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Irmãos Lumière. Luzes, câmera, ação

Entre as inúmeras invenções que levam sua assinatura, a mais espetacular foi, sem dúvida, o cinematógrafo. Naquele final do século XIX, eles nem sequer imaginavam que a máquina que criaram se transformaria num instrumento de fazer arte e também muito dinheiro.

Por Da Redação - Atualizado em 31 out 2016, 18h39 - Publicado em 30 nov 1991, 22h00

Gisela Heymann

Quem passou pelo Boulevard des Capucines, no centro de Paris, no final dos idos de 1895, não pôde deixar de notar uma enorme fila que se estendia por centenas de metros. Agasalhados contra um rigoroso inverno, homens, mulheres e crianças esperavam a vez para entrar na pequena sala do subsolo do Grand Café, pomposamente batizada de Salão Indiano, no número 14 daquela avenida. Uma vez instalados nas 100 cadeiras dispostas diante de um grande pedaço de pano branco, assistiam a um fantástico espetáculo de luzes e movimentos. Em certo momento, um trem avançava em direção à platéia, para depois desaparecer num canto da tela. Pouco depois, podia-se observar a saída dos operários, na pausa do almoço, da fábrica Lumière, instalada em Lyon.

A sessão durava vinte minutos e custava 1 franco por pessoa. Os que puderam participar destes momentos certamente não se arrependeram do tempo gasto ou da despesa extra. “Esta foi a mais fácil invenção de minha vida”, dizia Louis Lumière, décadas depois, quando o cinema já tinha se transformado em arte e em negócio milionário. Auguste e Louis foram os dois primeiros filhos de um casal humilde: Antoine, pintor de letreiros, e Jeanne-Joséphine, lavadeira. Logo após o casamento, em 1859, os dois perambularam por Lyon Paris e Besançon onde Antoine resolveu mudar de profissão. Segundo ele, a pintura não tinha futuro. Melhor seguir a moda e tentar o ramo da fotografia. Após alguns meses de aprendizado num estúdio fotográfico, Antoine montou seu próprio negócio.

Cinco anos mais tarde, a família voltou para Lyon—desta vez definitivamente. Instalado na Rua de la Barre, a principal da cidade, o patriarca, também conhecido por sua bela voz, pelo fervoroso nacionalismo e por um obstinado anticlaricalismo, não precisava correr atrás de clientela. Quatro mil automóveis, 5 000 charretes, 500 cavaleiros e mais de 40 000 pedestres passavam, por dia, em frente à sua porta. Nos anos seguintes, outros dois filhos vieram aumentar a família e, não fosse pela mania de gastar sempre um pouco mais do que ganhava, Antoine Lumière poderia se considerar um próspero comerciante—nos dias de movimento, chegava a tirar até 200 retratos. Auguste e Louis trilharam os passos do pai. Durante sua primeira viagem de férias, os dois irmãos seguiram para a Bretanha, no noroeste da França, acompanhados de um professor de Matemática, Marius Pradel

O passatempo não poderia ser outro: depois de fotografar tudo o que viam, corriam para uma gruta que, na maré baixa, lhes servia como quarto escuro para revelação. Foi nesta caverna, chamada de Goule-aux-Fées, que Auguste e Louis juraram trabalhar juntos por toda a vida. Os dois estudaram no colégio La Martinière, mas atacado por inexplicadas crises de dor de cabeça, Auguste não pôde prestar os exames para a faculdade. Louis, que sofria do mesmo mal, nem sequer tirou o diploma oficial da escola, embora tenha colecionado primeiros lugares em Desenho, Matemática e Química durante os dois anos de curso. Nas horas vagas, ambos ajudavam o pai, que chegou a apresentar suas mais belas fotos na Exposição de Paris em 1878

Foi na mesma ocasião que o arrebatado Antoine decidiu encomendar uma iluminação elétrica para seu estúdio— novidade que causou furor aos espectadores do evento. Convencido de que o jogo de luzes do inventor alemão Van der Weyder incrementaria seu negócio, o pai Lumière fez apenas uma exigência: ser o único a possuir o engenho na região. Ele não contava, porém, com outro empecilho: ainda não existia distribuição de eletricidade na Lyon de 1879. Antes de se dar por vencido—atitude pouco comum na família-, Antoine instalou na cave uma pequena central a gás ligada a uma outra máquina encarregada de alimentar em corrente continua as tais lâmpadas elétricas.

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Foi a primeira de uma série de soluções que seriam manchete de jornal ainda por várias décadas. No famoso século das invenções, aperfeiçoar, desenvolver e até improvisar eram qualidades indispensáveis. Auguste e Louis herdaram-nas em quantidade mais que suficiente. Antoine, seus filhos e até Madame Jeanne-Joséphine dominavam bem a complexa técnica fotográfica daqueles tempos: as placas chamadas de colódio úmido tinham de ser emulsionadas uma a uma, num quarto escuro, antes da exposição e reveladas instantes depois. Para as fotos de exterior, uma câmara escura fazia parte dos apetrechos do profissional. No entanto, a invenção e o aperfeiçoamento das placas secas, sensibilizadas de antemão, prontas para o uso e que podiam ser conservadas e reveladas muito tempo depois seriam a grande revolução da época. O patriarca Lumière não deixaria passar mais essa novidade. Muniuse de revistas especializadas, em que as novas fórmulas foram publicadas e pôsse a fabricar suas próprias placas.

Sua histórica impaciência banhada de um parco conhecimento de Química foram responsáveis pelo fracasso, embora o fotógrafo nunca tenha deixado de acusar os inventores de divulgar fórmulas falsas. Exausto pelas tentativas infrutíferas, Antoine seguiu para a fazenda de um amigo em busca de calma. Durante o repouso no campo, Auguste e Lonis resolveram retomar as experiências do pai. Ao contrário deste, os dois irmãos eram minuciosos ao extremo: anotavam cada resultado, cada nova técnica e mudavam apenas um parâmetro por vez. Ao voltar, Antoine surpreendeu os filhos num infatigável trajeto de ida e volta à farmácia mais próxima, único local onde havia uma balança de precisão.

Em 1881, Auguste, contrariado, partiu para cumprir o serviço militar. Pouco depois, Lonis chegou à fórmula final. Animado com a possibilidade de se tornar o único fabricante de placas secas da região, Antoine não tardou a procurar um galpão que lhe servisse de estúdio. A jornada de trabalho tornou-se ainda mais dura que de hábito. Louis, então com 17 anos, sua irmã Jeanne, de apenas 11, e a mãe, cumpriam quinze horas por dia, enquanto Antoine mantinha o estúdio em plena atividade. Mil e quatrocentas placas eram produzidas por dia—quantidade ainda insuficiente para cobrir as dividas contraídas pelo fotógrafo otimista. Embalado pelo sonho da fortuna rápida, Antoine Lumière comprou equipamentos e gastou muito mais do que podia, antes de esperar, impacientemente, como de costume, a volta do filho mais velho. “Estamos arruinados”, anunciou.

Para o jovem Auguste e seu irmão, porém, nem tudo estava perdido. Armados de uma seriedade fora do comum, reuniram os cobradores, conseguiram moratória e até algum crédito extra para pagar a alguns incrédulos. Venderam o estúdio, contrataram operários e em pouco tempo tinham reerguido, pela primeira vez, o que o pai tinha destruído. Os dois resolveram voltar ao laboratório—desta vez empenhados em inventar uma placa mais rápida que necessitasse de apenas alguns segundos de exposição. A “etiqueta azul”, que recebeu este nome por conta do rótulo da embalagem, foi vendida por nada menos de sessenta anos. Auguste e Lonis tornaram-se respeitados empresários de Lyon. Em cinco anos, o que passou a ser a Sociedade Anônima Lumière e Filhos cresceu de forma espantosa. O volume de negócios, que em 1886 era de 295 000 francos, pulou para 1,253 milhão. A família vivia, enfim, confortavelmente.

Antoine promovia jantares, festas e jogos. Eram de fato poucas as noites sem movimento na casa dos ilustres franceses. Principalmente depois que a família Wincler, de origem alsaciana, se instalou nas redondezas. O pai, Alphonse, cervejeiro de profissão, havia comprado a Grande Brasserie, na Avenida de la Croix-Rousse. Antoine e Alphonse chegaram a construir um túmulo comum no cemitério de la Guillotière. Eles não eram os únicos a alimentar projetos coletivos. Em 1893 Auguste Lumière casou-se com Margueritte Wincler; Jules Wincler com Juliette Lumière; Louis Lumière com Rose Wincler e enfim Charles Wincler com France Lumière. A partir daí, nenhuma refeição contava com menos de dez pessoas à mesa.

As noites acabavam em música, o que não impedia os irmãos de acordar todos os dias às 4 da manhã—hábito que os acompanhou até a velhice. Auguste e Louis se encontravam desde cedo para discutir os mais diversos assuntos—da administração da fábrica, quando jovens, ao futuro do cinema, anos depois. “Meu pai era um poeta. Assim que ganhava algum dinheiro, gastava-o com a mesma rapidez”, disse Lonis em sua última entrevista ao jornalista francês Georges Sadoul, autor de uma famosa história do cinema mundial. Ele se referia, sem dúvida, à segunda vez que Antoine recorreu aos filhos, ao confessar que tinha vendido suas ações da fábrica, além de ter feito empréstimos de 1,5 milhão de francos por conta de sua nova mania: construir casas.

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Como Auguste e Louis não suportavam a idéia de dividir seu negócio com estranhos, recorreram, por sua vez, a um amigo que lhes emprestou a soma necessária para saldar as dívidas e recomprar as ações vendidas. Desta vez Antoine tinha ido longe demais. Um conselho de família resolveu afastá-lo dos cofres da fábrica Lumière. A partir daquele momento, o pai perdulário devia se contentar com uma mesada estipulada pelos quatro filhos. Na época, a indústria de Lyon nada tinha a ver com o pequeno galpão comprado às pressas, quando Louis inventou a placa seca. Uma fábrica de vidro, parte de uma indústria de produtos químicos, de papel e outros acessórios tinham sido incorporados ao patrimônio familiar. Mas o espírito empreendedor dos irmãos prodígio não tinha ofuscado seus dotes científicos.

Quando não encontravam à venda o material desejado para desenvolver uma nova placa ou emulsão, Auguste e Louis se trancavam durante dias em seu laboratório e de lá não saíam enquanto não inventassem o instrumento desejado. Foi numa destas ocasiões que Auguste começou a se interessar pela imagem em movimento. Na época, vários inventores se debruçavam sobre a questão—alguns tinham mesmo chegado a algum resultado. Principalmente o prolixo Thomas Edison. A partir de 1891, o americano apresentou ao público o kinetoscópio, no qual um filme de cerca de 15 metros permitia a um único espectador observar uma cena do tamanho de um cartão de visitas. Três anos depois, fabricava a máquina em série, convencido de que seu invento estava destinado a diversão individual.

“Eis aqui o que vocês deveriam fazer”, bradou Antoine ao visitar o filho Louis na fábrica. Tirou do bolso uma fita de kinetoscópio que tinha ganho dos concessionários franceses do aparelho. “Edison vende isto a preço de ouro e os concessionários querem produzir fitas aqui mesmo, para tê-las a um preço mais acessível.” Sem perda de tempo, Auguste passou a estudar um meio de captar imagens revelá-las e projetá-las num movimento semelhante ao da vida real. “Passei três meses pesquisando sem chegar a um resultado satisfatório”, contou Auguste tempos depois. “Foi quando meu irmão, que tinha assistido às minhas experiências, pegou uma gripe que o deixou de cama por vários dias. Uma manhã, quando fui vê-lo, Louis me anunciou que, durante a sua insônia, teria achado a solução para o problema.”

A grande questão era como dar a ilusão de movimento à fita de imagens fotográficas, sem deixar que o espectador percebesse o desenrolar da fita. “Devemos recorrer a um dispositivo que ataque a película em repouso, que a acelere e a retarde até sua imobilidade, quando projetaremos a imagem. Temos de repetir este ciclo quinze vezes por segundo”, ordenou Louis. Para conseguir o movimento desejado, os irmãos recorreram a um engenho inspirado na máquina de costura, incrementado com um sistema de dentes que se encaixavam nas perfurações da película. Após filmar algumas tiras experimentais, Auguste e Louis organizaram, como era de prever, uma projeção familiar. Nessa época, o clã Lumière não cessava de aumentar. Louis, Auguste e os outros casais Lumière-Wincler tiveram mais de dez filhos.

A primeira cena em movimento apresentada ao público foi, sem dúvida, “A saída da fábrica”. Num dia de sol inesperado, em 19 de março de 1895, Louis acionou a manivela. Oitocentas imagens em 50 segundos, que foram projetadas, três dias depois, numa conferência em Paris. A surpresa foi geral. Em seguida, os irmãos produziram “O Jardineiro”, “Chegada de um trem à estação de la Ciotat” e várias outras cenas que seriam apresentadas no famoso Salão Indiano, do Boulevard des Capucines. A segunda sala de projeção do chamado cinematógrafo foi no número 1 da Rua de la République, em Lyon. Em muito pouco tempo, toda a França podia assistir a uma sessão do cinematógrafo. Sem perda de tempo, operadores das máquinas eram treinados na fábrica e depois enviados a dezenas de cidades no mundo inteiro: Europa, Ásia, Américas.

O sucesso foi imediato. Como era previsto, os irmãos Lumière não se contentaram com o título de inventores. Passaram a ser fabricantes de apareIhos, de películas, produtores e distribuidores de seus próprios filmes. Sem se darem conta, porém, da importância que o cinematógrafo tomaria, Auguste e Louis perderam o controle da empreitada. Por fim, venderam as salas a dois empresários mais poderosos e visionários: Messieurs Gaumont e Pathé. “Se eu soubesse até onde chegaria o cinema, talvez não o tivesse inventado”, confessou Louis ao jornalista Sadoul. Para ele, como para o irmão, a máquina não passava de mais uma idéia nascida numa época propícia. Não foi por outro motivo que ambos voltaram aos laboratórios, às emulsões e às fotografias. Também se dedicaram à eletricidade, à acústica, ao automóvel. Auguste passou ainda a se interessar pela Medicina.

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Embora não tivesse nenhum diploma, aprendeu a fazer diagnósticos, estudou e aprimorou fórmulas de vários medicamentos e tornou-se o chefe dos Hospícios da cidade de Paris. As festas em família animavam as noites de Lyon. já então com instrumentos musicais inventados por Louis, que chegou a chamar os amigos para um espetáculo particular. Atrás de uma cortina, tocava a mesma música com instrumentos tradicionais, das mais renomadas marcas, e com os de sua autoria. Cabia aos convidados distinguir estes daqueles fiando-se apenas nos ouvidos. Após inúmeros equívocos dos amigos, Louis abriu as cortinas: “Chega. Já sei o que queria saber”. Louis Lumière morreu em 1948 aos 84 anos. Auguste, seis anos depois, com 92. “Cheguei ao fim do filme”, disse poucos dias antes.

Para saber mais:

O impossível sob medida

(SUPER número 3, ano 4)

A volta do filme 3-D

(SUPER número 7, ano 4)

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Cinema digital

(SUPER número 4, ano 10)

Negócio de bom tamanho

Os irmãos Lumiére nada tinham do inventor caricato, que cria as coisas mais engenhosas sem saber para que servem. Todos os seus projetos tinham objetivos definidos—e um deles era ganhar dinheiro. Ainda assim, eles com certeza não tinham idéia do tamanho que viria a assumir o negócio em que estavam entrando como pioneiros. Cálculos da revista U.S. News & World Report indicam que este ano os americanos deixarão nas bilheterias das 20 000 salas de exibição do pais a fantástica cifra de 5 bilhões de dólares. Menos fácil de calcular é o rendimento da produção cinematográfica que vai para a televisão, as produtoras e locadoras de fitas de vídeo. Convém não esquecer, também, o cinema que se faz para outros propósitos que não a diversão—filmes educacionais, científicos, documentários etc..

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