Nosso cérebro transforma as informações visuais em uma realidade lógica – um resumo de tudo, para dar conta de tanta informação. E os ilusionistas se aproveitam disso para trapacear os nossos olhos.
Texto: Carol Castro | Edição de arte: Jorge Oliveira | Design: Andy Faria | Imagens: Getty images
O mundo não é exatamente como você o enxerga. As cores, os movimentos, tamanhos e formatos dos objetos nada mais são do que uma invenção bem elaborada do seu cérebro, baseada em experiências passadas. Esse mundo todo colorido tem uma razão: em uma paisagem preta e branca, no meio da selva, seria difícil enxergar um predador escondido atrás de alguma pedra ou moita. Ciente disso, seu cérebro aprendeu a distinguir um objeto do outro detectando contrastes – nesse caso, diferenciando cores. E tornou a sua vida muito mais fácil. Mas ele foi além. Aprendeu o significado das sombras em cada movimento (imagine uma bola de basquete quicando e outra sendo arremessada – a posição da sombra é diferente), do tamanho e posição das coisas porque desenvolveu profundidade e perspectiva. Esse acúmulo de experiências constrói seu jeito de ver o mundo.
Para entender como seu cérebro processa as imagens é preciso ter em mente uma coisa: tudo que chega aos olhos não passa de luz. Esse estímulo visual atinge os fotorreceptores, na retina, que o transformam em sinais eletroquímicos. De lá, esses sinais seguem até o nervo óptico, tálamo, córtex visual primário até chegar aos neurônios. Em cada etapa, o cérebro dá forma aos pontos luminosos, com contrastes, linhas, profundidade. É ele quem cria todas as imagens à nossa volta. “A luz que entra não tem significado, poderia ser qualquer coisa. O que importa é o que fazemos com essa informação. Como enxergamos?
Aprendendo. O cérebro desenvolveu mecanismos para encontrar padrões”, explicou Beau Lotto, neurocientista especializado em sistema visual, em uma palestra do TED. Padrões é toda a memória visual armazenada no cérebro. Funciona como o aprendizado de um idioma: você sabe como juntar letras e formar palavras. Seu sistema visual faz o mesmo, só que com luz. Ele consegue interpretar e distinguir objetos com base no que já viu e aprendeu.
Seu cérebro trabalha assim para conseguir dar conta de tanta informação. Só que, nesse caminho, ele acaba fazendo um resumo da realidade – por uma questão lógica: otimização do trabalho. Em outras palavras: ele pressupõe muita coisa. E é esse jogo de “adivinhação” que os mágicos usam para criar truques e trapacear seus olhos.
Piloto automático
Em 1921, o mágico britânico P. T. Selbit surpreendeu a plateia, em Londres, ao serrar uma mulher ao meio. Em um caixote estavam as pernas da moça e, no segundo, os braços e a cabeça – separados um do outro. Logo em seguida, ao unir as duas caixas, ela reaparecia inteira. O truque é conhecido e, ainda que existam variações, o segredo é sempre o mesmo: duas mulheres se contorcem dentro de cada caixote. Ainda assim, o número fascina quem o assiste pela primeira vez. Todo mundo sabe que o mágico jamais cortaria alguém em dois – e muito menos conseguiria juntar as partes e salvar a integridade da moça. Mas por que o cérebro cai nessa?
A neurociência explica em duas palavras: boa continuidade – ou preenchimento de lacunas. Quando a mulher entra na caixa, antes do truque começar, o espectador vê só parte dos membros superiores e inferiores dela – o resto fica oculto. Seu cérebro, então, recorre aos velhos padrões memorizados do corpo humano e completa mentalmente a lacuna que falta ali. Ao ser “serrada” o cérebro entra em parafuso, perde toda a referência construída e reforçada há milênios – daí vem o espanto gerado pelos espetáculos de mágica.
O truque de entortar colheres com a mente dá certo pelo mesmo motivo. Quando o mágico segura os dois talheres pelo “pescoço”, antes de começar a forjar o poder da mente, o cérebro não percebe que elas já estão tortas. Em vez disso, ele completa aquela lacuna escondida pelo dedo do mágico e cria a imagem de duas colheres cruzadas e inteiras.
Uma série de outros truques se aproveita dessa mesma “falha” do sistema visual. Em um popular número de mágica de rua, conhecido como “multiplicação de bolas”, o ilusionista mostra aos espectadores uma pequena bola vermelha. Ele segura o objeto entre o polegar e o indicador e, com um rápido movimento, faz surgir uma nova bola. Não tem muito mistério: uma das bolas é semiesférica e guarda outra dentro dela. Mais uma vez, o cérebro não consegue perceber essa pegadinha.





“A chave para entender esse poderoso truque é: o completamento amodal quando o cérebro faz as coisas inteiras] deve ser percebido como um fenômeno perceptivo genuíno, no sentido de que é automático e cognitivamente impenetrável”, escreve o psicólogo norueguês Vebjørn Ekroll, da Universidade de Bergen. “Visto dessa perspectiva, os espectadores percebem a bola como sólida, e não semiesférica, porque é o que o sistema visual diz a eles”, completa.
Perspectiva, aliás, é outro atalho que os mágicos pegam para enganar sua mente. Ao longo do tempo, seu cérebro aprendeu a captar pistas, como as linhas, bordas e contornos, para determinar a posição e o tamanho dos objetos – é isso que transforma nosso mundo em 3D e permite que você calcule a distância de um obstáculo só de olhar. Mas essas suposições feitas pelo cérebro podem ser facilmente trapaceadas.
Talvez você conheça o famoso quarto ilusório de Ames, feito para que uma pessoa pareça gigante e a outra pequena – vários museus do mundo reproduzem o quarto. Visto do ângulo certo, a ilusão funciona. Isso porque ele é construído para parecer normal e simétrico, mas não tem a parede traseira reta, ela é diagonal – aí seu cérebro automaticamente calcula que uma pessoa é realmente maior que a outra. Vários números usam esse mecanismo do cérebro para enganar você – um deles é o da carta ambiciosa.
Imagem-fantasma
Mas os mágicos não brincam apenas com o piloto automático do cérebro. Eles se aproveitam também do tempo que você leva para processar uma imagem. Não é muito: um décimo de segundo até a luz do objeto entrar na retina e ser processada pelo cérebro. Mas é o suficiente. Durante essa fração de segundo, um mágico pode fazer desaparecer uma moeda das mãos sem que você perceba. Ou alterar a cor do vestido de uma mulher bem diante dos seus olhos.
Para funcionar, esses truques, em geral, contam também com a iluminação ambiente (seja o sol forte ou os holofotes de um teatro). Durante a apresentação de seu espetáculo, Johnny Thompson, um ilusionista conhecido como o Grande Tomsoni, promete mudar a cor da roupa de uma mulher de branco para vermelho. Os holofotes brancos se apagam e, de repente, mudam para a cor vermelha. Ele admite que não teve graça. O mágico, então, bate palmas, as luzes baixam e, de repente, o teatro é tomado por uma branquidão forte. E lá está: o vestido agora é realmente vermelho.
Thompson sabe como usar o sistema visual do cérebro a favor do truque. Quando o palco se ilumina pela última vez, aquela luz forte entra pela retina – e ficará lá por um décimo de segundo. “Pense no flash das máquinas fotográficas. Ele dispara e a pessoa fica com um brilhante ponto branco temporário no campo visual, que vai esmaecendo na escuridão”, explicam os neurocientistas Stephen Macknik e Susana Martinez-Conde. É como uma imagem-fantasma, já que seu cérebro precisa de tempo para processar as informações e, principalmente, para se adaptar à nova iluminação.
Durante esse tempo, o truque acontece – e o vestido muda de cor. Por mais que todos esses truques tenham sido revelados agora, você vai cair em outros tantos que se utilizam dos mesmos princípios. É assim que o cérebro trabalha. Não tem escapatória.
Aprendendo com os Mestres
Os mágicos conhecem as “falhas” do seu sistema visual. E se aproveitam delas para criar ilusões com a ajuda da iluminação.






