Pobreza pode afetar o desenvolvimento de bebês
Falta de estímulo adequado causa problemas motores, aponta estudo.
Bebês que vivem na pobreza, em famílias com renda per capita abaixo de R$ 178 mensais, podem ter atrasos no desenvolvimento motor já nos primeiros meses de vida. Foi o que constatou um estudo (1) da Universidade Federal de São Carlos, que acompanhou 88 bebês (50 deles em situação de pobreza). Conversamos com a pesquisadora Carolina Fioroni, uma das autoras do trabalho.
Como os atrasos foram medidos?
A gente observa a aquisição de habilidades motoras. Por exemplo, a gente vê quando [com quanto tempo de vida] aquele bebê consegue alcançar, pegar e manipular um objeto. Quando consegue sentar de maneira independente, sem encosto. E se vai direto ao objeto, ou se faz muitos movimentos para explorar, porque [ainda] está na fase de aprendizado.
Quais fatores podem causar esses atrasos?
A baixa escolaridade materna, a falta de informação de como estimular o bebê e a falta de brinquedos. A falta de uma bola, de um tapete, de brinquedos que usem a motricidade fina, como um chocalho. Objetos que permitam ao bebê começar a aprender, por exemplo, a fazer movimentos de pinça com as mãos.
E ter muitos adultos morando na mesma casa. As mães relatavam que, nessa situação, elas se sentiam inseguras para colocar os bebês no chão, algo importante para que eles possam se movimentar e fortalecer a musculatura das costas e do abdômen.
No estudo, esses atrasos foram revertidos graças às orientações dadas às mães, que passaram a estimular mais os bebês. Eles terão alguma sequela? E quais as possíveis consequências para um bebê que não recebe o estímulo necessário?
O período de acompanhamento foi de 3 a 8 meses, então a gente não consegue afirmar como será o desenvolvimento desses bebês. Mas, de acordo com a literatura [científica], se eles não tiverem mais atrasos motores, está tudo bem.
Já quanto aos bebês que continuarem atrasados, por não receber estímulos, isso pode levar a problemas na idade escolar, como dificuldade de pegar no lápis ou falta de equilíbrio na aula de educação física.
Bebês do sexo masculino tiveram uma probabilidade 2,5 vezes maior de apresentar os atrasos motores. Por quê?
Os bebês do sexo masculino têm maior predisposição a inflamações, mais radicais livres na corrente sanguínea, maior chance de nascer prematuros e ir à UTI neonatal. Outra hipótese é que os brinquedos e as expectativas sociais para meninos e meninas são diferentes. Mas essa questão ficou para futuras pesquisas.
Fonte 1. “Contextual risk factors for atypical motor development in infants exposed to poverty: a longitudinal study”.







