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Será que este é o melhor momento para ser mulher em Hollywood?

Como os movimentos por mais igualdade de gênero e os escândalos de assédio envolvendo grandes personalidades do cinema afetaram a indústria cinematográfica

Por Marília Marasciulo
Atualizado em 12 mar 2024, 10h02 - Publicado em 1 ago 2018, 17h46

A essa altura do campeonato, você provavelmente está por dentro dos escândalos sexuais que sacudiram Hollywood entre o fim de 2017 e o início de 2018. Dezenas de mulheres, de assistentes e secretárias pouco conhecidas a atrizes e produtoras famosas, resolveram quebrar o silêncio e denunciar casos de assédio na indústria de entretenimento. As investigações não pouparam ninguém. Figuras, até então intocáveis como Harvey Weinstein, produtor de filmes como O Senhor dos Anéis e Pulp Fiction, e os atores Kevin Spacey, Morgan Freeman, Woody Allen, apareceram na lista de acusados, que chegam a quase cem, segundo a consultoria Temin & Co.

“Todo mundo sabia que isso acontecia. O chocante foi ver quem eram as pessoas e isso tudo vir à tona”, afirma Stephanie Steponovicius, gerente de produção na Pixelogic, empresa de Los Angeles especializada em serviços de distribuição e de localização. Segundo ela, as consequências também não foram surpresa para ninguém. “O país tem uma política forte contra assédio, as denúncias são de fato levadas adiante, não é como no Brasil que assédio acaba disfarçado de elogio”, diz Steponovicius, que antes disso trabalhou por dez anos como produtora na ESPN Brasil. Era mais do que natural, portanto, que os investigados fossem afastados de seus cargos — Weinstein responde a um processo que pode condená-lo à prisão perpétua; a Netflix suspendeu as filmagens da sexta temporada de House of Cards e anunciou na terça-feira, 31, que garante um “final à altura” para a série sem Kevin Spacey.

Mas mais que isso, as reações da mídia e da própria indústria deram às mulheres força para lutar por mais direitos e inclusão, com movimentos como o “Time’s Up”, iniciativa que inclui um fundo para proteger e ajudar mulheres a reportarem casos de assédio ou desigualdade salarial. “É um problema sistêmico, desde o início da minha carreira vivi isso na pele: eu e meu ex-marido tínhamos o mesmo cargo, mas ele ganhava muito mais do que eu, não raro em empresas que prosperavam menos que as que eu trabalhava”, afirma Stephanie Varella, que foi vice-presidente de desenvolvimento e produção na Bruckheimer TV, responsável por desenvolver séries como CSI, Without A Trace e Cold Case, e atualmente tem a própria produtora.

Além das iniciativas lideradas pelas próprias mulheres, outras surgiram com o objetivo de reparar as falhas históricas. Em fevereiro deste ano, por exemplo, o prefeito de Los Angeles, Eric Garcetti, e a cineasta Ava DuVernay lançaram um programa para distribuir fundos a projetos e organizações que estimulem a inclusão de minorias no entretenimento. O primeiro a receber o incentivo é o Women in Entertainment Mentorship Program, com o qual jovens mulheres recebem mentoria e bolsas de estudos para se desenvolver na indústria.

O problema é que, embora a retórica de inclusão esteja de fato mudando, na prática pouco mudou. Um estudo da Universidade do Sul da Califórnia (USC) divulgado na terça-feira, 31, mostra justamente isso. Liderada por Stacy L. Smith, professora da Escola Annenberg de Comunicação e Jornalismo, a pesquisa investigou quase 50 mil personagens em mais de mil filmes entre 2007 e 2017 (os 100 no topo da bilheteria de cada ano). De todos os papéis com falas, 30% eram mulheres. E elas corresponderam a somente 4,3% dos 1.223 diretores no período. Esse dado se refere a mulheres no geral, se olharmos para grupos minoritários como negras, latinas ou asiáticas, a desigualdade é ainda maior. Em 2017, 43 filmes não incluíram mulheres negras, 65 não tinham asiática e 64 não tinham latinas.

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Enquanto isso, o burburinho não para. Na semana passada, um alto executivo do canal CBS, Leslie Moonves, foi o mais recente a entrar na lista de acusações por assédio sexual. Agora, congressistas na Califórnia querem revisar uma legislação de 1994 que dispõe sobre assédio para deixar claro como ela se aplica a produtores e diretores, e tornar mais fácil para as vítimas denunciarem. O objetivo é reconhecer que o assédio pode acontecer até antes de uma relação profissional existir, visto que o assediador tem poder para ajudar na carreira de uma pessoa e explorar isso.

Olhando para 2017, o ano que deu o pontapé nas iniciativas de inclusão, os resultados também não foram muito animadores. Dos 100 principais filmes do ano, 33 tinham mulheres no papel principal ou co-principal. E apenas quatro eram de minorias étnicas. “Quem esperava que este seria um ano exemplar para a inclusão vai ficar desapontado”, afirmou Smith em entrevista ao Deadline, um dos maiores sites de entretenimento dos EUA. “A falta de inclusão nas telas corresponde e até excede a exclusão por trás das câmeras”, completou.

Tudo leva a crer que sim, ainda existe muito caminho pela frente até que Hollywood seja, de fato, um lugar para todos e todas. “Acho que a indústria está se abrindo, basta ver meu próprio caso, que sou mulher, latina, estrangeira e trabalho em uma empresa que cada vez mais preza por uma equipe diversa”, diz Steponovicius. Pode não ser o momento perfeito para ser mulher em Hollywood e o ideal é que um dia as denúncias nem precisem mais existir, mas o fato de o assunto ter entrado em pauta já é um primeiro — e importante passo — para mudanças dentro e fora das telas.

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