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O que 100 astronautas foram fazer em Mogi das Cruzes

Evento de exploradores espaciais aconteceu pela primeira vez na América Latina. Entenda os projetos e missões futuras fora da Terra.

Por Manuela Mourão
14 dez 2025, 12h00 •
  • Parece o começo de uma piada: “100 astronautas entram num bar”. Neste caso, o bar era um hotel em Mogi das Cruzes (SP), cidade a uma hora e meia de carro de São Paulo. 

    Não se tratava de um rolê espontâneo, claro. No início de novembro, O resort de luxo Club Med Lake Paradise recebeu o 36° Encontro Internacional de Astronautas, congresso anual idealizado pela Associação de Exploradores Espaciais (ASE, na sigla em inglês). 

    É a primeira vez que o evento acontece na América Latina. Estiveram presentes gente da NASA, ESA (Agência Espacial Europeia), JAXA (Agência Espacial Japonesa), além das agências espaciais turca, canadense, chinesa e a caçula Agência Espacial dos Emirados Árabes Unidos, criada em 2014. No total, 20 países participaram do congresso.

    Ao longo da estadia, alguns astronautas conheceram – e se encantaram – pelo acelerador de partículas campinense Sirius, foram à Bertioga ver o litoral e visitaram escolas. Também cumpriram agenda, claro, em São Paulo. 

    Durante uma semana, entre os dias 3 a 7 de novembro, os astronautas divulgaram atualizações sobre as atividades humanas no espaço e apresentaram os planos futuros das agências espaciais que representam. Além disso, foram responsáveis por paineis para a apresentação de outros projetos que estão sendo desenvolvidos a partir das experiências espaciais. 

    A Super foi a Mogi e acompanhou o evento no dia 6, quando as agências divulgaram os relatórios de missões espaciais, tanto as que aconteceram este ano quanto previsões para os anos seguintes. 

    Foto do evento da Association of Space Explorers (ASE).
    (Manuela Mourão/Superinteressante)
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    A agência japonesa JAXA abriu a rodada de informes com uma apresentação de Takuya Onishi, que destacou a ampliação das pesquisas envolvendo materiais em microgravidade e a condução de experimentos com sólidos, gases e medições em altas temperaturas. Onishi também detalhou o progresso da espaçonave HTV-X, evolução do veículo de carga utilizado para abastecer a ISS. 

    A nova versão promete entregar cargas maiores – até 5,8 toneladas – e operar com custos reduzidos, além de incorporar melhorias em armazenamento e participação em testes de novas tecnologias. A atualização ocorre em um momento em que a agência mantém dois astronautas ativos e prevê novas operações entre março e agosto de 2026.

    A NASA reforçou o foco no voo com humanos e na preparação para a próxima fase da presença norte-americana no espaço. Entre os avanços recentes, a agência destacou a instalação de uma placa solar dobrável na ISS, além da realização da quinta caminhada espacial conduzida por duas mulheres. 

    Mesmo enfrentando limitações de financiamento, a agência anunciou três novos astronautas e relatou exercícios de treinamento que envolvem helicópteros, testes de resistência, coordenação e tomada de decisões em cenários complexos – preparo fundamental para missões lunares. 

    A prioridade permanece sendo a missão Artemis II, que marcará o retorno de humanos ao entorno da Lua pela primeira vez desde o programa Apollo (já falaremos mais disso).

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    A Nasa começa a esboçar também como será o futuro após a desativação da ISS, que para de funcionar em 2030, com o encerramento das operações planejado para o início de 2031. Após décadas de serviço, o fim das operações abre caminho para novas estações espaciais comerciais. 

    Em sua primeira participação nesse tipo de evento, a Agência Espacial Turca (TUA) apresentou um ambicioso conjunto de metas que simbolizam o rápido crescimento do programa espacial do país. 

    O programa foi lançado em 2018 e mais de 36 mil candidatos se inscreveram para a seleção de astronautas. A Turquia mira a criação de satélites nacionais, o fortalecimento da indústria tecnológica interna e um futuro programa de pesquisas lunares, incluindo missões mistas e, posteriormente, lançamentos realizados com foguetes próprios. 

    O planejamento envolve ainda o desenvolvimento de um base de lançamentos nacional e a consolidação de sistemas espaciais que garantam autonomia tecnológica: uma estratégia descrita como essencial para que “o futuro esteja no céu”.

    Representando a ESA, o astronauta Andreas Mogensen detalhou um conjunto robusto de iniciativas científicas e operacionais do órgão europeu. Entre elas, o programa ACES, que utiliza relógios atômicos para testar a relatividade com precisão inédita, e o ASIM, focado na observação de jatos atmosféricos que emergem de tempestades. 

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    Mogensen também destacou avanços na impressão 3D em microgravidade, um passo importante rumo à autonomia de manutenção em órbita, reduzindo a dependência de suprimentos enviados da Terra. Com a aposentadoria da ISS, a ESA reforça sua preparação para a era pós-estação, com investimentos em exploração lunar e marciana, expansão de parcerias com o setor comercial e participação estratégica no módulo de serviço da missão Artemis II.

    O Programa Artemis, liderado pela NASA e apoiado por uma grande coalizão global, avança como o principal eixo da estratégia contemporânea de retorno à Lua – enquanto outras nações e instituições reforçam seu papel em pesquisas científicas, tecnologia espacial e mitigação do lixo orbital.

    O objetivo é claro: estabelecer uma presença humana contínua na Lua como plataforma para missões futuras rumo a Marte. As fases já concluídas e planejadas mostram a complexidade e a ambição do projeto. Artemis I, um voo inaugural não tripulado, validou a robustez do foguete SLS e da cápsula Orion após duas semanas no espaço. A próxima etapa, Artemis II, marcará o primeiro voo tripulado ao redor da Lua em mais de cinco décadas, com participação internacional. 

    Foto do telão durante o evento da Association of Space Explorers (ASE).
    (Manuela Mourão/Superinteressante)

    Na sequência, Artemis III promete o tão aguardado retorno humano à superfície lunar, usando o veículo Starship da SpaceX como módulo de pouso. As missões Artemis IV e V avançam ainda mais: levarão à órbita lunar a estação Gateway e, posteriormente, o módulo Blue Moon da Blue Origin, inaugurando uma fase de infraestrutura permanente no satélite natural. 

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    Os parceiros do esforço lunar também apresentaram seus avanços. O Canadá reforçou sua contribuição com tecnologias de saúde em órbita, geração de energia solar e o satélite Wild Fire, dedicado ao monitoramento ambiental – além de trabalhar no futuro de peças essenciais para a Gateway. 

    O Japão, por sua vez, destacou o desenvolvimento de rovers lunares pressurizados e suas simulações, além de testes de trajes espaciais e a operação de dois pequenos veículos robóticos ativos na superfície lunar, como parte de sua estratégia de presença prolongada na região.

    Entre as empresas privadas, a SpaceX reafirmou o papel da Starship como o foguete mais poderoso já construído para transporte de humanos, e que será peça fundamental da Artemis III. Já a Blue Origin apresentou o progresso do foguete New Glenn e do módulo lunar Blue Moon, ambos componentes-chave para Artemis V. A empresa Axiom Space também ganhou destaque, atuando no desenvolvimento dos trajes que serão usados na superfície lunar nas próximas missões.

    Fora do eixo Artemis, outras nações mostraram avanços próprios. A China revelou pesquisas de larga escala que permitem voos mais frequentes, iniciativas ecológicas inovadoras – como o cultivo de plantas e experimentos com peixe-zebra em órbita – e novas tecnologias de proteção contra lixo espacial. A agência chinesa também demonstrou interesse crescente em missões futuras para Vênus e Marte, ampliando sua presença no cenário espacial global.

    Os Emirados Árabes Unidos reforçaram sua rápida evolução no setor, com equipes de engenheiros desenvolvendo rovers lunares, satélites de observação e missões conjuntas com a NASA, como o programa HERA, dedicado ao estudo dos impactos psicológicos das viagens de longa duração. O país também prepara sua primeira missão autônoma – uma caminhada espacial – e investe em iniciativas para mapear e orbitar o lado oculto da Lua.

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    A ESA surpreendeu ao concentrar sua apresentação em um tema urgente: o lixo espacial. Representada por Thomas Reiter, a agência destacou a necessidade de regras internacionais para evitar colisões em órbita, já que mais de 15 mil satélites ativos e centenas de milhões de fragmentos circulam ao redor da Terra. 

    Entre as medidas em debate estão a desativação segura de satélites, a criação de programas para “quarentenar” equipamentos aposentados e a ampliação do monitoramento de detritos que variam de milímetros a metros de diâmetro. A ESA também reportou 41 manobras recentes da ISS para evitar impactos, alertando para os riscos das megaconstelações e para a possibilidade de reações em cadeia.

    O dia terminou com a apresentação de projetos desenvolvidos por astronautas já aposentados. Nicole Stott, ex-astronauta da NASA, contou sua experiência de como a arte ajudou em seus momentos de ócio em órbita. 

    Aqui na Terra, ela decidiu transformar a arte espacial em projeto. Pensou em unir arte, espaço e a cura em um só lugar. Assim nasceu o Space for Art (Espaço pela Arte, em tradução livre), organização que leva um pouco da mágica espacial para crianças em tratamento de câncer pediátrico. As crianças foram responsáveis por pintar o tecido que se tornaria um traje espacial. 

    O traje decolou, foi fotografado em gravidade zero, usado na ISS e depois virou exposição, junto dos trajes que vieram depois. Outros dois projetos foram apresentados: um que unia música a gravações e fotos espaciais e outro que pretendia colocar uma casinha vermelha no solo lunar. 

    O dia em Mogi terminou com os astronautas debatendo em sala fechada para a imprensa. No entanto, foi suficiente para que a foto de todos reunidos virasse capa desta matéria. 

    No dia seguinte, último de evento, a trupe foi ao Memorial da América Latina, onde ocorreu o lançamento do livro colaborativo “Visões do Cosmos” e a cerimônia de encerramento com o concerto “Queremos Paz no Planeta”. 

    Os exploradores espaciais que conheci garantem: não é porque eles saem do planeta de vez em quando que todos nós devemos abandonar nossa Terra. Uma coisa não tem nada a ver com a outra. Afinal, se não cuidarmos do nosso planeta, para que mundo eles voltariam? 

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