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O que acontece quando as crianças desaprendem a sentir tédio

O jovem que cria brincadeiras com o que tem à mão aprende que pode ser autor, e não apenas consumidor, das próprias experiências.

Por Daniela Pannuti* 29 Maio 2026, 16h01
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Existe uma cena que tem se repetido em restaurantes, salas de espera, carros, elevadores e até em pequenos intervalos: uma criança demonstra o menor sinal de tédio e imediatamente alguém entrega uma tela.

O desconforto dura poucos segundos. Um vídeo começa. Depois outro. E outro. O silêncio desaparece antes mesmo de existir. Talvez essa seja uma das transformações mais profundas da infância contemporânea: a inexistência de espaços de vazio.

Segundo pesquisa realizada pela Universidade da California, nos EUA, há uma queda no  desempenho cognitivo entre crianças de 9 a 11 anos que usam intensamente as redes sociais, sobretudo em testes relacionados à leitura, ao vocabulário e à memória.

Hoje, jovens crescem em um ambiente em que quase não encontram pausas. Há sempre algum estímulo disponível: vídeos curtos, notificações, jogos, músicas, mensagens e conteúdos personalizados por algoritmos programados para prender a atenção. Nunca foi tão fácil evitar o tédio. E nunca precisamos tanto dele quanto nos dias atuais.

É que o tédio, ao contrário do que costumamos pensar, não é um obstáculo no desenvolvimento infantil. Ele é parte importante dele.

Como diminuir o seu tempo de tela

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É no tédio que jovens começam a inventar brincadeiras, criar narrativas, observar o ambiente, experimentar possibilidades e até aprender a lidar consigo mesmos. Quando toda experiência já chega pronta, a criança participa menos do processo criativo. O tédio interrompe esse fluxo de respostas imediatas e convida a produzir algo a partir do que existe ao seu redor.

É nesse intervalo que a criatividade cotidiana aparece: um graveto deixa de ser apenas um graveto e vira lápis, espada, varinha, microfone, mapa do tesouro. Um papel deixa de ser papel e vira barco, avião, máscara ou carta secreta. O objeto permanece o mesmo; o que muda é a capacidade imaginativa de atribuir novos sentidos ao mundo.

Há também uma importante dimensão emocional. O tédio apresenta uma leve sensação de desconforto: “não sei o que fazer agora”. Aprender a atravessar esse estado sem receber imediatamente uma solução externa ajuda a desenvolver tolerância à frustração. A criança descobre que nem todo vazio precisa ser preenchido por alguém e que a espera, a falta e a demora podem ser suportadas.

Lidar com isso faz parte do aprendizado. Nem toda brincadeira funciona, nem toda ideia dá certo, nem toda vontade é atendida no momento em que surge. Quando o jovem encontra caminhos próprios diante dessas pequenas limitações, exercita recursos internos: persistência, flexibilidade, curiosidade e capacidade de criar alternativas.

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Existe uma diferença importante entre entretenimento e experiência criativa. O entretenimento oferece respostas prontas. A criatividade exige elaboração. Adolescentes assistindo a vídeos infinitos podem até parecer estimulados o tempo todo, mas isso não significa, necessariamente, que estejam criando, imaginando ou refletindo. Pelo contrário, esse consumo passivo de estímulos rápidos contribui para um foco atencional cada vez mais curto.

Aprender a se distrair pela via da inventividade é uma competência discreta, mas uma das mais importantes da infância. Não se trata apenas de “ocupar o tempo”, mas de desenvolver a capacidade de transformar a realidade com imaginação. A criança que cria brincadeiras com o que tem à mão aprende algo que ultrapassa a brincadeira: que pode ser autora, e não apenas consumidora, das próprias experiências.

E não se trata de demonizar a tecnologia. As redes sociais e os ambientes digitais também podem ser espaços potentes de aprendizagem, comunicação e criação. O problema está menos na existência das telas e mais na ausência de pausas entre elas.

A pesquisa “Panorama da Primeira Infância: O que o Brasil sabe, vive e pensa sobre os primeiros seis anos de vida”, realizada pela Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal em parceria com o Datafolha em 2025, mostrou que 78% das crianças de 0 a 3 anos estão expostas diariamente às telas. Entre as de 4 a 6 anos, o número chega a 94%. O cenário contraria as recomendações da Sociedade Brasileira de Pediatria, que orienta evitar telas nessa faixa etária e limitar o uso conforme a idade.

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Uma das consequências mais silenciosas dessa hiperestimulação é a perda da capacidade de construir pensamento próprio. Na infância, isso é ainda mais evidente. Precisamos de momentos não planejados para explorar interesses espontâneos, testar hipóteses sobre o mundo e descobrir quem são sem um roteiro constante conduzindo cada experiência. Mas existe uma pressão crescente para ocupar absolutamente todos os espaços do tempo. Quando não são as telas, são agendas lotadas, atividades organizadas ou a ideia de que toda experiência precisa ser “produtiva”.

Precisamos lembrar que o desenvolvimento humano não acontece apenas em ambientes de alta performance. Ele também acontece no ócio, na contemplação, na conversa sem objetivo específico e até no aparente “não fazer nada”.

Muitas vezes, o impulso dos adultos é interromper imediatamente qualquer sinal de tédio. Mas talvez isso não seja um problema a ser eliminado, e sim um espaço necessário para que algo novo aconteça.

Em um mundo que disputa atenção o tempo inteiro, o verdadeiro risco não é deixar a criança render-se ao tédio — mas nunca mais experimentá-lo.

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*Daniela Pannuti é diretora do Ensino Fundamental I da Avenues São Paulo e doutora em Psicologia Escolar e do Desenvolvimento Humano pela USP.

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