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Risco de extinção: Pobre tubarão

O governo americano promete executar um plano para salvar da extinção um animal estigmatizado como o terror dos mares. Pescado em massa por causa da carne e das barbatanas, ele seria melhor caracterizado pela expressão…pobre tubarão.

Marcelo Affini

Consagrados pelo cinema como moderno símbolo do terror, na figura de animais ferocíssimos, quase imbatíveis, os tubarões vivem uma realidade completamente diferente, como provam as estatísticas. Elas mostram que, quando muito, cinco a dez pessoas morrem nos dentes dos tubarões, todo ano. Não é pouco, e o risco desse acidente não deve ser desprezado. O problema é que, no mesmo período, e apenas nas costas dos Estados Unidos, chegam a morrer quase 500 000 tubarões, geralmente para abastecer os açougues de carne e barbatanas — muito apreciadas na forma de sopa. Como resultado, a partir deste ano o retrato hollywoodiano desses peixes começa a se desvanecer.

Pelo menos é o que promete o Departamento Nacional de Pesca, nos Estados Unidos. Em janeiro, com um atraso de dois anos, seus técnicos apresentaram um plano destinado a proteger inúmeras espécies contra um possível risco de extinção. Os números são certamente alarmantes. Em 1989, 488000 tubarões foram mortos nas costas americanas. Numa balança, eles pesariam perto de 7 milhões de quilos. É verdade que em 1991 aquela cifra havia caído para 370000, mas o problema não é a quantidade absoluta: ela deve ser comparada com o número de peixes que nascem. O resultado, de acordo com inúmeros especialistas, é que o número de mortes supera o de nascimentos. Isso pode agradar a um grande número de pessoas que nunca vão deixar de ver nos tubarões meros comedores de gente.

Mas é certamente absurdo ignorar que esses animais existem há pelo menos 320 milhões de anos. E que desde então eles ascenderam ao posto de maiores predadores dos mares — fato de suma importância para todo o ecossistema marinho. Perto disso, o apego circunstancial por barbatanas e carne certamente se torna uma necessidade menor. Basta ver o que aconteceu há alguns anos na Tasmânia, ilha australiana localizada na porção sul da Oceania, onde a pesca passou dos limites. Seguiu-se um desastre econômico em cascata. Primeiro, porque a ausência dos tubarões fez com que um dos seus alimentos preferidos, os polvos, se reproduzissem de maneira explosiva. Em seguida, a colossal população de polvos devorou praticamente todas as lagostas da região, levando a indústria pesqueira local a amargar o prejuízo.

Também não se deve desprezar o manancial de informações científicas que se espera extrair dos tubarões — um nome genérico que engloba mais de 350 espécies diferentes. O menor de todos é o tubarão-pigmeu, com pouco mais de 10 centímetros de comprimento, e o maior, o tubarão-baleia, que chega a medir 15 metros. Este último, apesar do tamanho, é inofensivo: vive do plâncton que absorve junto com a água através das brânquias (orifícios laterais de respiração). De maneira geral, o cardápio dos tubarões compõe-se de outros peixes que, em muitos casos, são tubarões menores. Conforme a espécie, a dieta pode variar um pouco. O maior predador da categoria, o grande tubarão-branco, de 12 metros, tem uma dieta de focas, polvos, tartarugas-do-mar e peixes de porte. Os lentos tubarões da Groenlândia, embora com apenas 6 metros, têm as baleias entre seus pratos preferidos (e também renas que cruzam braços de mar). Há tubarões que gostam de moluscos dotados de conchas e por isso têm uma dentição especial para esmagar a parte dura desses acepipes. Não se deve pensar que sejam primitivos comilões. As modernas famílias de tubarões expandiram-se no Cretáceo, a partir de peixes mais antigos. E desde então poucas modificações alteraram a extraordinária máquina biológica que é seu corpo. Ele fascina pesquisadores como o biólogo Timothy C. Tricas, do Instituto Tecnológico da Flórida, nos Estados Unidos. Entrevistado pelo jornal New York Tirmes, Tricas declarou que os tubarões têm os sentidos mais avançados entre todos os vertebrados.

Além de ouvir sons longínquos, eles são capazes de sentir o cheiro de uma pequena gota de extrato de peixe jogada numa área de até 2000 metros quadrados ao redor. Os olhos distinguem cores e proporcionam uma visão sete vezes mais poderosa que a humana. Uma membrana localizada atrás da retina funciona como uma espécie de espelho que reflete as imagens e amplia a capacidade visual. Além disso, os tubarões têm algo como um sexto sentido e percebem qualquer objeto se movendo ao seu redor. Isso é possível graças a minúsculas células incrustadas na pele em volta das mandíbulas. Como se fossem eletro receptores, essas células ajudam os animais a localizar até um peixe enterrado na areia. Elas captam os batimentos cardíacos do peixe escondido. Elas também detectam a aproximação de objetos metálicos e orientam os tubarões durante os movimentos de migração. Todas as informações necessárias à captura das presas ou à fuga são enviadas ao cérebro, comparável em tamanho e funções ao dos mais avançados mamíferos. Capaz de guardar informações por mais de um ano, a memória é outro tema estudado pelos cientistas. Enfim, não é à toa que o tubarão obtém sucesso em mais de 70% dos ataques que realiza.

Entre todas as pesquisas desenvolvidas pelos americanos as mais benéficas talvez sejam aquelas efetuadas no Laboratório de Partículas Marinhas, em Sarasota, na Flórida. Aí, o bioquímico Carl Luer descobriu maravilhado que os tubarões se mostram imunes a diversos tipos de infecções e doenças, como, por exemplo, o câncer. Mesmo submetidos a perigosos cancerígenos misturados por oito anos aos alimentos, os peixes não desenvolveram nenhum tipo de tumor. Se a ciência descobrir como esses organismos conseguem resistir a agressões dessa natureza, estará aberto o caminho para incontáveis benefícios à Medicina.

“Estamos examinando as diferenças e semelhanças entre as células dos tubarões e as humanas, para localizar as responsáveis por essa imunidade”, diz o entusiasmado pesquisador. Num outro estudo, realizado na Universidade de Miami, Samuel Gruber injetou doses cavalares — no sentido literal da palavra — do vibrião do cólera em alguns tubarões-amarelos. Suficientes para matar dez cavalos, os vibriões foram rapidamente eliminados de seus corpos, numa perfeita demonstração de força do seu sistema imunológico. Tudo isso, é claro, depende da sobrevivência dos animais: mas preservar suas populações não é tarefa fácil.

Os mais perseguidos são os tubarões-brancos, especialmente porque as barbatanas têm grande procura no Oriente. Com preço de até 200 dólares o quilo, elas não servem apenas para fazer sopa: também são utilizadas pela indústria de computadores, fibras óticas, adubos e cola. A carne do tubarão, comercializada com o nome cação, está nos cardápios do mundo inteiro. No Brasil, o consumo não é menor que em outros lugares. Mas causou emoção no último mês de dezembro a captura de uma fêmea de tubarão-branco, prenhe, com mais de 7 metros e 2,5 toneladas, em Cananéia, litoral sul paulista. O peixe seria embalsamado e colocado em exposição na cidade. Não custa lembrar que proteger o tubarão — e qualquer outro animal — não significa relaxar o cuidado contra riscos. É mais fácil ser morto por um raio do que por um tubarão dizem os especialistas. Mesmo assim, a ameaça existe, e se conhecem as circunstâncias em que ela é maior ou menor. Os mais temidos são o tubarão branco, o tigre, o azul e o martelo. Espécies menores também são perigosas. As estocadas são mais comuns nos trópicos, nos meses quentes e em praias muito cheias. Ruídos objetos brilhantes e esguichos na água estimulam ou provocam os animais, que se aproveitam de canais profundos recifes ou bancos de areia junto à praia. Mas grande parte dos ataques ocorre em água rasa, com menos de 1 metro de profundidade. Há poucas vítimas feridas: até 70% das investidas tornam-se letais devido a hemorragias e choques traumáticos. Parece ironia proteger um matador tão eficiente. Mas afinal, este é mais um motivo para que os tubarões sejam estudados: conhecendo-os bem, será mais fácil evitar encontros desagradáveis.

Para saber mais:

A vida sob pressão

(SUPER número 1, ano 6)