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Pterossauros: Quando os répteis voavam

Conheça os répteis alados que dominavam os céus há 145 milhões de anos.

Flávio Dieguez

Há 145 milhões de anos, o céu foi tomado por pterossauros, os répteis alados. Eles se multiplicaram em novas espécies. Foi uma explosão demográfica nos ares. Agora, depois dos dinossauros, os pterossauros se tornaram o tema preferido dos paleontólogos.

Visto do solo, era uma simples mancha, difícil de encontrar entre as nuvens do céu. Apesar disso, de uma ponta a outra das asas abertas, o tupuxuara media cerca de 6 metros — duas vezes mais que o condor dos Andes, uma das maiores aves vivas. E não era uma ave. Era um réptil voador — um dos muitos e muitos répteis extravagantes que tomaram conta do céu, no passado. Por isso, receberam o nome de pterossauros, palavra que quer dizer “réptil de asas”.

Quando o tupuxuara ensaiou seus primeiros vôos, há 110 milhões de anos, os pterossauros já eram velhos habitantes da Terra. Haviam aparecido cerca de 150 milhões de anos antes. Por um longo tempo, porém, eram poucos e primitivos demais. Até que veio uma verdadeira revolução: há 145 milhões de anos o número de espécies se multiplicou enormemente e as novas versões de pterossauros inundaram o planeta.

Alguns eram pequenos como pombas. Outros, imensos. Maiores até que o tupuxuara. Os ossos deste último estão causando sensação porque foram achados na Chapada do Araripe. E essa região, situada na fronteira entre o Ceará e Pernambuco, é uma mina de pterossauros petrificados. Ela está sendo explorada não só pela quantidade, como pela qualidade dos fósseis.

Mas a grande estrela do show, no final das contas, é mesmo a revolução dos pterossauros. Sua espetacular explosão demográfica.

Os pterossauros aparecem no cinema e nas histórias em quadrinhos quase como uma fraude. Não são inteiramente falsos, mas sempre se apresentam à platéia como algum tipo de ave. E isso é algo que os pterossauros, répteis voadores, nunca foram. Quando as primeiras aves pisaram na Terra, ainda incapazes de voar, os pterossauros já estavam no mundo, milhões de anos antes. E já eram mestres acabados das manobras aéreas.

Por ironia, as mais avançadas pesquisas começam a confirmar as fantasias da arte. Na sua divertida ignorância, os cineastas e desenhistas acabaram acertando nas aparências. Se, na essência, os pterossauros nada tiveram a ver com as aves, e isso é certo, podem ter sido muito parecidos com elas no modo de viver. E ocuparam os mesmos nichos ecológicos que elas iriam conquistar, mais tarde.

Pode ter havido um pterossauro-tucano, por exemplo. É o que mostra uma reportagem recente da revista americana Discover. Nela se diz que o tapejara, descoberto no Brasil, tinha um bico comprido e liso, sem dentes, não muito diferente do bico dos tucanos. E como eles vivia em matas fechadas e se alimentava de frutas. Outra espécie descrita na Discover, à maneira dos patos vasculhava a lama dos charcos.

Uma espécie, conhecida pelo nome de pterodaustro, pode ter sido o flamingo de sua época. Tinha centenas de pequenos dentes que devem ter sido usados como uma rede, para filtrar insetos e algas. O flamingo é assim: tem no bico um serrilhado que serve para separar o almoço da água.

São especulações. E difíceis de comprovar, por enquanto. Mas elas estão se tornando cada vez mais plausíveis. É possível, até, que nos próximos anos se resolva uma questão-chave na história desses répteis: a maneira de voar.

Até aqui, prevaleceu a hipótese de que os répteis voadores não teriam plena destreza no ar. De acordo com essa hipótese, a culpa seria das asas, que não passariam de uma peça de couro. Apenas uma extensão da pele do corpo, esticada pelos braços. Por isso, não seriam muito flexíveis.

Bem diferente é a asa das aves: construída com várias fileiras de penas, é maleável. Uma parte da asa pode mover-se em relação às outras. Conseqüentemente, as aves executam movimentos mais precisos.

Mas a hipótese que fez dos pterossauros voadores de segunda categoria vem sendo desmentida pelas novas pesquisas. De acordo com elas, as asas dos répteis não eram tão grosseiras como se pensa, porque, sob a pele, escondiam notáveis fibras de colágeno. “Cordões” de proteína. Macios, mas firmes. Quase como hastes dentro das asas. Em outras palavras, as fibras teriam um papel equivalente ao das penas, isto é, serviam para dar uma estrutura maleável às asas e também maior flexibilidade ao vôo.

Muitas asas fossilizadas de pterossauro têm marcas que podem ter sido deixadas pelos cordões de colágeno. Num fóssil encontrado há pouco tempo na Alemanha, daria até para ver a ponta de algumas fibras. Pelo menos é esse o diagnóstico do zoólogo Jeremy Rayner, da Universidade de Bristol, na Inglaterra. Especialista em aerodinâmica dos animais, Rayner aposta na habilidade de vôo dos pterossauros. E diz que, se eles não foram tão capazes quanto as aves, chegaram perto. Com maestria.

Em ciência, uma coisa puxa outra. Novos achados quase sempre sugerem novas idéias, ou levantam a bola de possibilidades até então duvidosas. Com os pterossauros foi assim: saber que eles voavam bem fortaleceu a hipótese de que teriam hábitos parecidos com os das aves.

Não é difícil entender por quê. Veja-se a suposição de que alguns pterossauros viveram à moda dos tucanos, comendo frutas em florestas densas. Fica mais fácil aceitar essa idéia sabendo que os répteis podiam manobrar com precisão em espaços estreitos. Entre galhos, cipós e folhas das matas.

Mas nada ilustra melhor esse raciocínio do que o caso do quetzalcoatlus, o maior pterossauro que se conhece. Apesar de ser muito leve, pesando menos de 50 quilos, ele media 13 metros de uma ponta a outra das asas abertas. Ou seja, tinha a envergadura de um caça da Primeira Guerra Mundial, dimensão jamais alcançada por qualquer ave do passado ou do presente. Basta ver que o albatroz, recordista mundial da atualidade, tem apenas 4 metros de envergadura.

Até recentemente, aceitava-se sem contestação a idéia de que o quetzalcoatlus reinava supremo a mais de 1 quilômetro de altura. As imensas asas quase imóveis, apenas oscilando para tatear as correntes de ar e não perder sustentação. E, lá de cima, poderia descer para capturar pterossauros menores.

Essa análise continua prevale-cendo. Mas ela está sendo contestada por dois bons motivos. Primeiro, porque ninguém viu os restos das asas de um quetzalcoatlus. Ele é conhecido apenas pelos avantajados ossos do ombro — e daí se inferiu o tamanho das asas. O problema é que nem sempre ombros poderosos têm de estar ligados a asas pequenas.

As garças, por exemplo, não têm asas muito amplas, em comparação com seu corpo. E tudo bem, porque boa parte do tempo ficam de pé, paradas ou perambulando nas águas rasas dos pântanos e lagoas à caça de peixes. Não procuram comida voando acima das nuvens — onde a maior envergadura das asas é crucial para planar.

Resumo: os paleontólogos podem muito bem ter errado de nicho ecológico quando viram o quetzalcoatlus no topo do céu. É possível que ele exibisse asas modestas e fosse um pescador de águas rasas. Um gigantesco pterossauro-garça.

E a segunda razão para pensar assim foram justamente as novas noções sobre o aparelho voador dos pterossauros. Mais precisamente, a desconfiança de que tinham asas estreitas, como as das aves. E não asas largas, estendidas dos braços até as pernas, como é o caso dos morcegos.

Se fosse assim, seria difícil exibir a elegância das garças: o couro das asas travaria o passo do quetzalcoatlus, que não poderia andar atrás dos peixes. Hoje, há quem acredite que suas asas não fossem presas às pernas. É isso que torna plausível imaginar um novo nicho ecológico para o portentoso réptil.

O primeiro palpite de um cien-tista sobre os pterossauros foi um chute que passou muito longe da meta. Em 1784, diante do primeiro fóssil encontrado, o zoólogo italiano Cosimo Collini ima-ginou estar vendo os restos de um mamífero marinho.

Duas décadas mais tarde, no início do século XIX, ele foi corrigido pelo anatomista francês Georges Cuvier. Nem mamífero, nem marinho, disse Cuvier. Aquele fóssil pertencera a um parente distante das tartarugas e dos crocodilos. Dito de outro modo, era um réptil. E um réptil voador. Algo que nunca mais se veria nos céus do planeta.

Os pterossauros foram os primeiros animais, além dos insetos, a ocupar esse vasto nicho ecológico que é a atmosfera. Ainda hoje se sabe pouco sobre o ancestral que deu origem a eles. A melhor suposição é que devia lembrar um dinossauro. E por isso também se deduz que andava sobre duas patas, como os dinossauros. Não quer dizer que esteja excluída a alternativa quadrúpede — apesar da estranha figura que ela sugere.

De uma maneira ou de outra, por volta de 225 milhões de anos atrás, os pterossauros voavam de verdade. Não davam saltos prolongados. Nem planavam por curtas distâncias, como fazem certos esquilos atualmente. Voavam para valer, estabilizando as manobras no ar com ajuda de uma cauda tão longa quanto sólida.

Mas eram bem pequenos. Nenhum deles superava uma gaivota, um pato ou uma galinha em tamanho. E eram muito raros. Durante um tempo enorme, não passaram de mar-ginais na corrente criativa da evolução. O primeiro avanço desse grupelho de répteis esquecidos pela natureza aconteceu há 180 milhões de anos. Espécies novas amplia-ram a coleção dos pterossauros.

Em comparação com seus antecessores, os novatos tinham cabeças maiores. Haviam perdido os dentes, em parte ou por completo. E seus bicos eram parecidos com bicos mesmo, em vez de bocas modificadas. Mais importante que tudo: tinham reduzido a cauda em troca de um cérebro maior. Caudas curtas não servem para estabilizar o vôo, raciocinam os paleontólogos. Portanto, os novos pterossauros deviam compensar a perda com um controle mais ágil das asas — com ajuda de um cérebro maior.

Olhando para o passado, têm-se a impressão de que essas primeiras mudanças foram um sinal. Anunciavam a formidável proliferação de pterossauros ocorrida há 150 milhões de anos. E são os fósseis desse período — desenterrados em número crescente, a partir da década de 70 — que animam os paleontólogos. Eles dizem que as novas informações disponíveis vão preencher as muitas lacunas ainda existentes na história dos répteis voadores. E assim talvez seja possível reconstruir com mais precisão o estranho mundo que habitaram.

Para saber mais:

A charada dos dinossauros (SUPER número 3, ano 1)

A nova face dos dinossauros (SUPER número 7, ano 7)

No tempo das aves do terror (SUPER número 6, ano 8)