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Um vírus artificial

Cientistas poderiam hoje criar em laboratório supervírus que colocariam em risco grande parte da população mundial. Correção: eles já fizeram isso

Por 8 mar 2013, 22h00 | Atualizado em 31 out 2016, 18h33
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Salvador Nogueira

As bombas atômicas são terrivelmente perigosas, mas pelo menos têm uma virtude – são de fabricação tão complexa que somente governos, investindo grandes somas de dinheiro e empregando muitos cientistas, podem produzi-las. Infelizmente, o século 21 nos trouxe tecnologias ainda mais assustadoras porque podem ser desenvolvidas num fundo de quintal. Estamos falando do avanço da engenharia genética e de seu potencial uso para fins malignos.

Claro, ninguém discute a maravilha que é sequenciar o genoma humano e decifrar seus mais íntimos segredos. Muitas doenças poderão ser curadas ou evitadas graças a esse conhecimento. Agora, quando você decifra o genoma de supervírus letais, a brincadeira pode ficar perigosa.

Para demonstrar o tamanho do perigo, um grupo de pesquisadores da Universidade de Nova York fez o seguinte experimento: “baixaram” de uma base de dados de acesso livre o genoma completo do vírus da pólio e então, usando somente insumos que eles podiam comprar facilmente no mercado (como bases nitrogenadas usadas na composição do DNA, vendidas para uso em pesquisa), decidiram reconstruí-lo. Deu certo.

“Nosso trabalho serve como prova do que pode ser feito”, afirma Jeronimo Cello, um dos autores do estudo americano.

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Ou seja, um aspirante a Osama bin Laden com um modesto laboratório pode construir um vírus perigoso como o da pólio. Com isso, até mesmo doenças que já foram debeladas pela humanidade, como a varíola, poderiam retornar da extinção. E o pior: podem voltar ainda mais agressivas.

Foi o que fizeram com a gripe dois grupos de pesquisadores, na Holanda e nos Estados Unidos, de forma independente, no fim do ano passado. Eles partiram do vírus H5N1, causador da famosa gripe aviária. Na natureza, esse patógeno já é mortal, mas não se espalha com muita facilidade, de forma que os poucos casos em humanos ocorrem somente com aqueles que têm contato muito próximo e frequente com as aves.

Contudo, induzindo mutações em laboratório, os cientistas conseguiram produzir uma versão do H5N1 que se espalharia com a mesma eficiência da gripe convencional – que infecta 700 milhões de pessoas no mundo por ano. Imagine o estrago que o danado poderia causar, se saísse do laboratório.

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Note que esse tipo de pesquisa, por mais benéfico que possa ser (os cientistas queriam desenvolvê-la para já preparar uma vacina eficaz antes que o supervírus surgisse naturalmente), atinge um nível de risco que talvez seja inaceitável. E não é preciso nem um terrorista para o negócio sair do controle, nesse caso. Apenas um protocolo de segurança falho poderia levar o patógeno a escapar do laboratório e provocar uma tragédia mundial sem precedentes.

O tema é tão polêmico que o governo americano pediu que o estudo não fosse publicado e a pesquisa fosse descontinuada por 60 dias. O prazo expirou e os cientistas voltaram ao trabalho. E seguimos sob risco de uma catástrofe, acidental ou intencional, de proporções apocalípticas. Não é à toa que muitos futurólogos, como o astrônomo britânico Martin Rees, estimam que o risco de uma ameaça séria à humanidade causada pelas novas tecnologias ao longo do século 21 é da ordem de 50%. Faça suas apostas.

Segura essa! – A vida criada em laboratório

Em 2010, uma equipe liderada por Craig Venter, um dos impulsionadores da decifração do genoma humano, anunciou a criação da primeira forma de vida sintética. Eles produziram o DNA em laboratório e inseriram numa célula “vazia”. O experimento funcionou, dando a esperança de que a ciência possa criar organismos úteis ao homem no futuro.

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