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Mímica eletrônica: Ei, computador, leia minhas mãos

O Media Lab, um dos mais avançados laboratórios em informática dos Estados Unidos está desenvolvendo computadores que conseguem se comunicar e atender às ordens do usuário através da fala ou de gestos.

Esqueça as operações complicadas com que você comanda o seu computador. Logo, logo, você vai conversar com ele, ou, na falta de palavras, vai poder usar a mímica. Facilitar a comunicação com a máquina é o objetivo de um dos mais criativos centros de pesquisa em informática da atualidade, o Media Lab, do MIT, o Instituto de Tecnologia de Massachusetts, nos Estados Unidos. No que depender do MIT, você vai chegar diante da tela e falar:

Ei, computador, leia as minhas mãos!

Imagine um programa capaz de aposentar o teclado e o mouse, ensinando uma mistura de mímica e conversação ao computador. Você afasta um pouco as mãos como quem indica o tamanho de alguma coisa e ele sabe que tem que desenhar um quarto exatamente daquele tamanho. Depois, você estica o dedo para um canto da sala e ele identifica no desenho onde você quer uma mesa. Como também pode reconhecer sua voz, você simplesmente lhe diz que deve desenhar um quarto (e não uma sala) e que deve pôr uma poltrona (em vez de uma cama) num dos cantos do quarto.

Claro que nada disso se encontra à venda nas lojas. A mímica eletrônica é um projeto para o futuro. Um dos muitos projetos mirabolantes desenvolvidos pelos magos do Media Lab, do MIT, em Cambridge, Estados Unidos. A mistura de mímica e voz foi criada pelo professor Richard Bolt. O programa é só um exemplo, claro. No Media Lab, vale tudo para abrir a cabeça cibernética da máquina: jornal, cinema, vídeo, desenho animado, televisão. E a meta é sempre a mesma: facilitar a comunicação homem-monitor. Se possível, fazer dela algo simples como um bate-papo.

As conquistas são várias. É incrível o que se pode fazer com os filmes quando as imagens são digitalizadas. Por exemplo: em vez de ver o filme passar numa tela, dá para ver três, dez ou cem imagens de uma vez só. Uma ao lado da outra, congeladas, à disposição do espectador. Com isso, até crianças vão aprender a editar um filme, diz a pesquisadora Glorianna Davenport, também do Media Lab. Jeffrey Ventrella, por sua vez, tenta aplicar a magia digital aos desenhos animados. O projeto mais sensacional, porém, talvez seja o que procura transformar o computador num jornalista eletrônico — capaz de conhecer cada um dos seus leitores, individualmente, e de dar a cada um o devido tratamento especial. São assim os jornais desenvolvidos por Walter Bender.

Não é à toa, portanto, que o Media Lab tem o apoio dos gigantes da informática, das americanas IBM e Apple à japonesa Nintendo (do orçamento de 20 milhões de dólares ao ano, as empresas cobrem 70% e o governo dos EUA, 30%). O orçamento é modesto, mas o laboratório já demonstrou que sabe compensar a escassez de recursos com aquilo que tem de sobra: criatividade.

Uma informação eletrônica pode ser dividida em três partes. A primeira parte é o conteúdo. Que pode ser uma notícia, entre muitas outras coisas. A segunda parte é o endereço. Quer dizer que a notícia pode ser dirigida a um leitor particular — e não a todo o público, indiscriminadamente. A terceira e última parte é a forma. O freguês é quem escolhe se quer receber a notícia impressa em papel, escrita numa tela, gravada numa fita de áudio ou mesmo num CD-ROM, com imagem e tudo.

O Freshman Fishwrap, do Media Lab, é um jornal assim. Foi criado por um programa integrado à rede de computadores do MIT. Os leitores que conseguem acesso à rede, passam os seus dados pessoais ao programa, que os arquiva. Assim, cada vez que algum desses leitores pede seu pacote de informações, recebe um produto totalmente personalizado. Você se interessa por esportes? Então a principal manchete do seu jornal de hoje fala de futebol. Você vai a Inglaterra amanhã? Sua manchete falará da previsão do tempo em Londres.

Para saber mais:

Aqui se fabrica o futuro

(SUPER número 3, ano 10)

Foco no olhar

Uma minicâmera filma por meio de um espelho todos os movimentos dos olhos para que a máquina saiba onde está o foco da atenção do usuário

Mímica magnética

Como uma bússola, sensores instalados nas luvas registram a posição dos braços num campo magnético em torno do homem

Gesto virtual

Com os dados que recebe das luvas, por meio de fios, o computador cria uma figura que repete automaticamente os movimentos dos braços do usuário

Filme em pacotes

Glorianna Davenport tem um projeto que vai facilitar enormemente a edição de imagens. Quaisquer imagens. Elas podem ser capturadas de um filme e depois digitalizadas. Assim, são arquivadas numa seqüência chamada video streamer. Graças a isso, você não fica obrigado a ver o filme em sua seqüência, mas pode olhar de uma vez só vários quadros, ou frames (equivalentes aos fotogramas das películas cinematográficas). A vantagem é que, se você quiser remontar o filme, pode rapidamente pegar uma certa quantidade de frames e mudá-la de lugar, alterando a própria narrativa da história. É tão simples e divertido que até as crianças, até mesmo as crianças menos precoces, poderão fazer seus próprios filmes em casa, a partir de imagens roubadas da televisão.

Disney cibernético

Jeffrey Ventrella (sentado, de costas) está tentando descobrir um meio de escrever um texto que o seu interlocutor eletrônico entende e transforma, de imediato, numa pilha de desenhos muito bem organizados. O resultado é um desenho animado, pronto para ser exibido. Nada de fazer milhares de figurinhas na seqüência exata para simular um movimento. A partir de um único texto — como “um menino corre, tropeça e cai com a cara no chão” — o computador imagina todas as etapas necessárias para produzir a animação. Vá lá que não seja nenhum Walt Disney, mas já consegue lidar com figuras e situações simplificadas.

Os jornais sob medida

No Media Lab, os jornais eletrônicos fazem parte de um grande programa de trabalho, o Notícias do Futuro, dirigido por Walter Bender. Ele contou à SUPER que há diversos projetos experimentais em andamento. Entre eles, desde 1993, está o Fishwrap, que “circula” apenas dentro do MIT (não é possível acessá-lo de fora). Atualmente, o jornal tem 500 leitores regulares. O leitor iniciante deve fornecer ao programa que edita o jornal três informações básicas: de onde ele veio, qual é o seu contato com o MIT, e quais são os assuntos de maior interesse. As notícias vêm de agências como a Reuters ou Associated Press, do diário The Boston Globe e de outras fontes, inclusive estudantes e funcionários do MIT. Então, é só pedir. Em quinze segundos, sai um exemplar do forno. Feito sob medida para o freguês.