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Exterminadores

Eles caçam terroristas, fazem espionagem e bombardeiam alvos militares. Tudo sem piloto; ou melhor, com o piloto sentado a milhares de quilômetros de distância. Saiba por que os aviões não tripulados dominaram o céu - e estão revolucionando a guerra.

Marcos Ricardo dos Santos e Bruno Garattoni

Abbotabad, Paquistão, 1o de maio de 2011. Dois helicópteros das Forças Armadas dos EUA se dirigem à mansão de Osama bin Laden. Segundo informações não confirmadas pelos militares, eles teriam sido acompanhados por um avião: o RQ-170, que é invisível para os sistemas de radar e não tem tripulantes – trata-se de um drone, ou seja, uma aeronave pilotada via controle remoto. Nessa operação, seu papel é transmitir imagens em tempo real para o Pentágono. Mas os drones também podem atacar: desde a morte de Osama, eles já fizeram pelo menos quatro bombardeios contra supostos militantes da Al Qaeda. Só no Paquistão foram 234 ataques nos últimos 8 anos, que resultaram na morte de mais de 2 mil pessoas. Entre elas, segundo os EUA, 33 líderes do Talibã.

Os drones eliminam o risco para o piloto – que fica em segurança, sentado em uma base militar a milhares de quilômetros de distância da guerra. O militar pode acordar, tomar café da manhã, ir até a base e pilotar o avião como se fosse um videogame. Atacar alguns alvos, fazer pausas para almoçar e lanchar e, ao final do dia, simplesmente voltar para casa. É tão seguro quanto trabalhar em um escritório. Para os militares, os aviões não tripulados são a realização de um sonho. Mas eles só nasceram por causa de um grande desastre.

O ano é 1960. Em plena Guerra Fria com a URSS, os EUA ainda não têm uma maneira segura de espionar o inimigo. Como os satélites ainda são uma tecnologia primitiva, a única opção é mandar aeronaves tripuladas sobrevoarem o território soviético – em operações clandestinas coordenadas pela CIA. Até que, no dia 1o de maio, o pior acontece. Um avião americano, o U-2, é abatido durante uma missão de espionagem em plena URSS. Seu piloto, Francis Gary Powers, sobrevive – mas vira prisioneiro dos russos, que revelam o acontecimento ao mundo. O caso provoca um baque profundo nas relações entre URSS e EUA. Os americanos saem humilhados. E determinados a desenvolver uma solução que permitisse fazer espionagem sem riscos. Para as Forças Armadas dos EUA, essa solução são os Unmanned Aerial Vehicles (UAVs), veículos aéreos não tripulados. Logo eles ganham um apelido: drones, termo em inglês que significa zangão (abelha-macho).

Os primeiros modelos eram precários e só serviam como alvos para treinamento de pilotos de caça. Os UAVs assumiram um papel importante nas guerras do Vietnã e do Iraque, nas quais fizeram centenas de missões de reconhecimento. Mas só recentemente viriam a conquistar a importância que têm hoje.

Mais precisamente, em 2002. Os EUA tinham acabado de sofrer o ataque de 11 de Setembro e mais uma vez estavam em guerra. Mas era uma guerra diferente: no novo conflito, logo batizado de Guerra ao Terror, não havia um alvo militar claro.

Os terroristas estavam organizados em grupos relativamente pequenos e mal armados, e sua estratégia de defesa era se esconder no meio da população do Afeganistão. Nesse tipo de confronto, que os militares chamam de guerra assimétrica, os ataques aéreos convencionais são pouco eficazes – pois tendem a produzir um número inaceitável de vítimas civis. Os drones resolvem esse problema. Como não têm piloto a bordo, podem se expor muito mais ao inimigo, voando mais baixo e mais devagar do que os aviões convencionais. Isso significa que eles podem chegar mais perto de seus alvos e atacar com bem mais precisão, gerando menos estrago em volta.

Para cercar, capturar ou matar os líderes do Talibã e da Al Qaeda, a principal opção seria fazer uma grande ação por terra. Mas a Casa Branca não queria isso. Em 1991, a morte de soldados americanos na primeira Guerra do Iraque chocou tanto a opinião pública americana que o Pentágono se viu obrigado a censurar a imprensa proibindo a publicação de fotos de caixões militares. A última coisa de que o governo dos EUA precisaria agora seria uma crise com soldados mortos. Como não são tripulados, os drones também resolvem esse problema.

Um terceiro motivo sacramentou a popularidade dos aviões não tripulados: custo. Com exceção do drone espacial, eles são baratos. Um caça tradicional, como o F-22 ou o F-35, custa US$ 150 milhões por unidade. Isso dá para comprar 15 drones do modelo MQ-9 Reaper, o mais usado em ataques. A formação dos pilotos também é mais simples e rápida. Para se tornar um comandante de drone, basta se alistar e fazer um curso de quatro anos na Universidade de Dakota do Norte, a primeira a oferecer treinamento em UAVs.

Esses três motivos, agilidade, segurança e preço, convenceram os americanos. E a CIA decidiu fazer algo novo. Usar os UAVs para atacar um terrorista. Em novembro de 2002 um Predator, considerado o pioneiro dos drones, disparou um míssil contra um furgão no Iêmen, matando 6 pessoas – entre as quais, segundo os EUA, estava um líder da Al Qaeda. Sucesso. De lá para cá, os aviões não tripulados se tornaram a arma mais badalada da Força Aérea americana. Só no ano passado, fizeram 118 ataques contra alvos no norte do Paquistão, eliminando 46 líderes da Al Qaeda – que recentemente acusou o golpe. Em uma gravação distribuída a militantes em janeiro, um porta-voz da organização diz que a Al Qaeda está “perdendo pessoas” e “perdendo a liberdade” de ocupar as áreas patrulhadas por drones. Essas áreas, segundo um estudo da Universidade Harvard, hoje registram 47% menos incidentes terroristas.

Para os EUA, os drones estão ganhando a guerra contra o terror. Mas isso é só metade da história.

Separados por 1,2 segundo

Com tantos resultados positivos, o uso dos drones disparou – cresceu 5 200% entre 2004 e 2010. Hoje os americanos têm uma esquadrilha com aproximadamente 7 mil UAVs. Esse crescimento se deve a uma mudança de estratégia. Se no começo os aviões não tripulados só iam atrás de figurões, hoje eles são usados até contra peixes relativamente pequenos. “94% dos ataques são contra combatentes comuns”, diz Peter Berg, diretor da ONG New America Foundation, que organiza os números oficiais em um grande banco de dados sobre drones. O problema disso é que, com cada vez mais ataques, os drones podem acabar matando mais civis. Isso sempre pode acontecer, em qualquer tipo de ação militar. Mas, com os aviões não tripulados, o risco tende a ser maior. E não é difícil entender o motivo disso.

Os drones são comandados em duas bases americanas, ambas no estado de Nevada. O piloto tem à sua frente os controles e um monitor que exibe imagens transmitidas pela câmera do drone. Seu ângulo de visão é pequeno. Mas o grande problema é outro: a comunicação entre a base e a aeronave, via satélite, tem atraso médio de 1,2 segundo. Se já é difícil jogar um videogame com uma defasagem dessas, imagine pilotar um avião capaz de chegar a 900 km/h.

Os UAVs (como todo caça moderno) utilizam mísseis guiados por computador que contornam essa deficiência. Mas os pilotos nem sempre escolhem os alvos certos. Em março de 2009, um drone do Exército de Israel (único país além dos EUA a utilizar drones em ataques) matou 48 civis na Faixa de Gaza. Em junho de 2009, um avião robótico dos EUA matou 80 inocentes no norte do Afeganistão. Em fevereiro deste ano, o primeiro caso de fogo amigo: dois soldados americanos mortos por um drone no Afeganistão.

Eles são considerados difíceis de manobrar – pois não estão sujeitos às mesmas normas de estabilidade aerodinâmica impostas aos aviões convencionais. Também são tidos como pouco confiáveis. Estima-se que de 20% a 40% dos drones americanos tenham caído por falhas mecânicas ou erros de pilotagem. Em 2009, um avião não tripulado que voava sobre o Afeganistão endoidou e perdeu contato com o operador. Fora de controle e com 200 quilos de bombas, ele teve de ser perseguido e abatido por um F-15.

Os operadores de UAV também se comportam de maneira diferente. “Há muitos estudos mostrando que, quando maior a distância do piloto para o local de combate, maior sua tendência a abrir fogo”, diz Mary Ellen O’Connell, professora da Universidade de Notre Dame e autora de uma pesquisa a respeito.

Mesmo quando tudo dá certo os drones podem ser um problema. Eles são eficazes demais. Não permitem capturar os terroristas; somente matá-los. E isso equivale a uma queima de arquivo. O interrogatório de Abu Zubaydah, tenente da Al Qaeda capturado em 2002, é considerado peça fundamental na identificação dos autores do 11 de Setembro. “Mas e se, em vez de preso, ele tivesse sido morto?”, questiona o analista político Marc Thiessen, redator dos discursos do ex-presidente George Bush.

General on board

Agora imagine quando os computadores começarem a mandar na guerra. O Pentágono já está desenvolvendo aviões completamente autônomos, capazes de voar, identificar inimigos e tomar a decisão de atacar sozinhos. Pode parecer megalomania, mas tem uma explicação razoável: os drones atuais são vulneráveis. Como a comunicação entre piloto e aeronave é via ondas de rádio e passa pela atmosfera, está sujeita a sabotagens. Usando tecnologias que já existem hoje, inimigos podem tentar criar interferências que derrubem o avião. Ou até mesmo tomar o controle dele e utilizá-lo para atacar alvos civis em um atentado terrorista high-tech. Uma aeronave 100% autônoma não estaria sujeita a esse tipo de problema.

A Universidade de Tecnologia da Geórgia, nos EUA, já desenvolve um software de inteligência artificial para drones. Ele consulta as leis militares e analisa informações sobre o local do combate, a movimentação das tropas inimigas e o número estimado de vítimas inocentes para tomar sua decisão. E isso pode resultar em menos mortes de civis – pois o robô não tem sentimentos, como ódio ou sede de vingança. “As máquinas podem fazer [a guerra] melhor do que nós”, defende Ronald Arkin, diretor do projeto. O software seria programado para abortar a missão quando o dano colateral presumido (o risco de atingir civis inocentes) superasse um nível predefinido. Em alguns casos o algoritmo prevê que não se abra fogo em hipótese nenhuma – como perto de uma escola, por exemplo. Os robôs poderiam aprender com as consequências de cada ação, ajustar seu comportamento nos próximos ataques e compartihar essas informações com outros drones.

“O problema é que o pensamento de um robô não é o mesmo de um humano”, diz Peter Asaro, professor de filosofia da ciência da Universidade de York. Sempre pode surgir um fato novo, um imprevisto para o qual a máquina não está preparada. O temor é que os UAVs possam cometer massacres involuntários ou até mesmo deflagrar acidentalmente um conflito entre dois países. As guerras sempre foram uma luta entre humanos. Nossos maiores inimigos, no futuro, poderão ser as máquinas.
 


O predador

O que faz – É o drone mais popular em ações de combate, pois é capaz de carregar até 1 000 kg de mísseis e bombas e tem um raio de ação de 6 mil quilômetros. Foi usado para matar Usama al-Kini, líder da Al Qaeda no Paquistão, em 2009.

Nome – MQ-9 Reaper

Preço – Us$ 10,5 milhões

O invisível

O que faz – Os EUA não revelam as características do RQ-170, usado em missões de reconhecimento e espionagem no Afeganistão. Passar despercebido é a vocação dele, primeiro drone a usar a tecnologia stealth – que o torna invisível para os radares.

Nome – RQ-170 Sentinel

Preço – n/d

O corajoso

O que faz – Foi utilizado para filmar o interior da usina nuclear de Fukushima, no Japão, quando os níveis de radiação estavam altos demais para a entrada de inspetores. É pequeno e capaz de decolar verticalmente, como um helicóptero.

Nome – RQ-16A T-Hawk

Preço – US$ 375 mil

O incansável

O que faz – Suas enormes asas, que têm 23 metros de envergadura, são cobertas por células fotovoltaicas que captam energia solar e permitem ao avião, ainda em fase experimental, permanecer no ar por até 14 dias seguidos.

Nome – Zephyr

Preço – Us$ 6 milhões

O brasileiro

O que faz – Criado pela empresa paulista Flight Technologies, possui autonomia de 5 horas e velocidade de 145 km/h. É a evolução de um modelo desenvolvido com o Exército – que poderá empregar drones para vigiar a fronteira com o Paraguai.

Nome – Horus 200

Preço – n/d

O espacial

O que faz – É um ônibus espacial não tripulado. Em 2010, ficou sete meses no espaço. Pertence à Força Aérea dos EUA, que não revela a função da nave. Especula-se que ela poderia ser utilizada para fazer espionagem ou para derrubar satélites de países inimigos.

Nome – X-37

Preço – US$ 474 milhões
 

Para saber mais

Moral Machines: Teaching Robots Right from Wrong

Wendell Wallach e Colin Allen, Oxford University Press, 2008