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Black das Blacks: Super com preço absurdo

Caetano Galindo quer te guiar pela origem do português e das palavras

Veja o que o autor tem a dizer (e a criticar) sobre a norma culta da língua portuguesa e as fake news etimológicas que resistem no imaginário popular.

Por Eduardo Lima
24 nov 2025, 16h01

A palavra “lâmina” vem do latim lamina. Nada de mais, certo? Em algumas outras línguas derivadas do latim, a expressão percorreu caminhos mais tortuosos: no francês, depois de séculos de mudança, ela virou lame. No diminutivo, lamelle. Numa alteração vulgar, lamette.

A palavra continuou mudando com o uso oral, apropriando-se do artigo “la” e trocando algumas consoantes de lugar até virar, depois de mais algumas modificações vocálicas, omelette, um ovo tão achatado que até parece uma… “laminazinha”. Voilà: milênios de transformação linguística no seu prato de café da manhã.

Essa é uma das várias aventuras etimológicas que Caetano Galindo compartilha com bom humor e didatismo no livro Na ponta da língua, lançado em 2025 pela Companhia das Letras e escrito para pleitear o cargo de professor titular na Universidade Federal do Paraná (UFPR).

Mas não se acanhe: o livro está muito distante de um trabalho acadêmico convencional. A ideia do escritor, tradutor, linguista e dramaturgo é, em vez de só contar algumas anedotas sobre a origem das palavras que usamos no cotidiano, ensinar técnicas básicas para que o leitor possa enxergar os séculos de história por trás dos termos que se encontram num dicionário de português.

Trata-se de “ver a realidade em hipertexto”, como Galindo explicou à Super durante a Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) de 2025. “Não sei se tem importância, mas tem fascínio, e isso é um valor por si só.”

“Encontrar a etimologia de uma palavra não quer dizer encontrar a verdade por trás dela”, diz Galindo. O que vale, ele defende, é o jogo jogado agora – o significado atual da palavra. Os sentidos estão sempre sendo renegociados. Apesar disso, conhecer a história continua um exercício fascinante.

Já é o segundo livro de divulgação científica de Galindo, que lançou, pela mesma editora, o sucesso improvável Latim em pó (2022) – que está na 8ª reimpressão. Nele, o linguista traça o trajeto de formação do português, do latim ao galego à nossa versão brasileira, com influência de diversas línguas indígenas e africanas.

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“Quase tudo no Latim em pó é saber consolidado na área nos últimos 30, 40 anos. É uma versão mais sedutora, que cabe no bolso, do conhecimento científico. Se tem três ideias minhas, é muito.”

Ele pode não ser o dono das ideias, mas seu jeito de contar a história deu certo. O sucesso era nítido na Flip. Lá, as pessoas o paravam para dizer como gostaram de sua fala em uma ou outra mesa. Quando participou da programação principal do evento, ao lado do humorista português Ricardo Araújo Pereira, o auditório e a praça onde a conversa era transmitida gratuitamente estavam lotados.

Galindo, 52, é professor há 28 anos, e se empolga com a língua e com a possibilidade de transmitir sua empolgação para os outros. Ele faz isso em seu próprio idioleto, uma língua de um homem só: o curitibano mistura referências literárias e musicais com piadas e escrita apaixonada. É raro encontrar a expressão “empolgante pacas” num livro sobre a formação do português, como acontece em Latim em pó, mesmo que o que esteja na página seja, realmente, empolgante pacas.

É difícil não se contagiar com o seu entusiasmo. Mas, antes de animar o público geral revelando o que quer e o que pode o português, Galindo passou bons anos de sua carreira pública longe da linguística histórica. 

Ele leciona a disciplina na UFPR desde que passou no concurso aos 24 anos, quando dedicava seu tempo a estudar romeno e tentar entender a mais diferentona das línguas derivadas do latim. Em vez de fazer o doutorado que planejava sobre a língua do Drácula, Galindo fez um em tradução. Não era a primeira vez que ele mudava de rumo acadêmico: o linguista começou como violonista clássico, mas precisou abandonar o conservatório depois de uma lesão na mão.

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Sua ideia para estudar tradução foi uma nova versão em português de Ulysses, a obra-prima cheia de neologismos do modernista irlandês James Joyce. Antes de Galindo, a única pessoa que completou o desafio de verter o livro do inglês para o português foi Antônio Houaiss, o filólogo que criou o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa.

Seguir o criador de um dos dicionários mais importantes da língua na tradução de um livro considerado intraduzível era uma tarefa ambiciosa, e Galindo começou a chamar a atenção de algumas editoras brasileiras. Assim, ele começou a atuar como tradutor a partir de 2003, e sua versão de Ulysses foi publicada pela Companhia das Letras em 2012.

“O meu Ulysses tem vários easter eggs: citaçãozinha de um verso brasileiro ali, uma frase do Machado [de Assis] ali, uns curitibanismos escondidos aqui e acolá.” O livro autoriza esse tipo de “gracinha”, segundo Galindo: tudo bem não entender e procurar uma palavra no dicionário. “Se o original é assim, por que a tradução não deve ser? O Ulysses é um livro muito mais quinta série do que as pessoas acham.”

Foi por causa do trabalho de tradução que Galindo recebeu um convite do diretor de teatro Felipe Hirsch para participar da peça Língua Brasileira, com músicas de Tom Zé. Por esse caminho improvável, Galindo se viu trabalhando com linguística histórica fora dos muros da universidade pela primeira vez. Latim em pó, fruto da disciplina que ele ministra todo semestre na UFPR, só foi publicado por causa da peça.

É um caminho incomum para um acadêmico, que voltou ao seu tema de pesquisa inicial depois de anos na literatura e no teatro. Mas Galindo não é só acadêmico. Quando questionado sobre o que faz da vida, ele responde que maneja a língua portuguesa. “Gosto muito dela, de mexer nas dobrinhas e nos recônditos, desde que eu me conheço por gente.”

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“No fim, você acaba se tornando você mesmo”, como diria o escritor americano David Foster Wallace, que Galindo também traduziu. E o que está nas páginas dos livros de divulgação científica é o mesmo Galindo que se apaixonou por linguística no primeiro semestre da faculdade. “Já escrevi paper acadêmico a vida inteira tentando ser sério, profundo e cabeção, mas é menos eu. Eu gosto de fazer gracinha, de explicar as coisas e transmitir entusiasmo, dizer ‘olha que lindo, olha que foda’.”

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O texto leve e divertido foi treinado fora da academia. Galindo escreve para a imprensa (seu irmão, Rogério Galindo, é jornalista e fundador do jornal online Plural Curitiba), para o teatro (Peça Infantil, um monólogo com Chay Suede e direção de Felipe Hirsch inspirado em A vida e as opiniões do cavalheiro Tristram Shandy, clássico da literatura inglesa do século 18, estreia em 2026) e também ficção (ele já publicou a coletânea de contos Sobre os canibais e o romance Lia, ambos pela Companhia das Letras).

Mas o treinamento acadêmico continua guiando o linguista: não dá para banalizar ou ser irresponsável, dando ar de certeza a algo que não é seguro. Durante o processo de escrita do Latim em pó, Galindo recebeu o seguinte comentário da editora: “Será que não dá para diminuir a quantidade de ‘talvez’?” Mas não dá. Especialmente num campo de estudo tão complexo – e tão cheio de fake news – quanto a linguística histórica.

Você deve conhecer o passado escravocrata por trás do termo “criado-mudo”, aquele armário pequeno que fica ao lado da cama. Só tem um problema: essa suposta origem etimológica racista não pode ser comprovada. Ainda assim, ela foi popularizada por uma campanha publicitária da loja de móveis Etna.

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“Desconfie de uma história muito bem amarrada e muito bem contada. Desconfie de algo que pareça contrariar o óbvio só para ser interessante.” Apesar do esforço dos linguistas para desmentir essas pseudoetimologias, as notícias falsas sempre parecem se espalhar com mais facilidade. 

Para explicar isso, Galindo inventava etimologias falsas em sala de aula, até perceber que os alunos continuavam lembrando delas anos depois, sem o contexto da explicação. É difícil entender como os linguistas conhecem “fatos que não deixaram marcas”, mas os métodos são complexos e confiáveis – tão confiáveis que Galindo chega a comparar a experiência de estudar línguas e descobrir suas raízes em comum com ouvir as vozes dos mortos.

A origem controversa do termo “criado-mudo” (provavelmente uma tradução do inglês dumbwaiter) não significa que não existe racismo por trás das nossas palavras. O contato com línguas indígenas e africanas foi tão profundo que alterou a estrutura da língua que falamos no Brasil, uma influência muito mais profunda que a herança de um ou outro vocábulo. Apesar desse presente que ajudou a diversificar nossa língua, o português “oficial” ainda tenta esconder ou expulsar essas influências.

“Quase tudo que certas normas opressivas nos fazem enxergar como baixo, de menor valor, é racializado”, comentou Galindo durante a mesa na programação principal da Flip. Como diria o orientador dele, Carlos Alberto Faraco, essa “norma culta” do idioma está mais para “norma curta”, ignorando tantas formas diferentes de falar português.

Há uma tendência de transformar a língua portuguesa da gramática numa versão melhor que todas as outras. “Vira um instrumento de exclusão e preconceito.” Como o caminho para dominar essa variedade linguística passa pela educação formal, no Brasil esse trajeto é estreitíssimo, marcado pela desigualdade.

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“As leis da gramática escolar não são leis de verdade e nem deveriam ser”, escreve Galindo em Latim em pó. “No entanto, muitas vezes seus defensores pensam nelas como mais que isso: eles as veem como se fossem mandamentos divinos que não admitem desvios.”

Os desvios da norma culta (e curta) são o que fica para a posteridade. O latim que virou galego que virou português não é a língua dos grandes gramáticos de Roma, mas sim sua variedade vulgar, falada pelos oprimidos e marginalizados. No fim, as regras de uso de uma língua não conseguem falar mais alto que o coletivo que a usa. 

Os falantes de português do Brasil – especialmente aqueles excluídos da educação formal, muitas vezes as pessoas pretas e pardas do país – são incentivados a duvidar de sua posse do idioma, olhando para Portugal ou para a academia como a terra do português “certo”. Mas a língua certa é aquela que comunica. Se eu começo a escrever com mesóclises e vocabulário do século 18, compreender-me-à o leitor desta gazeta?

“O debate linguístico parece menos ácido, mas no fim das contas ele é o grande debate de toda a sociedade brasileira de sempre: racismo, exclusão, elitização, processos de inferiorização, complexo de vira-lata, isso está em tudo.”

Dá para ter orgulho dessa língua que falamos? É complicado. “Olha que lugar maravilhoso que a gente tá”, diz Galindo, apontando para a Praça da Matriz em Paraty numa manhã especialmente ensolarada. “Mas você olha em volta e você está vendo a história da escravidão brasileira. Paraty cresce como via de contrabando ao Rio de Janeiro quando o tráfico de escravizados é proibido. O que a gente está olhando é só tristeza, dor e sangue.”

Com o português, a história é parecida. “A história da implementação da língua portuguesa no nosso território é um drama”, Galindo escreve logo no começo de Latim em pó. Não dá para se orgulhar dessa história de exclusão e da história de Paraty. “No entanto, a gente pode amar esse lugar. A gente tem que aceitar, tem que entender e tem que expor. A língua portuguesa para nós é isso. É uma coisa louca, estrangeira, que nos foi imposta e que, no entanto, é o que somos e é o que nos une.”

Se não dá para ter orgulho, Galindo fica com o amor. E isso ele tem de sobra. “Eu sou completamente tarado pela língua portuguesa.”

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