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Tenha um hobby – e seja medíocre. Tá tudo bem

Grandes gênios não abrem mão do tempo livre, e você deveria fazer o mesmo. Só cuidado com os mosquitos da produtividade e da eficiência.

Por Rafael Battaglia
20 fev 2026, 12h00 •
  • Carta ao Leitor da edição 484 da Super, de fevereiro de 2025.

    Paulo Vanzolini (1924-2013) é um dos grandes personagens da ciência brasileira. Cursou medicina na USP, mas nunca desejou exercer a profissão. Queria mesmo era aprender anatomia e fisiologia para aplicar esse conhecimento com os animais, sua verdadeira paixão.

    Paulo matava aula e passava o dia no laboratório de zoologia. Perto da semana de provas, dormia no Hospital das Clínicas, fazia um intensivão com a turma de lá – e passava de ano.

    A formação lhe abriu portas para um doutorado em Harvard, onde se especializou em répteis e anfíbios. De volta ao Brasil, ajudou a fundar a Fapesp (importante órgão de fomento à pesquisa científica) e comandou por 30 anos o Museu de Zoologia da USP, cujo acervo é um dos mais completos do mundo.

    Em 1993, aposentou-se do cargo de diretor, mas seguiu trabalhando de segunda a sábado no museu. “É a única coisa de que gosto, a única coisa que sei fazer”, disse certa vez à revista Scientific American Brasil.

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    Não é verdade. Na faculdade, Paulo começou a fazer música. Mesmo sem saber tocar um instrumento, decidiu arriscar. Sorte a nossa, pois ele se tornou um exímio sambista. Escreveu mais de 70 canções ao longo da vida, interpretadas por nomes como João Gilberto e Elis Regina. Era bróder de Adoniran Barbosa e frequentava a casa dos Buarque de Holanda.

    Albert Einstein tocava violino entre sessões de estudo. “A música é a maior fonte de alegria na minha vida”, disse o alemão. Marie Curie amava andar de bicicleta, e fazia longas viagens sobre duas rodas com o marido, Pierre. Richard Feynman tocava bongô (habilidade que lhe foi útil durante o carnaval carioca).

    O hobby de Vanzolini deu a ele uma segunda carreira de sucesso. Mas não precisa ser sempre assim. Einstein tocava violino entre sessões de estudo. “A música é a maior fonte de alegria na minha vida”, disse o alemão.  

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    Eles não conquistaram uma carreira paralela como Vanzolini. Mas nunca foi o objetivo. Em comum, todos esses gênios faziam questão de passar um tempo fora do laboratório para praticar outras coisas que lhes dessem prazer. Algo essencial, e não apenas para cientistas. Meryl Streep é viciada em tricô. O Emicida cultiva uma horta.

    A capa deste mês, escrita pela editora Maria Clara Rossini, partiu de várias inquietações. Dentre elas, a de que as redes sociais estão sugando o nosso tempo ocioso – mas elas não são as únicas. Há um surto de produtividade e performance que extrapola o mundo profissional e permeia todas as esferas da nossa vida.

    Domingo é dia de terminar aquele curso online. Leitura? Só se for autoajuda ou algo útil para o trabalho. Desaprendemos a ficar de papo pro ar, ou simplesmente fazer algo por pura diversão. Sério mesmo que não dá pra encaixar um romance policial depois de aprender como fazer amigos e influenciar pessoas?

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    Precisamos retomar a ideia de cultivar um hobby e, mais importante, aceitar que podemos ser medíocres (que não significa “ruim”, apenas “na média”). Nada melhor do que se permitir fracassar – e, no caminho, vivenciar coisas que você jamais imaginou.

    Estou tentando colocar a filosofia da mediocridade em prática. Aos finais de semana, adoro testar novas receitas. Mas sem pressão – só quero fazer um rango gostoso pra quem eu amo. Uma vez por semana, estudo espanhol sem nenhum objetivo em vista (a menos, claro, que eu descole uma entrevista com o Bad Bunny). Ainda quero aprender um instrumento. Desde já, desculpa aí, vizinhos.

    Rafael Battaglia Popp

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    Editor-chefe

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