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Como a espionagem mudou o mundo

Tão importantes quanto o poderio bélico, as informações estratégicas podem definir desfechos de conflitos e destinos de nações. Conheça os 5 casos mais fantásticos em que a espionagem ajudou a redesenhar o mapa-múndi

Popov, Dusko Popov

Conflito: Segunda Guerra Mundial
Quando: 1941
Nações envolvidas: EUA, Japão, Alemanha
Missão: alertar os americanos sobre a intenção japonesa de atacar Pearl Harbor
Arma secreta: Dusko Popov, o espião bon vivant que inspirou James Bond
Estratégia: roubo de dados

Elegante, mulherengo, amante da boa vida. Esse era Dusko Popov, espião iugoslavo que inspirou o escritor inglês Ian Fleming na criação do personagem James Bond. O 007 de verdade também era culto, fluente em diversos idiomas, frio e esperto. Ele fez uma das carreiras mais brilhantes da espionagem internacional graças ao trabalho que realizou no posto reservado aos melhores do mundo: o de agente duplo.

Durante a Segunda Guerra Mundial, Popov atuava tanto para os nazistas quanto para os aliados. Mas só dava informações quentes aos aliados: os alemães ele enganava.

O ponto alto de sua carreira ocorreu em 1941, quando chegou aos EUA com um relatório dos alemães que trazia em 5 páginas todos os detalhes sobre um iminente ataque a Pearl Harbor. Durante um mês, Popov não obteve nenhuma resposta aos pedidos de encontro com o todo-poderoso do FBI, J. Edgard Hoover – que controlava o serviço secreto (a CIA só seria criada em 1947). Hoover duvidava das informações, dizia que estava tudo redondinho demais, com datas, lugares, nomes, etc.

Quando finalmente se reuniu com Hoover, os dois falaram o diabo um para o outro e saíram sem nada decidido. Para o chefão do FBI, Popov não passava de um bon vivant que estava nos EUA por farra – durante o mês de espera, Popov se esbaldou com belas mulheres e frequentou os melhores lugares de Nova York. Para o agente secreto, Hoover era um irresponsável que deixaria o próprio país ser atacado.

No dia 7 de setembro, como havia sido adiantado por Popov, os aviões japoneses sobrevoaram a baía de Pearl Harbor, no Havaí, e atacaram a frota de navios do Pacífico, matando 2 235 militares e 68 civis. Popov soube quando voltava de uma viagem ao Brasil.

Até hoje não se sabe direito a razão da apatia do governo americano diante do seu relatório. Os EUA aprenderam a lição de Popov? Não, a julgar pelo atentado ao World Trade Center, que não foi evitado apesar das numerosas pistas levantadas pelo serviço de inteligência.

Dusko Popov arrancou dos nazistas informações sobre um ataque iminente do Japão a uma base dos EUA no Havaí. Mas os americanos não acreditaram no espião playboy e mulherengo. Pouco depois, os japoneses bombardeavam Pear Harbor

Espião de 1 milhão de dólares

 (iStock | Dian_S_Cahya/)

Espião de 1 milhão de dólares

Conflito: Guerra Fria
Quando: 1979-85
Nações envolvidas: União Soviética, EUA
Missão: fornecer dados cruciais do programa aeronáutico soviético aos americanos
Arma secreta: o cientista e cara-de-pau russo Adolf Tolkachev
Estratégia: traição, roubo de dados

Era difícil acreditar que aquele homenzinho com pouco mais de 50 anos, 1,65 metro de altura, magro e corcunda teria tanta coragem. A aparência frágil e o medo de cair em uma armação fez o serviço de espionagem americano em Moscou ignorar por 2 anos a aproximação do dissidente soviético Adolf Tolkachev. Um dia, ele resolveu aparecer na embaixada dos EUA e abordar o mordomo para oferecer seu trabalho. Acabou se tornando o espião mais importante da Guerra Fria.

Tolkachev – apelidado de “agente de 1 bilhão de dólares” – era pesquisador envolvido em projetos militares secretos da antiga União Soviética. Durante 6 anos, forneceu aos EUA dados sigilosos sobre aeronáutica, radares, mísseis e outros sistemas de armamentos. Seu trabalho permitiu que os americanos despontassem no desenvolvimento dessas tecnologias – e, consequentemente, deixassem os russos para trás na corrida bélica.

Equipado com câmeras fotográficas ultramodernas como a T 100, de apenas 3,5 cm, Tolkachev chegou a providenciar 6 264 fotos em 3 meses. Mas nem todo o trabalho podia ser resolvido com gadgets de alta tecnologia: erguia pilhas de livros em volta de sua mesa para fotografar sem ser visto. Às vezes, o banheiro servia de estúdio.

Em um de seus trabalhos mais importantes, forneceu dados para alterações radicais no projeto do caça F-15, no qual foram investidos 70 milhões de dólares. Mais tarde, a CIA concluiu que ele permitira economizar “bilhões de dólares e até 5 anos de tempo de pesquisa e desenvolvimento”.

Em meados de 1983, Tolkachev deixou a sala de seu supervisor com as mãos suadas de preocupação. Era um interrogatório, parte de uma operação para capturar traidores. Escondida entre os dentes, havia uma dose de cianureto capaz de matá-lo em 5 segundos. Caso fosse preso, bastaria uma pequena pressão na cápsula e fim de papo.

Mas a cápsula fatal não adiantou nada quando Tolkachev foi capturado por agentes da KGB, 20 meses depois. Eles rapidamente colocaram uma corda entre seus dentes para impedir que engolisse o veneno. Terminava aí a carreira do agente de 1 bilhão de dólares.

Ao ser pego pela KGB, Adolf Tolkachev já havia entregue à CIA segredos de estado que permitiram aos americanos economizar bilhões de dólares e cinco anos de trabalho em pesquisa aeronáutica. Por causa dele, a Guerra Fria acabou um pouco mais cedo

Brasil fora do eixo

 (Wikimedia Commons/)

Brasil fora do eixo

Conflito: Segunda Guerra Mundial
Quando: 1941
Nações envolvidas: Brasil, EUA, Itália, Alemanha
Missão: usar informações falsas sobre o Eixo para convencer Getúlio Vargas a apoiar os Aliados
Arma secreta: uma carta xingando o presidente brasileiro
Estratégia: plantar informações falsas

Até 1941, o governo brasileiro ainda não havia decidido quem apoiar na Segunda Guerra Mundial: Getúlio Vargas se equilibrava com maestria entre as investidas nazi-fascistas e o compromisso diplomático com os aliados. Temeroso de que as oferendas do Eixo dobrassem o juízo do presidente do Brasil, o serviço secreto britânico preparou uma missão genial para pôr o Brasil contra os alemães e italianos. Como? Convencendo nosso governo de que os seguidores de Adolf Hitler e Benito Mussolini ridicularizavam o presidente e o povo brasileiros.

O alvo da armação era a Lati, empresa aérea italiana que operava no Brasil e abastecia a espionagem nazista no continente americano. A estratégia dos britânicos começou com o roubo de uma carta do presidente da companhia, general Aurelio Liotta. Então foi redigida outra carta, reproduzindo a tipografia da máquina de escrever – com as mesmas imperfeições – o carimbo e o tipo de papel do documento original.

A carta que os ingleses escreveram em nome de Liotta era um rosário de ofensas. Esculhambava Getúlio ao dizer que “não pode haver dúvida de que o gordinho está caindo nas mãos dos americanos”. Em outro trecho, o xingamento é dirigido ao povo brasileiro: “E se é verdade (…) que os brasileiros são uma nação de macacos, não é necessário dizer que são macacos dispostos a servir a quem tiver as rédeas na mão”.

O destinatário da carta era Vincenzo Coppola, diretor da Lati no Brasil. Mas como fazer que chegasse ao conhecimento de Vargas e que este defenestrasse a companhia italiana? Aí estava a consagração da obra-prima. Um ladrão foi contratado para que a casa de Coppola fosse assaltada no Rio de Janeiro, notícia que foi amplamente divulgada pela imprensa.

Em seguida, um espião que se identificou como o autor do roubo procurou a sucursal da agência de notícias americana United Press (atual UPI). Um jornalista comprou a carta e a levou a Jefferson Caffery, embaixador dos EUA, que imediatamente contatou o presidente brasileiro para relatar o conteúdo do documento. Enfurecido, Getúlio não demorou a suspender o contrato com a Lati e, pouco depois, romper relações com o Eixo. O Brasil entrava para o bloco aliado.

“Não pode haver dúvida de que o gordinho está caindo nas mãos dos americanos”, dizia a carta falsificada pelos ingleses. O gordinho era Getúlio Vargas e o suposto autor do documento, o presidente de uma companhia aérea italiana que abastecia nazistas no Brasil

O defunto mentiroso

 (Wikimedia Commons/)

O defunto mentiroso

Conflito: Segunda Guerra Mundial
Ano: 1943
Nações envolvidas: Reino Unido, Alemanha, Itália, Espanha
Missão: convencer os alemães de que os aliados não invadiriam a Sicília
Arma secreta: um cadáver fantasiado de militar inglês
Estratégia: plantar informações falsas

O homem que protagonizou a missão de espionagem mais espetacular da Segunda Guerra Mundial já estava morto quando foi designado para a tarefa.

Foi um defunto quem entregou aos nazistas papéis que desencadeariam o relaxamento da guarda no fronte siciliano, abrindo o campo para a invasão aliada. O plano, batizado de Operation Mincemeat (“Operação Carne Moída”), foi obra dos oficiais da força aérea britânica Ewen Montagu e Archibald Cholmondley, estes, sim, muito vivos.

Em 1943, os Aliados já haviam reconquistado o norte da África. De lá para a Itália continental, a ponte natural seria a Sicília. Mas só algo extraordinário removeria as tropas italianas e alemãs que guardavam muito bem a ilha.

Montagu e Cholmondley se encarregaram de fazer chegar aos nazistas duas cartas, assinadas por altas autoridades, insinuando que a invasão da Itália seria deflagrada a partir da Sardenha, ilha ao norte da Sicília. Para entregar as cartas, foi criado um personagem: o major William Martin.

Na farsa, Martin – portador de planos sigilosos a caminho das bases aliadas na África – morre em um acidente de avião no mar. O cadáver seria resgatado e os documentos, lidos e engolidos pelos alemães. Não somente a papelada precisaria parecer autêntica, como também o ator defunto.

Nosso herói foi “recrutado” em um necrotério de Londres. Era um homem com cerca de 30 anos, que morrera de pneumonia – seus pulmões estavam cheios de líquido, como os de um afogado.

O defunto recebeu uniforme, identidade militar e, acorrentada ao punho, uma pasta com as “cartas secretas” e objetos “pessoais”: contas vencidas, fotos e cartas de amor da noiva. O local da operação foi a costa da Espanha – apesar de nunca se alinhar ao Eixo, o governo espanhol pendia para o lado de Hitler e permitia a ação da inteligência alemã. O serviço foi feito por um submarino, mais discreto que um barco.

Pescadores encontraram o corpo e o entregaram às autoridades espanholas. Os ingleses receberam de volta um “major Martin” autopsiado e as cartas, examinadas com minúcia. Os nazistas morderam a isca: o serviço secreto inglês verificou que os peritos do Eixo não duvidaram da autenticidade do material recolhido.

Em julho de 1943, ao desembarcar na Sicília, os aliados esmagaram os poucos inimigos que ainda estavam lá. Graças a um defunto cujo nome, por exigência da família, nunca foi revelado. Mas, que, segundo Ewen Montagu, não teve uma biografia empolgante: “A única coisa prestável que ele fez foi depois de morrer”, disse o militar inglês em 1977.

No meio da Segunda Guerra, um major inglês morreu carregando documentos sigilosos que descartavam a Sicília na rota da invasão aliada da Itália. Os espanhóis acharam o corpo e entregaram os papéis aos alemães. Mas era tudo armação. Os nazistas caíram feito patos e os aliados invadiram a Sicília

Inimigo no poder

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Inimigo no poder

Conflito: Árabes x Israel
Ano: 1961-65
Nações envolvidas: Israel, Síria, União Soviética
Missão: entregar aos israelenses segredos de estado sírios
Arma secreta: o superespião Eli Cohen
Estratégia: infiltração, roubo de dados, plantar informações falsas

Se a Guerra dos Seis Dias – quando Israel aniquilou as defesas da Síria, em 1967 – durou tão pouco, muito se deveu ao trabalho do espião Eli Cohen. Agente mais ousado do serviço secreto israelense, ele ganhou a confiança dos poderosos sírios a ponto de ter acesso aos maiores segredos militares. Que eram prontamente repassados aos patrões em Tel-Aviv, é claro.

Cohen descobriu e sabotou, por exemplo, um projeto da Síria de desviar as fontes do rio Hasbaya, afluente do rio Jordão. Se levado a cabo, o desvio privaria os israelenses de 100 milhões de metros cúbicos de água, o equivalente a um terço do que corria nos condutos do país.

Também foi ouvido pelos militares sírios quando sugeriu que eucaliptos fossem plantados ao redor das fortificações, sob o pretexto de que as árvores disfarçariam as instalações. Na verdade, as plantas serviram para ajudar a força aérea israelense a localizar seus alvos estratégicos.

Filho de judeus sírios nascido no Egito, Cohen falava árabe fluentemente – ainda assim, precisou de um longo treinamento para trocar o sotaque egípcio pelo sírio. Além disso, tinha ótima memória e a aparência de um respeitável cidadão árabe. Todos os atributos que se esperaria de um agente secreto judeu. Só uma coisa preocupava o Mossad (serviço secreto de Israel): a ousadia de Cohen beirava a irresponsabilidade suicida. Foi ela que dificultou sua entrada no quadro de espiões e que também acabou fazendo com que fosse pego, torturado e morto.

Após ser recrutado e mudar o nome para Kamet Amin Tabet, o agente secreto foi morar na Argentina – onde se infiltrou na comunidade síria como um próspero empresário. Em 1961, desembarcou em Damasco e lá rapidamente se tornou íntimo da classe política.

Cohen freqüentava as altas rodas, ficou amigo do presidente, visitou as linhas de frente do exército inimigo e soube tudo sobre as diretrizes militares da Síria, as ligações com a Rússia e os planos contra Israel. Quando não conseguia informações por meios diplomáticos, chantageava mulheres de oficiais com fotos comprometedoras.

Esse posto de observador privilegiado durou 4 anos, até 1965. Nessa época, já disfarçava mal suas atividades secretas – ligava todos os dias, no mesmo horário, para Israel. Os soviéticos que atuavam na Síria descobriram o agente inimigo. Cohen foi torturado antes de ser enforcado: teve água injetada em seu corpo, sofreu choques elétricos e queimaduras com brasas de cigarros e teve as unhas arrancadas. Até hoje Israel clama pela devolução de seu corpo.

O agente secreto judeu Eli Cohen era tão dissimulado que se tornou homem de confiança do governo sírio – seu nome chegou a ser cogitado para o Ministério da Defesa. Mas as informações que ele roubou permitiram a Israel vencer uma guerra em 6 dias

Para saber mais

Crônica de uma Guerra Secreta
Sérgio Corrêa da Costa, Record, 2004

O Grande Inimigo
Milt Bearden e James Risen, Objetiva, 2003

Crime, Espionagem e Poder
Flávio Moreira da Costa, Record, 1987