Uma noite no zoológico
Zoos são heróis ou vilões? Entenda o debate na reportagem de capa da Super de junho.
Carta ao Leitor da edição 488, de junho de 2026.
Uma das minhas memórias favoritas da escola é a de uma excursão que fizemos ao zoológico. De noite.
Eu devia ter uns 8 ou 9 anos e já gostava de ciência (obrigado, revista Recreio). Foi como visitar a casa do Zoboomafoo. Ouvi com atenção as explicações do guia, observei os hábitos noturnos de grandes felinos e comi um lanche em plena madrugada ao som das corujas.
Ok, talvez não fosse de fato madrugada. Não desejo a nenhum professor cuidar de 50 crianças depois das 11 da noite. Seja como for, saí de lá decidido a virar cientista. Voltei ligadão no ônibus, para o azar dos meus pais.
O tempo passou e o meu desempenho nas aulas de física, química e biologia mostrou que eu talvez não desse pra coisa. Segui a vida descrevendo as sinapses de gente com mais aptidão para trabalhar em um laboratório ou catalogar espécies no meio da Amazônia. E estou muito feliz assim.
Visitei novamente um zoológico já mais velho, e o fascínio deu lugar um certo desconforto. Ainda foi muito legal ver o recinto das girafas, claro. Mas não pude deixar de pensar se todos os animais ali viviam em boas condições.
Lembrei dessa história quando a repórter Bela Lobato sugeriu a capa deste mês. Os zoológicos estavam no nosso radar há um tempo, e sabíamos que era um tema delicado. A Bela decidiu encarar e, como sempre, apurou o suficiente para escrever um livro.
Ativistas que defendem o fim dos zoos têm pontos relevantes, que merecem ser discutidos. A reportagem traz todos eles, mas também mostra como essas instituições, se bem estruturadas, podem ajudar na conservação animal e funcionar como um farol de conscientização para a sociedade.
Em 1986, a cientista Jane Goodall (1934-2025) ajudou a organizar uma palestra sobre chimpanzés no Lincoln Park Zoo, em Chicago (EUA). E ficou chocada ao ouvir o relato de outros pesquisadores sobre a dimensão do problema do desmatamento e das condições de vida dos macacos usados em laboratórios.
A partir dali, Jane deixou de se dedicar a pesquisa e passou a viajar o mundo para desenvolver programas de conservação. “Eu fui [à conferência] como cientista. Saí como ativista”, disse ela em uma entrevista anos depois.
Uma das grandes pesquisadoras do século 20, que passou décadas nas florestas da África e revolucionou os estudos com primatas, confessou ter sido impactada por discussões que ouviu em um… zoológico. Haja potencial.
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Editor-chefe
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