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Produção de vacinas com fermentadores: Máquina de criar bactéria

Fermentadores modernos tornam a produção de vacinas pelo Instituto Butantan, em São Paulo, tão boa como as melhores do mundo.

Por Da Redação - Atualizado em 31 out 2016, 18h51 - Publicado em 31 mar 1994, 22h00

Flávio Dieguez

Um funcionário sai pela porta do prédio empurrando um carrinho com cinco grandes recipientes de vidro. Afunilados, terminando num tubo com o diâmetro de uma xícara, mas de base circular, como uma panela, contêm um líquido de cor indefinida, alaranjada. Uma mistura bem balanceada de sais minerais, vitaminas, proteínas e glicose, o líquido seria um alimento rico em qualquer mesa. Mas no Instituto Butantan tem uma finalidade inimaginável: engordar agentes do mal convertidos ao serviço da Medicina. São perigosas bactérias, causadoras de doenças como difteria ou tétano, entre outras, cuja tarefa é produzir vacinas em larga escala.

Tratar bem tais seres é importante porque a matéria-prima das vacinas, muitas vezes, são substâncias excretadas por eles. Algumas delas são altamente letais. Uma ínfima quantidade mataria centenas ou milhares de pessoas, conta o biólogo Fernando Fratelli — que trabalha bem próximo de um microscópico vilão: o bacilo Clostridium tetani, do tétano, excreta uma toxina que é o segundo veneno mais potente conhecido (o primeiro é a toxina botulínica, produzida pela bactéria do botulismo). Mas Fratelli não corre risco ao circular pela unidade de vacina antitetânica do Butantan. Os funcionários estão bem vacinados, e o Instituto é hoje um modelo internacional no campo da produção de vacinas. Com segurança e qualidade impecáveis, o trabalho é tão bem feito que em curto prazo o Brasil talvez se torne exportador de vacina para países industrializados. A marca mais visível dessa eficiência são os fermentadores, máquinas metálicas, cercadas de canos e válvulas, cuja função é confinar bilhões de micróbios. Um sofisticado curral de microorganismos, pode-se dizer, pois custam quase meio milhão de dólares cada, e são controlados por computador.

Por exemplo, se algo muda a acidez no tanque repleto de nutrientes, sensores automaticamente sinalizam ao computador, que aciona bombas para introduzir hidróxido de sódio ou ácido clorídrico, que elevam ou abaixam o pH, que mede a acidez. O nível deve ser o ideal para a máxima produtividade dos microorganismos, cada um com suas exigências específicas. Outro fator decisivo, controlado automaticamente, é a temperatura. Hoje, o Butantan produz quatro vacinas principais.

Para tétano, difteria, coqueluche ou pertússis e tuberculose a quantidade de doses gira em torno de 25 milhões ao ano, cada uma. Mas também se fazem vacinas contra raiva, cólera e gripe. A cólera é causada por bactéria, mas gripe e raiva devem-se à ação de vírus, que não vivem isolados. Precisam abrigar-se nas células de outro ser — como nas do cérebro de camundongos, no caso da raiva. Já não se trata apenas de criar o vírus, mas também os camundongos, o que complica bastante a fabricação, ensina o veterinário e imunologista Rosalvo Guidolin.

Com larga e histórica experiência na produção de vacina, Guidolin foi um reforço providencial para a atual equipe do Butantan. Aposentado, aceitou o convite do ex-diretor Willy Beçak, nos anos 80, por amor ao trabalho. E ele parece muito satisfeito com a decisão, dado o entusiasmo com que conta um projeto de aprimoramento relativo à raiva. A idéia é aprender a difícil tecnologia de cultivar células isoladas de animais em fermentadores — e dentro delas os vírus.

Isso agilizaria muito o processo, pois já não seria preciso criar os camundongos, infectá-los com virus, esperar que estes proliferem e depois extraí-los das células (com o necessário sacrifício dos animais). Projetos assim são essenciais numa moderna fábrica de vacina porque asseguram constante aperfeiçoamento, tanto quanto a compra de máquinas avançadas. Garantir a realização de pesquisas é papel da biomédica Sally Muller Affonso Prado, que dirige a seção de vacinas anaeróbicas, onde se cultivam bactérias que não sobrevivem em presença de oxigênio (caso do Clostridium).

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Sally explica que não basta criar os microorganismos: após cinco dias de cultivo, é preciso colher as toxinas. Ou seja, separá-las das bactérias, já velhas e inúteis, e de outros resíduos que se acumulam no fermentador. Isto se faz por meio de finíssimos e sofisticados filtros. O sistema pode ser melhorado. Inicialmente, os filtros retinham as bactérias e deixavam passar as toxinas — da mesma maneira como os coadores retêm o pó e deixam passar o café. Agora, usa-se um método dinâmico, em que o caldo grosso do fermentador corre sobre o filtro, mas não para atravessá-lo: é como se o caldo corresse num cano cujas paredes fossem o filtro.

Assim, bactérias e detritos passam direto, mas as toxinas “vazam” para fora. Então, para que se transformem em vacina, basta inativá-las por meio do calor e de uma reação com formaldeído. Nesse estado, deixam de ser letais, mas não perdem a capacidade de alertar o organismo em que são introduzidas, acionando defesas imunológicas contra a doença. Há possibilidade de se conseguir dobrar o volume de vacinas contra a raiva, ampliando a capacidade do Butantan, inclusive com vistas à exportação. Desde já, afirma o diretor do Instituto, Isaias Raw, esse horizonte está à vista. “A prioridade é o mercado nacional. Teremos, então, competência para fornecer a outros países.”

Para saber mais:

Oswaldo Cruz: tudo pela saúde

(SUPER número 11, ano 2)

Pasteur: ciência nas ruas (SUPER número 6, ano 3)

Vacinas do futuro

(SUPER número 2, ano 9)

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