No clima da Copa: Super por apenas 5,99

Um mês com o MacBook Neo

Ele custa 40% menos do que os outros Macs – e é o primeiro desafio real em décadas à supremacia do PC. É mais barato porque usa chip de iPhone e tem apenas 8 GB de memória RAM. Isso é o suficiente? Como ele se comporta no dia a dia? Quais são as mudanças, e as surpresas, para quem vem do Windows? Veja o que descobrimos.

Por Bruno Garattoni Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 15 jun 2026, 14h00
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Quando a IBM apresentou ao mundo o Personal Computer (PC), em agosto de 1981, um ponto chamou a atenção: ao contrário das outras máquinas da empresa, desenhadas em torno de chips e tecnologias próprias, ele usava peças comuns, livremente disponíveis no mercado. A “Big Blue” fez isso para acelerar o desenvolvimento do PC, que levou apenas um ano.

Mas ela não era bobinha, e tomou uma medida para evitar que seu produto fosse clonado: o software que inicializava o PC, chamado de BIOS (basic input/output system) era exclusivo da IBM. Só que essa barreira não durou muito. Em novembro de 1982, a startup norte-americana Compaq revelou seu primeiro computador, o Portable. Ele era 100% compatível com o IBM-PC (a Compaq, num feito de engenharia que entrou para a História, conseguiu criar do zero um BIOS praticamente igual ao da IBM) e tinha a vantagem de ser transportável, embora não facilmente – parecia uma maleta, e pesava 13 kg.

Foi um sucesso. Logo outras empresas repetiram a proeza da Compaq e começaram a lançar clones cada vez mais baratos do IBM PC. Isso selou o destino da Apple. Ela, que até então liderava o mercado de computadores pessoais, foi empurrada para uma posição minoritária. É por essa sequência de fatos que, hoje, 9 em cada 10 computadores são PCs.

O MacBook Neo é o primeiro desafio real, em 40 anos, a essa supremacia – porque custa US$ 599, 40% a menos do que os outros MacBooks. Agora a Apple oferece um produto capaz de competir em preço com os notebooks Windows. O Neo teve a estreia mais bem-sucedida da história dos Macs, e vendeu tanto nos EUA que esgotou – em abril, quem comprasse um precisava aguardar um mês para recebê-lo (enquanto este texto é escrito, no final de maio, a espera é de uma a duas semanas).

No Brasil, como de hábito, a coisa é um pouco diferente. O preço oficial do MacBook Neo, no site da Apple, é R$ 7.299 (ou R$ 6.569 à vista). Ele não é barato. Mas supera com facilidade os notebooks Windows de preço equivalente – que costumam ter corpo de plástico, telas inferiores e processadores Intel ou AMD, que gastam mais energia e fazem a bateria durar bem menos [veja alguns modelos no quadro abaixo]. Já o Neo é de alumínio, tem tela de altíssima resolução e bateria que dura o dobro do tempo [mais sobre isso daqui a pouco].

E a comparação nem considera o preço de mercado do Neo, que é mais baixo. Ele já pode ser encontrado por R$ 5.800 no grande varejo brasileiro; no chamado “mercado cinza”, de importadores independentes, por até R$ 4.500. “Isso [o Neo] obviamente é um choque para toda a indústria”, disse o executivo S.Y. Hsu, co-CEO da fabricante chinesa Asus, em uma conferência com investidores. “Em todo o ecossistema PC, tem havido muitas discussões sobre como competir com esse produto.”

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Não será fácil. Com o MacBook Neo, a Apple explora dois de seus trunfos, integração e escala. Os fabricantes de PCs compram chips da Intel ou da AMD, e pagam à Microsoft para instalar o Windows em suas máquinas. Já a Apple usa CPUs e sistema operacional próprios, o que reduz os custos. E montou uma cadeia produtiva que fabrica cerca de 250 milhões de iPhones por ano – um número astronômico, que nenhuma empresa de PCs conseguiria igualar sozinha (a produção global de computadores, somando todas as marcas, é de 270 milhões por ano).

 

Infográfico detalhado do MacBook Neo desmontado, mostrando seus componentes internos como bateria, trackpad, alto-falantes, CPU e placa-mãe do iPhone 16. A ficha técnica apresenta CPU Apple A18 Pro, 8GB RAM, SSD de 256 ou 512GB, tela de 13 polegadas, peso de 1,2kg e preço. O diagrama do chip A18 Pro destaca P-Cores, E-Cores, GPU, NPU e memórias cache SLC e L2, com descrições de suas funções e especificações técnicas.
(Reprodução/Montagem sobre reprodução)

Não por acaso, o MacBook Neo usa um chip de iPhone, o A18 Pro [veja no infográfico acima]. É o mesmo processador do iPhone 16 Pro, com uma diferença interessante: no Neo, a GPU (área do chip responsável pelo processamento gráfico) tem cinco núcleos ativos, um a menos do que no iPhone. A Apple não revela o motivo disso, mas tudo indica que se trata de chips “binados” (do inglês binned, “separados”), que apresentaram defeito de fabricação em um dos núcleos da GPU.

A Apple não teria como usá-los no iPhone 16 Pro, e eles foram se acumulando nos depósitos da Taiwan Semiconductor Manufacturing Company (TSMC), que fabrica os processadores da maçã. O MacBook Neo permite aproveitar todo esse estoque de chips a um custo muito baixo.

A prática de recuperar processadores “binados”, e vendê-los com um ou mais núcleos desligados, é bem comum na indústria (Intel e Nvidia também fazem isso). E, no Neo, esse núcleo de GPU a menos não faz muita falta: a máquina tem fôlego de sobra para rodar o macOS e seus programas. Durante o mês em que o testamos, em nenhum momento ele engasgou ou ficou lento.

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E isso mesmo tendo apenas 8 gigabytes de memória RAM. Sim, chegamos ao elefante na sala: o MacBook Neo tem menos RAM do que o mínimo ideal hoje em dia, 16 GB. E ela é soldada na placa-mãe, ou seja, não permite expansão. Conforme você vai abrindo mais programas e abas do navegador, eles ocupam o espaço disponível na memória RAM.

Quando ela fica lotada, o computador começa a usar o swap file, um arquivo no SSD (solid state disk, o componente que armazena os dados do sistema) que atua como uma “memória virtual” – ela é mais lenta, mas evita que o sistema operacional tenha que ir fechando os programas. Todo PC ou Mac funciona assim, desde sempre. A diferença do Neo é que, como ele tem apenas 8 GB, recorre ao swap file com frequência.

Costumo ficar com 15 a 20 abas do navegador abertas, incluindo várias que consomem bastante memória, como Gmail, Google Workspace e WhatsApp Web, enquanto ouço música pelo Spotify, vejo algo no YouTube ou faço reuniões pelo Google Meet. Essa combinação de coisas, mais o consumo de memória do próprio sistema operacional, ocupa de 11 a 14 GB de RAM, bem mais do que o MacBook Neo tem.

Ou seja: durante o mês de teste, ele usou o swap file o tempo inteiro. Você nem percebe quando isso acontece – o macOS continua respondendo com total agilidade –, mas a questão levanta um ponto crucial. A durabilidade da máquina.

Nada é eterno, e isso também vale para os SSDs. Eles têm uma vida útil, expressa em TBW (“terabytes escritos”), a partir da qual começam a falhar, pois suas células de memória não conseguem mais reter carga elétrica. Isso pode acontecer com o MacBook Neo, já que ele fica gravando e regravando dados no swap file sem parar? Para descobrir, monitorei o uso do SSD com o software de diagnóstico DriveDx. Ele apontou que, ao longo de um mês de uso, o Neo escreveu aproximadamente 1 terabyte de dados.

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A Apple não divulga a vida útil dos SSDs presentes nos seus computadores. Mas, para componentes de 256 gigabytes, como o do Neo, ela costuma ser de 150 a 300 TBW. Isso significa que mesmo sob uso intenso, acionando constantemente o swap file, o SSD do Neo irá durar de 12 a 24 anos. E talvez até mais – em fóruns online há relatos de donos de MacBooks que escreveram mais de 800 terabytes em seus SSDs, e eles continuaram funcionando.

Em suma: ter apenas 8 GB de RAM não é um problema para o MacBook Neo. Seria melhor se fossem 16 GB, claro. Mas isso canibalizaria as vendas dos outros notebooks da Apple, e também é uma questão de custo. O mercado atravessa uma forte escassez de memória RAM: quase toda a produção global está indo para datacenters de IA, e o que sobra fica cada vez mais caro.

O fenômeno já levou a aumentos nos preços do PlayStation 5 e do Nintendo Switch 2, bem como dos PCs de diversas marcas, e a Apple não está imune – especula-se que o Neo possa subir US$ 100 até o final do ano.

Ao tirar o Neo da caixa pela primeira vez, salta aos olhos a qualidade de construção: ele é tão sólido e bem-acabado quanto os outros MacBooks. Não parece um “Mac barato”. O teclado e o trackpad são excelentes, e a tela também – tem resolução de 2.408 x 1.506 pixels, com densidade de 219 pixels por polegada (quase 50% a mais do que os laptops Windows de preço equivalente).

Mas não é grande: tem 13 polegadas. Dá para usar numa boa o navegador, editores de textos e planilhas. Mas, em alguns momentos, falta espaço (eu, por exemplo, às vezes preciso abrir dois textos ao mesmo tempo na tela).

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Mudar do PC para o Mac, mesmo se você nunca usou um, é bem tranquilo. Até os principais atalhos de teclado são iguais (com a diferença de que, em vez da tecla Control, você aperta Command). Só não perca tempo tentando usar o “assistente de migração”, um software que a Apple oferece para Windows. Mesmo insistindo bastante, ele não funcionou – aparentemente porque o Windows 11 impedia a execução do Bonjour, um protocolo de rede da Apple. Fiz a migração manualmente, transferindo meus arquivos e logando nas minhas contas. Beleza.

Nos testes, a bateria do Neo sempre durou o mesmo tempo: de 10 a 11 horas. É uma marca excelente (o dobro dos laptops Windows que competem com ele), mas não alcança a autonomia extrema dos MacBooks Air e Pro, que chegam a 16 ou 17 horas. É que, no Neo, a Apple usou uma bateria menor, com capacidade de 36,5 watts-hora (os outros MacBooks, dependendo do tamanho, têm de 53 a 66 Wh). Ao contrário do que se diz por aí, usar o navegador Safari em vez do Chrome não fez muita diferença; os dois gastam a mesma energia.

O que dá diferença é trocar o carregador USB-C que vem com o Neo, que tem apenas 20 W de potência e demora quatro horas para encher a bateria. Você pode usar um mais potente. Conectada a um carregador de 40 W, a máquina carregou em metade do tempo (esse é o limite; se você pluga um carregador acima de 40 W, o Neo simplesmente ignora a energia adicional).

Tabela comparativa de cinco notebooks rivais do MacBook Neo: Lenovo Yoga Slim 7i Gen 9, Dell 14, Samsung Galaxy Book4, Acer Aspire 16 e Vaio FE16, com informações de modelo, preço, hardware, peso, prós e contras.
(Divulgação/Montagem sobre reprodução)

Isoladamente, o Neo se comporta de modo impecável. Mas, ao conectá-lo a outros dispositivos, tive algumas surpresas. A primeira: com ele plugado a um monitor Full HD (1080p), a imagem ficou ruim, com as letras meio borradas. É que o macOS é otimizado para resoluções mais altas e não roda bem em monitores 1080p. Existe um app, o BetterDisplay, que atenua mas não resolve o problema. A única solução é trocar o monitor por um 4K.

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No mercado brasileiro, uma boa opção é o LG Ultrafine 27US500-W, com tecnologia IPS (in-plane switching, que proporciona bom ângulo de visão) e preço em torno de R$ 1.300. Fora ele você só encontra modelos genéricos, de marcas desconhecidas, ou opções muito mais caras.

Quando está conectado a um monitor externo, o Neo oferece dois modos de vídeo: o “nativo” (em que tudo fica muito pequeno, com ícones e texto quase ilegíveis) e o HiDPI, que tem o problema oposto: os elementos da interface ficam grandes demais.

Consegui resolver entrando em “Acessibilidade”, nas configurações do sistema, e reduzindo um pouco o tamanho do texto e dos ícones. Também diminuí o zoom do Google Chrome para 80%. Ficou bom, embora não impecável: alguns elementos da interface continuaram um pouco maiores do que seria normal. No Windows, nada disso acontece – o sistema reconhece e ajusta tudo sozinho com perfeição.

O Neo também tretou com a minha webcam, uma Logitech C920. Ela é compatível com macOS – e, com o Neo conectado a um monitor 1080p, funcionou perfeitamente. Já com a tela 4K, não: a imagem da webcam ficava toda picotada, e às vezes o macOS travava.

É que o sinal de vídeo 4K já ocupa, sozinho, a maior parte da largura de banda disponível nas portas USB do Neo (que é de 10 Gbps, muito aquém dos 40 Gbps dos MacBooks Air e Pro). Sobra pouca banda para os demais periféricos, como webcam e SSDs externos. Contornei a questão usando a webcam do próprio Neo, que é boa.

Quanto ao teclado, sem problemas. Eu já usava um Logitech MX Keys Mini, que tem as teclas específicas do macOS (Option, Command e Function). Ele é caro, R$ 700, mas há uma opção mais barata – o Logitech K380, que você encontra por R$ 200. Um ponto que não consegui resolver: o macOS lê meu SSD externo, mas não escreve nele.

É que esse dispositivo, que uso com o Windows, está formatado no padrão NTFS, da Microsoft. A saída seria comprar o Paragon NTFS, um software de R$ 180, ou então transferir todos os arquivos para outro lugar e aí formatar o SSD (no padrão exFAT, que PC e Mac aceitam). Acabei deixando pra lá, mesmo porque copiar os dados levaria um tempão (já que, com o Neo conectado ao monitor 4K, sua interface USB fica congestionada e lenta).

Em suma: o Neo é ótimo, mas não é perfeito. Se você vai usar o laptop conectado a monitor, SSD e periféricos externos, talvez seja melhor optar por um MacBook Air ou Pro. Isso também vale para tarefas pesadas, como edição de vídeo, que não são a praia do Neo. Fora isso, ele é uma boa, sim – e parece ter força para, junto com os Googlebooks [leia abaixo], finalmente desafiar o reinado do Windows.

***

Notebook azul-marinho com teclado e tela parcialmente abertos, exibindo um touchpad com reflexos coloridos e botões de função na lateral esquerda do teclado, sobre fundo preto.
(Divulgação/Reprodução)

Os Googlebooks
Eles serão produzidos por várias empresas, e vão levar o Android para os PCs.

O Android domina os smartphones – e, agora, vai migrar para os computadores. Eles se chamarão Googlebooks, serão produzidos por marcas como Acer, Asus, Dell, HP e Lenovo e chegarão ao mercado dos EUA nos próximos meses. Terão várias versões, com processadores Intel, Qualcomm ou Mediatek (tanto da arquitetura x86 quanto da ARM).

E virão com uma nova versão do Android, adaptada para funcionar melhor com teclado e mouse. Essa versão, cujo nome provisório é Aluminum OS, trará uma interface parecida à do macOS, com um “dock” reunindo atalhos para os principais aplicativos na parte de baixo da tela.

Também terá recursos de IA: se você balançar o cursor do mouse, imediatamente aparecerá o Gemini, do Google, se propondo a fazer coisas úteis de acordo com o que estiver na tela. Se você estiver lendo um email no qual um colega de trabalho pede para marcar uma reunião, por exemplo, o Gemini se oferecerá para fazer isso – e agendar a conversa na data e no horário citados na mensagem.

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