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E se todos fossem ao mesmo cinema ao mesmo tempo?

Análise da lei da regularidade estatística, segundo a qual o comportamento de um número suficientemente grande de pessoas segue sempre modelos estáveis.

Por Da Redação Atualizado em 31 out 2016, 18h48 - Publicado em 30 jun 1990, 22h00

Luiz Barco

Trata-se de uma lei singular – não existe de fato, não foi publicada no Diário Oficial nem nos compêndios escolares. Mas, quando seus mandamentos não são observados, os homens e as sociedades por eles formadas se desequilibram e, não raro, lançam mão de soluções bizarras para recompor seu equilíbrio. E a lei da regularidade estatística, segundo a qual o comportamento de um número suficientemente grande de pessoas segue sempre modelos estáveis. Isto é, pode-se prever com razoável grau de acerto, com base em experiências passadas, as atividades humanas em grande escala. Essa lei tem servido no planejamento urbano, na Medicina preventiva, na otimização de recursos e na melhoria da qualidade de vida em geral. Infelizmente, também tem ajudado os que promovem as guerras e as injustiças. Quando os homens não se comportam como rebanhos ou como as moléculas de um gás, a ordem social parece ameaçada de ruptura.

Captando essa tendência, o escritor americano Robert Coates escreveu um conto denominado A lei, ambientado na Nova York de 1940. Resolvemos adaptá-la livremente para a São Paulo de 1990. Algo não ia bem naquele início de noite. Entre as 19 e 21 horas, a cidade conheceu um monumental congestionamento de trânsito em plena Avenida Paulista. Não era véspera de feriado, não havia nenhuma passeata nem decisão de campeonato. Era como se todos os veículos da cidade tivessem se dirigido para lá sem nenhuma justificativa aparente.

Tão extraordinário incidente mereceu a primeira página de todos os jornais na manhã seguinte. Então ficamos sabendo que ocorreram fatos semelhantes por toda a cidade. Um exibidor relatou surpreso que, de repente, foi como se todos os paulistanos tivessem resolvido assistir ao filme num mesmo cinema e numa mesma sessão. Nas lanchonetes, dias sem movimento se alternavam com outros infernais, quando uma agigantada freguesia exigia o mesmo prato. E por aí afora. Até que, num final de semana prolongado, apenas três automóveis desceram a Serra do Mar em direção às praias. Toda a população foi então tomada de grande incerteza. A situação tornou-se tão grave que o Congresso Nacional foi chamado a intervir.

A comissão designada para investigar os acontecimentos concluiu pela não existência de planos sinistros. Os transtornos tinham sido provocados pela conduta fortuita das pessoas. De qualquer forma, era preciso encontrar uma solução. Não se podia processar uma sociedade inteira até porque, descobriu-se com assombro, a tal lei das regularidades estatísticas não havia sido formalmente discutida no Congresso. Um ilustre senador apresentou emenda constitucional para obrigar os cidadãos a se comportarem segundo os padrões esperados.

Logo os burocratas criaram mecanismos para assegurar o cumprimento da emenda. Pessoas cujos nomes come çavam pelas letras F, T, U e W, por exemplo, só podiam ir ao teatro às terças-feiras, ao futebol às quintas e ao supermercado das 10 às 15 horas de sábado. Muito cedo, a lei mostrou seus inconvenientes. Teve efeito desequilibrador nas funções sociais e imediatamente foi ampliada por uma emenda que permitia aos jovens irem com as namoradas a qualquer ato social, fosse qual fosse a primeira letra dos seus nomes.

Embora a lei emendada tivesse pouca utilidade, ainda assim produziu efeitos indesejáveis, pois induziu a volta à regularidade de forma mecânica. Resta perguntar se a quebra de uma regularidade é razão suficientemente forte para que governantes, ainda que legitimados, decidam unilateralmente quais tendências devem prevalecer e que mecanismos devem ser usados para alcançá-las. O conto original é uma metáfora sobre os riscos de legislar sobre o comportamento social. Em geral, a uma pirotécnica euforia se segue uma enxurrada de efeitos colaterais danosos e a sociedade é colocada numa encruzilhada: ou faz tantos remendos para sanar as injustiças, o que acaba desfigurando a legislação, ou esta é mantida a qualquer preço e eterniza as injustiças que quis combater.

Luiz Barco é professor da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo

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