins de semana.

A atual discussão sobre a redução da jornada de trabalho é uma das mais importantes desta geração. É impossível falar em envelhecimento de qualidade, saúde mental e prática de atividade física se mal sobra tempo para aspirar a casa, preparar a marmita e ver um episódio de The Office no fim do dia. Pior do que o 7 X 1 é a 6 X 1.

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O impacto econômico precisa ser considerado, é claro. Mas dá pra fechar essa conta priorizando o bem-estar do trabalhador, seja ele CLT ou autônomo.

Está na Constituição Federal e na Declaração dos Direitos Humanos: todo mundo tem direito a repouso e lazer. Um tempo adequado para fazer o que quiser – inclusive (e especialmente) assistir a Arábia Saudita X Cabo Verde numa sexta à noite.

Rafael Battaglia Popp

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Editor-chefe

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