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A cor do perigo e da paixão

A cor do perigo e da paixão

Nem é preciso perguntar. Qual é a cor da sedução e do charme, mas também do alerta e da violência? Até as plantas e os animais adivinham a resposta.
Vermelho, dizem eles. Na linguagem química, as tintas rubras estão entre as mais raras – só perdem para o azul, de tão difícil de encontrar. Por serem extraordinárias, chamam bastante a atenção e se tornam um meio de falar com o mundo à volta. Veja nas fotos do francês Jean Pierre Saunier o que a natureza tem a dizer.

 

Com a abelha, tudo azul

A linguagem das cores vale principalmente para as aves, que estão entre os animais de melhor visão. Elas enxergam muito bem o vermelho, assim como as borboletas, mais sortudas do que a maioria dos insetos. Estes, geralmente, vêem o mundo em preto, branco e tons de cinza. Outra exceção a essa regra são os himenópteros, entre os quais se encontram as abelhas, as vespas e as formigas. Esses bichos captam tons do laranja ao ultravioleta (invisível ao olho do homem). Apesar disso, os himenópteros são cegos ao vermelho: no espectro das cores, o vermelho vem logo depois do laranja, o limite das vespas e seus parentes. Dizem os zoólogos que, para esses insetos, o centro da visão é o azul. Por que, então, as abelhas gostam tanto de certas flores rubras? A resposta, de acordo com pesquisas recentes, é que essas flores contêm muita etamina, substância que reflete bem o ultravioleta. Portanto, o que eles enxergam de fato é a etamina da flor vermelha, que lhes parece azul.

 

Fascínio invisível

Sem enxergar o vermelho, as abelhas ficam completamente fascinadas pelas flores desse tom. Coincidência? Não. Elas captam a luminescência das etaminas substâncias comuns nas flores dessa cor. A cruz negra no centro da papoula, na foto abaixo, por exemplo, também reflete bastante o ultravioleta e o reflexo serve como marcação nas pétalas, para o pouso do inseto.

 

Sinal de virilidade

Os pigmentos responsáveis pela coloração da pluma das araras se chama lipocroma. Ele só é produzido em abundância pelo organismo dos machos. Talvez pela escassez dessa substância, as fêmeas das araras como nas outras espécies de aves são mais discretas. Faz sentido. Elas escolhem os seus parceiros. Eles é que devem chamar a atenção. No caso das araras, quanto mais forte é a cor, mais sucesso o macho faz com o sexo oposto.

 

 

Colorido para blefar

O primeiro a desconfiar que as cores carregavam mensagens foi o entomologista inglês Hemy Walter Bates (1825-1892), estudioso das borboletas da Amazônia. Ele notou que os filhotes dos pássaros logo aprendiam a não caçar borboletas do gênero Heliconius, que continham substâncias tóxicas em seu corpo. Em seguida, Bates descobriu que o colorido de outras borboletas, perfeitamente comestíveis, imitava as faixas vermelhas da Heliconius. E, na dúvida, os passarinhos também evitavam esses insetos. Aparentemente, porque, vendo as faixas, eles preferiam não’ correr o risco de uma refeição venenosa.

Esse tipo de blefe é comum na natureza. Vermelho no corpo pode ser interpretado como ameaça – embora a ameaça nem sempre seja verdadeira. A tonalidade tem ainda outro importante significado: para certas espécies, ela é irresistivelmente sedutora. A atração provocada pela cor é benéfica, às vezes. Serve para aproximar a fêmea de um macho avermelhado, ou vice-versa. Mas também pode ser a isca de uma armadilha, quando quem se pinta assim tem más intenções.

 

Aparência venenosa
Os músculos para esmagar as presas são o ponto forte da cobra americana Lampropeltis (abaixo).
Ela, por sua vez, intimida os seus próprios predadores: mesmo sem ter veneno, a Lampropeltis é confundida com a venenosíssima cobra coral (ao lado). É só olhar para saber por quê.

A estampa das costas dos percevejos Pyrrhocoris apterus, do Peru, lembra máscaras de religiões primitivas, que costumam assustar os observadores. E os percevejos assustam mesmo. Sob esse desenho, eles têm poros para soltar secreções ma/cheirosas. E/as tiram o apetite dos pássaros, que vão procurar insetos de outras cores para fazer as suas refeições

 


Atraída para a morte

A pele translúcida do cogumelo amanita, muito comum na Europa, esconde a muscarina, substância que matará a mosca da espécie Luci/ia caesar. Ela é intoxicada assim que sua tromba rompe a pele do vegetal, o que, para sorte dela, nem sempre acontece. Saboroso, o amanita faz mal a humanos desprevenidos.

 

Uma visão quase rara

O homem é o campeão das cores: ele enxerga 250 tons puros e mais de 1 700 misturas. Quase todos os outros mamíferos nem percebem os tons avermelhados. Aliás, os touros poderiam passar reto por tudo aquilo que é vermelho – o que os irrita é o movimento da capa dos toureiros que, segundo a sua visão, é cinza.

Do mesmo modo, os anfíbios não conseguem distinguir os tons rubros. Mas eles são a prova de que, para os animais, muitas vezes, mais importante do que enxergar os outros é ser enxergado por eles. Explica-se: sapos e rãs são mestres em usar o vermelho, que eles não vêem, como estratégia de defesa, para espantar os predadores ou para atrair as presas.
Na evolução das espécies, as plantas aprenderam a abusar do vermelho. Os frutos que não se abrem sozinhos para derramar as sementes no chão, freqüentemente são dessa cor, que parece ter o dom de abrir o apetite dos pássaros. Estes, ao comerem a polpa, deixam as sementes cair na terra. O que seria dessas plantas, se não fosse o vermelho?

 


Os tons da camuflagem

Acima, um casal de Mantella aurantiaca,espécie conhecida na Ásia como rã dourada. Ela não mede mais do que 2 centímetros e, na realidade, só a pele do macho tem reflexos dourados. A Mantella vive em galhos. Quando resolve comer, estão se aproveita do seu tamanho e da sua cor, para ficar camuflada sobre as flores, à espera de um belo inseto.