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Médicos apostam em inteligência artificial contra o câncer

Entenda como o superpoder de processamento do Watson, da IBM, pode ajudar no tratamento da doença

O cenário parece ter saído de um filme de ficção científica: um médico conversa com seu computador sobre o caso de um paciente com câncer, como se estivesse diante de um colega. Ele compartilha suas impressões e faz perguntas, utilizando seu idioma nativo. O sistema do computador entende a conversa e, a partir das informações recebidas, acessa uma vasta base de dados com milhões de páginas de literatura médica e casos semelhantes. Depois de processar esses dados, ele responde ao médico, também em linguagem natural. Esse cenário, apesar de parecer futurista, baseia-se na tecnologia de computação cognitiva, que move sistemas como o Watson, da IBM.

Por meio de parcerias com centros médicos espalhados pelo mundo, começa a ser criada uma “nuvem” de conhecimento sobre o câncer, uma enorme base de dados online com milhões de páginas de informação, textos acadêmicos e diários médicos. Essa base pode ser acessada por meio da linguagem natural, e todo o trabalho de cruzamento de informações e elaboração de hipóteses, que dará ao usuário o resultado de sua pesquisa, é processado pelo cérebro eletrônico. 

“A computação cognitiva possibilita ao computador aprender como o cérebro humano e utilizar esse conhecimento”, diz José Augusto Stuchi, pesquisador sênior e líder da plataforma tecnológica cognitiva do Centro de Pesquisa e Desenvolvimento em Telecomunicações (CPqD), um dos maiores centros de pesquisa de TI da América Latina, localizado na cidade de Campinas, interior de São Paulo. “A grande vantagem é que, com base em poucos exemplos, o sistema consegue generalizar.”

Em abril deste ano, a Sociedade Americana de Câncer estabeleceu uma parceria com a divisão de inteligência artificial da IBM para adicionar ainda mais conhecimento ao Watson, que será integrado à nuvem da instituição. Ao todo, são cerca de 14 000 páginas de informações relacionadas ao tratamento de câncer, focadas no suporte a pacientes em tratamento e sobreviventes, que poderão acessar esses dados por meio da linguagem natural, ou seja, conversando com o computador. No futuro, essa tecnologia poderá ainda ser integrada a tablets e smartphones.

O sistema tornou-se viável graças às características únicas da computação cognitiva – uma inteligência artificial que compreende dados não estruturados (como a linguagem falada, textos e imagens) e que pode estabelecer novos insights sem que seja programada para agir de uma determinada maneira, como os computadores tradicionais. Assim, a máquina pode trabalhar com grande parte do conhecimento já produzido sobre o tratamento do câncer e oferecer a pacientes e médicos um novo olhar, com alta precisão.

“É difícil analisar a quantidade enorme de dados que coletamos”, diz Craig Thompson, presidente do hospital Memorial Sloan Kettering, centro pioneiro de pesquisa do câncer dos Estados Unidos, localizado em Nova York, e uma das principais referências na área. O hospital foi um dos primeiros parceiros da IBM no uso do Watson na oncologia.

O Watson auxilia médicos a estabelecer o melhor plano de ação para o tratamento de um determinado tipo de câncer baseado em evidências. O oncologista acessa a base de dados e estuda as possíveis alternativas, fornecidas com base em uma coleção de casos anteriores. A inteligência artificial faz todo o trabalho de análise. “Possuir a informação e a sabedoria na ponta dos dedos transformará todo médico no profissional mais experiente do mundo naquele problema específico”, diz Larry Norton, chefe do departamento de câncer de mama do Memorial Sloan Kettering.

“O Watson tem a capacidade de analisar grandes volumes de informação e reduzi-los a pontos críticos de decisão. Isso é essencial para melhorar nossa habilidade de entregar terapias efetivas e disseminar essas informações para o mundo”, diz Thompson.

Como é capaz de aprender, assim como o cérebro humano, o sistema pode ser alimentado com uma quantidade ilimitada de dados. Algoritmos matemáticos de aprendizado dão conta do trabalho. Quanto mais exemplos receber, melhor será a elaboração de tratamentos eficazes, baseados em casos anteriores. A decisão final sempre caberá aos médicos, mas eles a tomarão com uma quantidade muito maior de informação analisada.

“Nosso papel é o de professor do Watson. Assim como ensinaríamos um oncologista em início de carreira, treinamos o sistema. Colocamos nele informações sobre como nossos médicos tratam os pacientes”, diz Mark Kris, médico chefe do departamento de computação cognitiva do Memorial Sloan Kettering. Além de já funcionar em mais de dez centros de tratamento nos Estados Unidos, a tecnologia de inteligência artificial começa a ganhar o mundo, com experiências na Índia e na Tailândia. 

Com a união da computação cognitiva e de uma nuvem na internet que armazena todas as informações, os médicos do Memorial Sloan Kettering acreditam que essa tecnologia vai proporcionar uma revolução médica que não se limitará a alguns centros americanos. “Isso tem o potencial de mudar totalmente a maneira como conduzimos a medicina no mundo”, diz Larry Norton. “É um passo revolucionário.”

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