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Medusa: Gelatina com veneno

Por baixo dos magníficos véus coloridos, as medusas escondem 700 milhões de anos de história e milhares de arpões venenosos. Com eles matam mais gente que os tubarões.

Thereza Venturoli

Elas não têm cérebro, coração, nem pulmões ou ossos. Parecem mais um punhado de gelatina, com longos cordões pendurados. Mas as medusas devem ser as campeãs de adaptação e resistência. Povoam os mares com o mesmo formato e metabolismo de seus ancestrais, surgidos no período Cambriano, há cerca de 700 milhões de anos.

Naquela época remota, apareciam por aqui os primeiros animais multicelulares. “As medusas surgiram justamente no início da era de especialização, quando as células começaram a dividir seus papéis”, explica a bióloga marinha Érika Schlenz, professora da Universidade de São Paulo (USP). “Algumas células voltaram-se à digestão, outras, à reprodução ou à locomoção, organizando-se em órgãos e sistemas determinados”.

O principal segredo do recorde de sobrevivência das medusas está ao longo de seus tentáculos: eles contêm minúsculos arpões carregados de veneno. A mesma artilharia pesada usada para caçar pequenos peixes e plânctons serve de defesa contra seus raros predadores: alguns peixes, baleias, caranguejos e tartarugas marinhas. Estas são imunes às ferroadas mortais devido à queratina — a proteína que forma a carapaça desses animais e protege também sua boca e esôfago.

Algumas espécies mais evoluídas matam mais gente que os tubarões, que fazem cerca de cinco mortes por ano, no mundo todo. Parece pouco, mas comparando o aspecto ameaçador do famoso “assassino dos mares” com as aparentemente inofensivas medusas, o dado é de assustar.

A mesma simplicidade que intriga nas medusas faz delas um interessante e útil objeto de estudo para a ciência: por causa da pequena variedade de células, são cobaias ideais para se analisar o comportamento dos organismos em condições extraordinárias. Foi assim que 2 500 medusas acabaram se transformando em astronautas, em 1991.

Acomodadas em tanques com água marinha, elas deram um passeio de nove dias em órbita da Terra, a bordo do ônibus espacial americano Columbia. Os biólogos e médicos acreditam que, estudando os efeitos da falta de gravidade sobre os processos de reprodução, locomoção e desenvolvimento desses animais, estarão dando um grande passo na descoberta de respostas para questões fundamentais referentes à adaptação do homem à vida no espaço.

Em terra, especialistas em farmacologia marinha pesquisam as substâncias produzidas por essas criaturas. “Alguns tipos, por exemplo, liberam uma fotoproteína que, quando entra em contato com o cálcio, as deixa luminosas”, conta José Carlos Freitas, biólogo marinho da USP. “Essa substância, chamada equorina, já é usada em pesquisas biomédicas, para se detectar o papel do cálcio em alguns processos fisiológicos, como a contração muscular.”

Alheias aos interesses da pesquisa científica e livres das paredes dos tanques, na liberdade do mar, as medusas levam uma vida bem mais pacata. Essas verdadeiras bolhas d’água (95% de seu organismo é composto por nada além de água salgada) limitam-se a boiar ao sabor das correntes frias, à espera de um bom petisco que caia ao alcance de seus longos braços.

Com seu apetite, são capazes de engolir enormes quantidades de água e alimento. E, mesmo quando não agüentam mais comer, continuam matando, o que tem um efeito devastador sobre a vida marinha. Uma Aurélia, por exemplo, o tipo mais comum de medusa, medindo apenas 25 centímetros de diâmetro, pode abater até dez filhotes de salmão por hora.

Água-má, chora-vinagre, cansação ou mãe-d’água — as medusas são conhecidas no mundo inteiro, com os mais diversos apelidos. Os biólogos já catalogaram cerca de 9 000 espécies, desde as mais simples, chamadas hidromedusas, até as cifomedusas, bem maiores e um pouco mais complexas. O tamanho pode variar de alguns centímetros a mais de 2 metros de diâmetro, com tentáculos de até 30 metros de comprimento.

Como tudo nelas, o sistema neurológico é surpreendentemente simples mas eficaz. Uma rede de neurônios cobre a camada externa do corpo gelatinoso. Apesar de não possuir órgãos, algumas cifomedusas, mais evoluídas, têm células que percebem a luz e um primitivo sistema de equilíbrio, que as mantêm na posição correta, quando levadas pelas correntes.

Para se locomover, as medusas contam com um anel de poderosos músculos, na borda do sino, ou seja, do corpo. A cada vez que esses músculos se contraem, expulsam a água do interior do sino, numa propulsão “a jato”. Com os músculos relaxados, o sino se abre novamente, dando estabilidade. Mas nem sempre elas têm força para lutar contra as correntes. Nesse caso, podem chegar às centenas ou aos milhares em qualquer praia.

O maior trabalho que uma medusa tem na vida é nascer. Os óvulos liberados pela fêmea são fertilizados pelo macho, no mar. Em algumas espécies, a mãe retém o embrião, como se estivesse grávida, até que o ovo se transforme em larva. A partir daí, a sobrevivência do filhote fica por sua própria conta.

Comem de tudo, têm raríssimos inimigos e gastam pouquíssima energia para se reproduzir — as medusas têm tudo a favor para uma longa vida. É justamente por estar perfeitamente adaptadas a seu meio ambiente, que elas não precisaram evoluir quase nada ao longo de quase um milhão de anos — e provavelmente não vão mudar, nos próximos milênios.

Para saber mais:

Maternidade no mar

(SUPER número 6, ano 4)

Os primeiros pescadores

(SUPER número 3, ano 6)