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Telescópios: Janelas para o céu

O primeiro telescópio foi construído no século XVII, com um pequeno tubo e duas lentes. Quatrocentos anos depois, esses instrumentos permitem ao homem viajar através da luz até os limites do Universo.

Thereza Venturoli

Dia 25 de agosto de 1609. No alto da torre da Praça de São Marcos, os senadores da República de Veneza acotovelavam-se, curiosos, em torno da última criação de um matemático de Pisa já conhecido por suas inven ções e excentricidades: um pequeno tubo com duas lentes nas extremidades. Olhando através dele, os edifícios do outro lado da praça, a mais de trinta metros, pareciam estar ao alcance das mãos. Foi assim que Galileu Galilei (1564-1642) apresentou ao mundo “a maravilha do século XVII” — o telescópio. Naquela mesma noite, Galileu descobriu que a Lua não tinha uma superfície lisa, como se pensava, mas era cheia de montanhas e crateras. Ele viu mais: “Eu observei a natureza e o material da Via Láctea. Ela não passa de um aglomerado de estrelas, agrupadas em nuvens.”

O Universo conhecido hoje já ultrapassou os limites da Via Láctea. O homem aprendeu a “enxergar” a “luz invisível”, como os raios infravermelho, gama e ultravioleta. Assim, pôde vasculhar regiões cósmicas que estão a bilhões de anos-luz. Os limites continuam se ampliando: nos próximos cinco anos, a capacidade de observação vai quase triplicar, tal é o número de instrumentos novos em construção.

Foi Galileu quem criou o primeiro telescópio, mas não foi só dele a idéia original. Em 1608, o fabricante de óculos alemão Hans Lippershey (1570-1619) trabalhava em sua oficina na Holanda quando um aprendiz mostrou ao mestre o que descobrira: olhando através de duas lentes, a torre da igreja distante parecia muito mais próxima e de cabeça para baixo. Lippershey encaixou as lentes dentro de um cilindro, mantendo a distância apropriada entre elas para corrigir a imagem. E mandou um recado ao sábio italiano sobre a invenção. Galileu aprimorou muito a engenhoca holandesa e usou-a para examinar o céu pela primeira vez. Nunca tomou a iniciativa de revelar quem era o seu “ajudante secreto”.

Os primeiros telescópios refratores (que usavam lentes para desviar e concentrar a luz) tinham um problema: os raios que passavam pela borda das lentes deformavam a imagem. Em 1668, o matemático e físico inglês Isaac Newton (1642-1727) mudou o plano de construção dos instrumentos (veja ilustração ao lado), substituindo suas lentes por espelhos, que concentram a luz sem distorcer a imagem. Nascia assim o primeiro instrumento refletor.

Para “enxergar” longe, um telescópio tem de captar muita luz — ou seja, quanto maior, melhor. A corrida em busca de luz começou ainda no século XVIII, com William Herschel. No século XIX, a vedete era o Leviatã, na Irlanda. No início deste século, com o telescópio de Monte Wilson, esses instrumentos ganharam o status de olhos voltados para o Universo.

A partir da década de 40, o tamanho perdeu terreno para as novas tecnologias eletrônicas na determinação do alcance do instrumento.Captar imagens do Universo distante é sempre um desafio, principalmente daqui da superfície do planeta. É que a atmosfera terrestre funciona como um filtro que atrapalha a passagem de parte dos raios X, gama, ultravioleta e infravermelho. Além disso, a turbulência do ar desvia a luz visível e distorce as imagens. Resumindo: vencido o desafio de captar mais luz, o problema é conseguir a maior resolução, isto é, a maior nitidez possível.

A solução foi lançar telescópios acima da atmosfera — o que só se tornou possível a partir da era espacial, na década de 60. O mais ambicioso de todos os projetos nessa área é o Telescópio Espacial Hubble.

Mas a chegada dos telescópios orbitais não tirou da jogada os instrumentos de superfície. Ao contrário: o aceleradíssimo ritmo da tecnologia eletrônica coloca os telescópios com os pés cada vez mais firmes no chão. Um equipamento dessa classe custa bem menos que os dois bilhões de dólares gastos para colocar o Hubble em órbita. Assim, no mesmo ano de lançamento do Hubble, era inaugurado, no Chile, o primeiro telescópio inteligente, o NTT.

E novas janelas para o Universo já começam a ser abertas, com complexos instrumentos. Como o VLT, com uma resolução de imagem suficiente para distinguir um objeto do tamanho de uma bola de tênis a 36 000 quilômetros de distância. O VLT terá quatro espelhos de oito metros cada um, com capacidade equivalente à de um único espelho de dezesseis metros de diâmetro — um prodígio, já que o maior espelho em uso hoje, o do Keck, tem dez metros.

Para saber mais:

O novo mundo de Galileu

(SUPER número 5, ano 3)

Por dentro dos supertelescópios

(SUPER número 6, ano 9)

Os gigantes dos séculos XIX e XX

Estes eram os mais potentes telescópios de suas épocas

O Leviatã

O maior telescópio do século XIX foi construído na Irlanda, pelo astrônomo William Parsons Rosse (1800-1867). Com um espelho de 1,80 metro de diâmetro e mais de dezesseis metros de altura, foi apelidado de Leviatã. Levou três anos para ser montado entre duas paredes de pedra, na atual cidade de Parsonstown, e entrou em operação em 1845. Apesar de desajeitado, instalado num local de condições climáticas pouco favoráveis à observação, esse instrumento revelou a estrutura em espiral de alguns objetos cósmicos que, hoje se sabe, são galáxias. O Leviatã foi desmontado em 1908.

Monte Wilson

Com um espelho de mais de 2,50 metros de diâmetro, o grande telescópio refletor Hooker foi construído pelo astrônomo americano George Hale (1868-1938) e entrou em operação em 1917, no Monte Wilson, Califórnia, Estados Unidos. Foi nesse instrumento que outro americano, Edwin Hubble (1889-1953) percebeu que as chamadas nebulosas espirais, descobertas no século XIX, eram, na verdade, outras galáxias fora da Via Láctea. O Hooker manteve a posição de maior refletor do mundo até 1948, quando o próprio Hale construiu o telescópio de Monte Palomar, com um espelho de cinco metros.