O lado bom do Dia da Marmota
Com as companhias certas, viver em loop não é tão ruim assim.
No filme Feitiço do Tempo (1993), Bill Murray interpreta Phil Connors, um repórter que, a contragosto, vai cobrir o festival do Dia da Marmota numa cidadezinha dos EUA.
Phil fica preso por lá após uma nevasca e entra em um loop temporal – passa a reviver o mesmo dia, todos os dias. É um filme que te faz rir e pensar sobre o sentido da vida. Genial.
Todo jornalista tem o seu Dia da Marmota particular. A cada ano, quem cobre saúde precisa falar da vacina da gripe; os de finanças, sobre como preencher a declaração do IR. Aqui na Super, todo mundo está destinado a escrever sobre descobertas em Pompeia, espécies batizadas com nomes de famosos e o melhor horário para ver um eclipse.
É difícil encontrar um tema sobre o qual já não tenhamos escrito. Fuçando uma edição de 1994, a repórter Bela Lobato encontrou uma menção a terras raras, mais de 30 anos antes de o assunto esquentar. Naquela edição, havia ainda textos sobre dinossauros brasileiros, o Australopithecus e o futuro da aviação – pautas que poderiam muito bem ocupar as páginas de hoje.
Revisitar temas faz parte do jornalismo. E da ciência também. Não existem, afinal, verdades absolutas, apenas explicações satisfatórias que perduram enquanto outra melhor não surge. Essa é a beleza da coisa.
A última vez que a Super fez uma matéria de capa sobre as (várias) abordagens da psicoterapia foi em 2008. Quase 20 anos. Desde então, o Brasil se tornou o país com o maior número de ansiosos do mundo, além de atingir a segunda maior prevalência de depressão nas Américas, atrás apenas dos EUA. Não houve dúvidas sobre a necessidade de retomar esse assunto, à luz de novas pesquisas.
A reportagem ficou a cargo da editora Maria Clara Rossini, que honrou um dos mantras da revista: “Pensar o que ninguém pensou sobre algo que todos veem”. Milhões de brasileiros fazem ou já fizeram terapia, mas talvez somente uma pequena parcela saiba a fundo sobre a miríade de abordagens existentes, ou dos trunfos (e limitações) dos estudos clínicos da área.
Achar um psicólogo com o qual você se identifique pode ser um processo lento, e manter as sessões pode representar uma fatia considerável do orçamento. A matéria da Maria Clara, amparada por muita pesquisa e entrevistas (e pelo ótimo trabalho da designer Caroline Aranha), pode te ajudar a navegar por essas águas.
Trabalho há mais de sete anos com a Maria Clara. Toda semana, gravamos vídeos, debatemos sobre reportagens e contamos as mesmas histórias e piadas no almoço. Apesar da repetição, não deixo de me divertir e de aprender coisas novas com ela – e com todo o resto da equipe. Um Dia da Marmota que saiu (muito) melhor que a encomenda.
Rafael Battaglia Popp
editor-chefe
rafael.popp@abril.com.br







