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Grandes bolas de fogo

Centenas de astrônomos do mundo todo estão em busca de cometas e asteróides que passam perto da Terra. Entre um susto e outro, a caçada trouxe novos e surpreendentes conhecimentos sobre as pedras voadoras.

Thereza Venturoli

Um dia qualquer de dezembro. Um imenso pedaço de rocha, com 8 quilômetros de diâmetro, avança direto sobre a Terra, ameaçando extinguir a vida no planeta de uma tacada só. Os técnicos da Nasa têm apenas seis dias para tentar desviar ou destruir o bólido assassino, evitando assim o apocalipse. Se você nunca ouviu falar desse episódio aterrador, não estranhe. Ele só aconteceu nas telas de cinema e vídeo. Esse é o tema do filme Meteoro, de 1979.

Mas, quando se trata de cometas e asteróides, nem todo susto fica na ficção. Os estudantes de Astronomia Timothy Spahr, da Universidade da Flórida, e Carl Hergenrother, da Universidade do Arizona, sentiram na própria pele um pavor semelhante ao retratado no filme. No final de maio passado, eles descobriram uma manchinha luminosa que, vista pelo telescópio, dobrava de tamanho a cada 48 horas. Quatro dias depois, um asteróide que tinha de diâmetro o equivalente a um prédio de 178 andares passou a apenas 448 000 quilômetros da Terra – um pouco além da nossa vizinha mais próxima, a Lua. Isso quer dizer que, em termos astronômicos, o megaedifício voador tirou uma fina da gente.

“Foi aterrador”, contou Hergenrother à revista americana Time. “Eu me senti antevendo a destruição de uma cidade, de um Estado ou até de um pequeno país inteiro.” Poderia ser pior. Os astrônomos calculam que um choque desses causaria uma explosão maior do que a detonação de todo o arsenal nuclear americano.

Como Spahr e Hergenrother, centenas de astrônomos profissionais e amadores estão em busca dessas ameaçadoras pedras que, quando entram na atmosfera terrestre, se transformam em bolas de fogo e são chamadas então de meteoros.

Um dos mais novos times de caçadores está no projeto Neat (sigla para Rastreamento de Asteróides Próximos da Terra, em inglês), da Nasa e das Forças Armadas americanas. De dezembro de 1995, quando começaram a operar, até agosto passado, os pesquisadores do Neat já localizaram um cometa e cinco asteróides desconhecidos, cujos trajetos cruzam a órbita da Terra em torno do Sol. Cada um desses pedregulhos celestes tem mais de 3 quilômetros de diâmetro. Eleanor Helin, líder da equipe do Neat, garante que não há previsão de trombada iminente. Mas pelo menos dois deles podem um dia chegar perto demais. “E se não os vimos antes, isso significa que existe uma grande chance de haver outros corpos desse tipo aqui por perto.”

Olhai para o céu, olhai para o chão

As rochas que vêm do alto deixam marcas profundas na face da Terra. São conhecidas mais de 120 grandes crateras espalhadas pelos cinco continentes. Algumas cicatrizes lembram grandes cataclismos cósmicos, como o que levou à extinção dos dinossauros há 65 milhões de anos (veja o quadro abaixo).

O fato de ter acontecido uma vez não quer dizer que esteja para ocorrer uma nova catástrofe global (veja o infográfico na página ao lado). Afora o período pré-histórico, existe um único registro de fatalidade ligada às “chuvas de estrelas”. Parece piada, mas não é: no dia 28 de junho de 1911, em Nakhla, Egito, um cão morreu, atingido por um meteoro.

Isso nos dá tranqüilidade para aproveitar as maravilhas trazidas do céu por asteróides e cometas. Veja nestas páginas as últimas descobertas que os cientistas fizeram no chão: as crateras múltiplas do Chade, na África, e a seqüência de buracos que corta os Estados Unidos, do Kansas ao Illinois.

Espetáculos que vêm das alturas

Calcula-se que os céus despejem sobre a Terra, por dia, entre 1 000 e 10 000 toneladas de matéria. Por sorte, 99% dessa artilharia não é tão pesada assim. Chega na forma de minúsculos grãos de poeira, pequenos demais para oferecer risco. Ainda assim, eles são grandes o suficiente para revelar alguns segredos interessantes, como o da sua origem (veja o quadro ao lado).

Quando pedaços maiores chegam ao solo, a violência do impacto pode criar até diamantes (veja o quadro na página seguinte). E, mesmo se não aterrissam, os nômades espaciais trazem surpresas no seu rastro de luz. Como o cometa Hyakutake, que passou raspando na Terra em março passado. Visto de perto, o bloco de poeira e gelo mostrou uma cara diferente de todos os outros conhecidos (veja o quadro abaixo, à direita).

A história contada pelas crateras

Alguns buracos criados pelo impacto de meteoros em milhões de anos de história do planeta são grandes o suficiente para ter provocado desastres globais. Como a cratera de Chicxulub, associada à extinção dos dinossauros.

Manicouagan, Canadá

As bordas, com 100 quilômetros de um lado a outro, sumiram. Resta um lago congelado de 70 quilômetros de diâmetro, em torno de um centro formado por rochas de difícil erosão.

Chicxulub, Golfo do México

Com 180 quilômetros de diâmetro – parte em terra, parte submersa no mar – ela é a marca do cometa ou asteróide que provavelmente aniquilou os dinossauros.

Kara-Kul, Tadjiquistão

Fica a 6 000 metros acima do nível do mar, nas montanhas Pamir. No centro da cratera, de 45 quilômetros de diâmetro, há um lago de 25 quilômetros de uma margem à outra.

Roter Kamm, Namíbia

A imagem de radar mostra a cratera de 2,5 quilômetros de diâmetro e 130 metros de profundidade recoberta por uma camada de areia de 100 metros de espessura.

Barringer, Estados Unidos

Ela tem 1,2 quilômetro de um lado a outro. Mas foi criada por um meteoro de apenas 30 metros de diâmetro. É que o bólido era metálico e, por isso, muito pesado.

Cicatrizes em fila indiana

Meteoros arrebatados deixam rastros profundos.

Yes. Nós, terráqueos, tivemos cometas como o Shoemaker-Levy 9, que se despedaçou no espaço e despencou sobre Júpiter na forma de um longo colar de 21 fragmentos em 1994. A primeira indicação disso vem do Chade, na África (veja foto à esquerda). A astrônoma Adriana Ocampo, do Laboratório de Propulsão a Jato, da Nasa, descobriu que a cratera Aorounga, de 200 milhões de anos, tem pelo menos duas irmãs menores ao seu lado. Escondidas sob a areia do deserto do Saara, elas só foram detectadas por um radar a bordo do ônibus espacial Endeavour. Segundo Adriana, a família de buracos foi criada pela quebra de um cometa ou de um asteróide com diâmetro entre 1 e 2 quilômetros. A segunda cadeia de crateras é maior ainda: são oito marcas que atravessam 700 quilômetros do território americano (veja o mapa ao lado). Segundo seu descobridor, o geofísico Michael Rampino, a estrutura das depressões não indica que elas sejam resultado da explosão de vulcões, como se pensava até há pouco. São mesmo sinais da queda em série de meteoros destroçados.

Pó extra-terrestre

Depois da formação do Sol, há cerca de 5 bilhões de anos, uma pequena porção de poeira e gases lançados para o espaço não conseguiu se aglutinar em planetas. E acabou num desses três depósitos: o cinturão de asteróides, o cinturão de Kuiper ou a nuvem de Oort (veja o infográfico abaixo). Seria então natural achar que todo material que chega à Terra tenha saído de uma dessas “latas de lixo” do sistema solar. Mas não é bem assim. Astrônomos australianos e neozelandeses detectaram por radar meteoros medindo cerca de 30 milésimos de milímetro que só podem ter vindo dos domínios de outras estrelas. O que denunciou a poeira alienígena foi sua velocidade. Enquanto os grãos domésticos entram na atmosfera a, no máximo, 73 quilômetros por segundo, as estrangeiras alcançam 100 quilômetros por segundo.

As chamadas estrelas cadentes são na verdade meteoros, pedaços de asteróides, cometas ou planetas que entram na atmosfera terrestre. O rastro luminoso que eles deixam no céu é criado pelo atrito com o ar, que ao desgastar o corpo acende-o como a uma tocha.

A poeira doméstica e a estrangeira

Nem tudo vem do sistema solar.

Cinturão principal

É a grande casa dos asteróides. Fica entre as órbitas de Marte e de Júpiter, entre 300 milhões e 600 milhões de quilômetros do Sol.

Cinturão de Kuiper

Grande reservatório de pedras geladas que cruza a órbita de Plutão, além dos 4,5 bilhões de quilômetros do Sol

Nuvem de Oort

Imensa reserva de mais de 10 trilhões de cometas, a mais de 1 ano-luz de distância do Sol (1 ano-luz mede 9,5 trilhões de quilômetros).

Além dos limites

Cerca de 1% da poeira que chega à Terra vem do espaço interestelar, de algum ponto para lá das fronteiras do sistema solar.

Vírus a bordo

Quando chegou no ponto mais próximo do Sol, em 25 de março passado, o cometa Hyakutake surpreendeu os astrônomos. O satélite Rosat captou um intenso jato de raios X vindo do núcleo cometário. A primeira idéia foi de que sua superfície de gelo estivesse refletindo a radiação solar. Mas, segundo Fred Hoyle e Chandra Wickramasinghe, da Universidade do País de Gales, esse tipo de reflexo só poderia produzir tanta energia se batesse em corpos do tamanho de vírus. Jamais se haviam detectado partículas tão pequenas em cometas. Para os dois pesquisadores, o espelho de raios X era mesmo feito de milhares de microorganismos. Isso reabre uma controversa teoria segundo qual a vida na Terra foi importada do espaço interplanetário pelos cometas.

Chuva de diamantes

Os meteoros podem produzir o mineral precioso de três maneiras diferentes.

1 – Os diamantes podem ser criados pelo choque entre asteróides, ainda no espaço. Nesse caso, os meteoros já chegariam à Terra carregados de cristais.

2 – O impacto com o solo produz enorme calor e pressão que reorganizam os átomos de carbono existentes no silício (areia) do asteróide, criando diamantes.

O poder criador da violência

Os geofísicos já descobriram oito depressões com trilhões de diamantes medindo apenas uma milionésima parte de milímetro (veja o mapa abaixo). As preciosas lascas servem como indicadores de que uma escavação no solo foi criada por um corpo celeste, e não por um antigo vulcão. “Se acharmos diamantes maiores, eles podem até ser explorados economicamente, um dia”, disse à SUPER o geólogo Robert Hough, da Universidade Aberta, na Inglaterra, que achou os primeiros diamantes vindos do espaço, em Ries, na Alemanha.

3 – Quando chega ao chão, o bólido esmaga as rochas da Terra com tal calor e pressão que o grafite existente nelas se reagrupa na forma de diamantes que ficam encravados no solo.