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Crocodilo-do-Nilo: Nascido para matar

Ser rústico não é um problema para o crocodilo:atacando qualquer criatura - inclusive homens -,ele sobrevive há 200 milhões de anos

Por Da Redação Atualizado em 31 out 2016, 18h36 - Publicado em 31 mar 2005, 22h00

Stefan Gan

Nas águas barrentas do Rio Mara, no Quênia, os crocodilos se preparam para o maior banquete anual. Eles aguardam pacientemente a chegada de milhões de gnus – antílope africano com cabeça e chifre semelhantes aos do búfalo –, que migram todos os anos em busca de pastagens verdes no país. Num turbilhão apressado, os gnus se espremem em uma massa compacta e entram na água. É quase um ato suicida. Em questão de segundos, o crocodilo-do-nilo abocanha uma das pernas de um dos antílopes. Os dois animais travam uma verdadeira batalha, mas, exausto, o gnu se rende.

O crocodilo é um dos predadores mais perfeitos que já passaram pela Terra. Prova disso é que ele existe há mais de 200 milhões de anos – foi contemporâneo do dinossauro, seu parente direto, que acabou extinto 65 milhões de anos atrás. A longevidade do crocodilo se deve, em grande parte, às suas habilidades predatórias. Mas suas virtudes anatômicas e biológicas também permitiram que esses répteis gigantes sobrevivessem e evoluíssem de tal forma que é possível contar nos dedos seus verdadeiros inimigos naturais – nos dedos de uma mão apenas.

O robusto crocodilo-do-nilo (a segunda maior e mais forte das 23 espécies do réptil – a primeira é o crocodilo-marinho) reina soberano nas águas de todo o continente africano. Medindo até 6,2 metros e pesando quase 1 tonelada, ele não escolhe suas presas: ataca qualquer corpo que se mova à sua frente. Tomando seu banho de sol na ribeira, ou navegando pelo Nilo ou outros cursos d’água, ele está sempre atento e disposto a fazer novas vítimas. Mesmo que elas sejam humanas.

O crocodilo-do-nilo é, de longe, a espécie que mais mata homens no mundo. Para as diversas populações africanas que habitam as áreas próximas do Rio Nilo e nele lavam suas roupas, tomam banho ou mesmo brincam em suas águas, a presença dos crocodilos é fatal. O número de pessoas mortas pode ultrapassar o de uma centena todos os anos.

Mas o cardápio do réptil é muito mais amplo. Ao lado do crocodilo-marinho (a maior espécie), ele é o único capaz de caçar grandes mamíferos. Antílopes, zebras e javalis não têm chances contra o rei do Nilo. Até mesmo leões, hipopótamos e girafas podem tornar-se presas fáceis quando invadem seu território. A facilidade na hora de abocanhar suas vítimas é o resultado de 66 dentes afiados e uma força descomunal dos músculos da mandíbula, com potência que chega a até 2 toneladas por centímetro quadrado.

Hábil caçador, o crocodilo sabe muito bem como montar uma cilada. Submerso com apenas seus olhos, ouvidos e focinho fora d’água, é silencioso e paciente. Ele pode ficar mais de uma hora debaixo d’água esperando sua caça. E isso só é possível graças a duas importantes características: um baixo metabolismo e um coração adaptado. “Como é um animal de sangue frio, o crocodilo tem um metabolismo lento. Ele usa o oxigênio em menor quantidade e consegue ‘segurar’ a respiração por muito mais tempo. Além disso, seu coração adaptado tem um vaso sanguíneo que permite que o sangue seja parcialmente desviado dos pulmões enquanto ele está submerso, uma válvula que ajuda nesse mesmo processo, e, finalmente, outros tecidos moles que desviam o fluxo do sangue”, afirma Mason Meers, professor de biologia e anatomia evolutiva da Universidade de Tampa, na Flórida, Estados Unidos.

Mas os artifícios de caça do crocodilo não param por aí. Seus ouvidos são interligados e ele consegue manter o equilíbrio quando desliza submerso pelo Nilo – ao contrário de nós, que podemos ficar zonzos quando estamos boiando. Isso quer dizer que ele permanece camuflado como um tronco de madeira e faz manobras debaixo d’água tão suaves que é praticamente impossível percebê-lo. Uma vez perto de sua presa, seu bote é rápido – em menos de uma fração de segundo, o crocodilo tem sua caça na boca. Astuto, sabe que se sua presa for maior e mais pesada que ele, o mais prudente a fazer é trazê-la para água e afogá-la. Se não, ele a desmembra imediatamente em terra firme, segurando-a pela mandíbula e a girando rapidamente na superfície da água, até que ela se despedace.

Com o banquete à mesa, o crocodilo divide sua iguaria com outros animais da mesma espécie: o sistema hierárquico entre eles é bem definido e, se o caçador for menor, ele terá que esperar outros companheiros maiores se juntarem para comer. Mas o crocodilo só é sociável no momento da partilha. Ele raramente caça em bando: prefere sair sozinho, mesmo correndo o risco de encontrar outro indivíduo maior e mais forte – que certamente irá atacá-lo se estiver com fome. Sim, há canibalismo entre eles, principalmente quando um réptil grande e faminto se depara com um menos corpulento.

Uma questão polêmica, que ainda intriga os pesquisadores, é sobre uma velha lenda que dá conta que o crocodilo se alimenta apenas uma vez por ano. Embora não seja totalmente verdadeira, ela também não é completamente falsa. “Essa história não é uma verdade absoluta. O que acontece é que ele pode ficar um ano sem se alimentar, sem problema. Mas o que se observou é que com isso o crocodilo emagrece demais e torna-se presa fácil para outros crocodilos”, afirma Adam Britton, pesquisador sênior da Wildlife Management International, instituto de pesquisa sobre crocodilos da Austrália.

Muita gente acredita que, por causa de seu aspecto monstruoso, ele come apenas presas grandes – outro mito. “Uma presa grande pode sustentar um crocodilo por meses, mas a maioria deles, principalmente os maiores, se alimenta de presas pequenas freqüentemente, já que a maior parte de sua dieta é constituída por peixes, aves, serpentes e o que puder ser encontrado no Nilo”, diz Adam.

O que se sabe de verdade é que o crocodilo tem um estômago de pedra. Literalmente. Apesar de seus fortes músculos da mandíbula, o réptil não mastiga – por isso, tem ou que desmembrar sua presa e separá-la em partes (como faz com girafas, zebras e hipopótamos) ou engolir ela inteira, caso de filhotes de antílope. Seja como for, sua refeição inclui ossos, chifres e o que mais vier com a caça. Para digerir todo esse cardápio, no estômago do crocodilo existem pequenas pedras para ajudar na trituração dos pedaços mais duros.

Os instintos predatórios do crocodilo caminham lado a lado com seus instintos de preservação da espécie. Basta observar o zelo materno que uma mamãe crocodilo tem com seu ninho e, mais tarde, com seus filhotes – dedicação rara entre os répteis, que geralmente abandonam seus ovos logo após colocá-los. A fêmea crocodilo sabe como ninguém manter suas crias fora de perigo e é extremamente cuidadosa. Pouco antes dos pequenos répteis nascerem, emitem sons como forma de pedir ajuda. A mãe crocodilo auxilia os filhotes a sair dos ovos quebrando-os com sua boca e depois os leva para a água. O cuidado com suas crias vai além: a proteção pode se prolongar até os 3 anos de idade.

Outra característica preservativa do crocodilo é sua noção de perigo e cooperação. Por meio de um avançado sistema de comunicação, ele consegue intimidar animais como elefantes, hipopótamos e até leões com vibrações subsônicas. O mesmo sistema é usado para a comunicação entre eles. “Grandes animais podem ser ouvidos a longas distâncias. O interessante sobre esses sons é que nós, humanos, não somos capazes de ouvir, já que são subsônicos, ou mais conhecidos como ‘infra-som’. Eles, no entanto, se comunicam através desse sistema, que permite, entre outras coisas, que possam debandar das áreas de grande periculosidade”, afirma Meers.

Outro importante fator de preservação do crocodilo está em seu sangue. Apesar de lutarem muito entre si – e acabarem com grandes feridas –, os animais quase nunca desenvolvem infecções. As pesquisas levam a crer que existe um antibiótico natural no sangue do réptil que mata bactérias e outros microrganismos. “Estudos indicam que é por causa de uma substância presente no sangue. Mas ninguém demonstrou exatamente a origem dessas propriedades”, diz o pesquisador Pablo Siroski, do projeto Yacaré, que estuda crocodilianos na Argentina. Está aí um dos grandes mistérios do animal que segue à risca a teoria de seleção natural de Darwin: apenas os mais fortes sobrevivem.

Derrotando exércitos

Um dos maiores ataques de crocodilos-do-nilo ao homem ocorreu nos tempos de Alexandre, o Grande. Perdiccas, um dos generais de Alexandre, almejando o poder, resolveu invadir as terras de seu inimigo Ptolomeu e tomar Tebas, no Egito, em 321 a.C. Sabendo de suas intenções, Ptolomeu protegeu a região e obrigou o rival a mudar a rota para o delta do Nilo, na época infestada de crocodilos. À medida que cavalos e homens eram atacados pelos répteis, os soldados sobreviventes perceberam a fria na qual tinham entrado. Depois de mais de mil terem sido devorados, as tropas, desesperadas, deram meia-volta. Indignado com a “covardia”, Perdiccas ordenou que eles voltassem ao rio e cumprissem sua missão. Os soldados, porém, preferiram enfrentar Perdiccas: fizeram um motim e acabaram, mais tarde, assassinando o general.

Fatos selvagens

Nome vulgar

Crocodilo-do-nilo

Nome científico

Crocodylus niloticus

Dimensões

6,2 metros, do focinho à cauda

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Peso

Até 900 kg

Principais armas

A mandíbula, que pode dar uma mordida de mais de 1 tonelada

Comportamento social

Sociável, vive em grandes grupos. Mas existe canibalismo na espécie

Ataques a humanos

Não há estatísticas oficiais, mas supõe-se que centenas de ataques ocorram anualmente

Quanto come

Em cativeiro, até 65 kg de carne por semana (no inverno, não comem)

Expectativa de vida

45 anos em hábitat natural e 80 em cativeiro

Dieta

Antílopes, zebras, javalis e até leões e girafas

Principais inimigos

Os hipopótamos são os únicos animais que apresentam algum perigo

Se você encontrar um

Se você navegar em um rio cheio deles, não aproxime os braços da superfície. Em terra são lentos, mas bons saltadores. Mantenha uma distância segura

Para saber mais

Na livraria

Snap! A Book About Alligators and Crocodiles – Melvin Berger e Gilda Berger, Scholastic, EUA 2002

Alligators & Crocodiles – John L. Behler e Deborah A. Behler, Voyageur Press, EUA, 1998

Na internet

http://www.flmnh.ufl.edu/natsci/herpetology/crocs.htm – Site de uma organização que estuda os crocodilianos

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