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Instituto russo guarda sementes de plantas extintas pela guerra

80% das plantas preservadas no local, fundado em 1905 por um botânico visionário, não existem mais em nenhum lugar do mundo

Por Bruno Vaiano - 20 jan 2017, 17h47

Um prédio de São Petesburgo que data de antes da Revolução Russa é a última morada de sementes de plantas europeias que não sobreviverem às duas guerras mundiais e à industrialização da União Soviética no começo do século passado. Criado pelo botânico visionário Nikolai Vavilov há mais de 100 anos, o Instituto Vavilov hoje mantém a biodiversidade da região a salvo da globalização e do aumento da temperatura média do planeta, conservando congelados por até 50 anos sementes de vegetais já extintos.

O prédio visto de fora.
O prédio visto de fora. Luigi Guarino/Flickr/CC

O local também recebe sementes “refugiadas”, como um tipo de trigo da Etiópia que quase desapareceu durante a guerra civil que assolou o país na década de 70. Ao todo, são 345 mil amostras de grãos, prontos para germinar assim que saírem de sua hibernação forçada. “Espécies locais que sobreviveram à guerra [Segunda Guerra Mundial] foram destruídas por variedades mais produtivas importadas dos Estados Unidos”, contou o atual diretor, Nikolai Dzyubenko, ao Phys.org. “Mas, graças à nossa coleção, o mundo ainda tem uma chance de redescobrir essas plantas esquecidas.”

 

Vavilov Institute (VIR) in Sankt Petersburg March 2002. Seeds are stored in the large offices in thinn boxes.
Cada caixinha contém uma amostra. Apesar da aparência antiga, as instalações são eficientes em conservar as sementes. Dag Endresen/Flickr/CC

O espírito dos sucessores de Vavilov é reflexo do fundador. Nascido em 1887, o botânico percorreu o mundo em busca de espécies vegetais, e voltou para casa com mais de 200 mil sementes para sua coleção (na época, a maior do mundo). Em 1940, com o país sob influência das ideias pseudocientíficas do agrônomo Trofim Lysenko, protegido do ditador Josef Stálin, Vavilov foi detido sob acusações falsas em uma grande campanha de descrédito dos estudos de genética ditos “ocidentais”. Durante o cerco da cidade pelo exército nazista durante a Segunda Guerra Mundial, cientistas famintos mantiveram guarda no prédio para evitar o saque das sementes pela população.

O retrato de Nikolai Vavilov.
O retrato de Nikolai Vavilov. Dag Endresen/Flickr/CC

Vavilov morreria na prisão em 1943, e ideias obscurantistas com influência da teoria da evolução de Lamarck tomariam conta da educação e da ciência russas até a demissão de Lysenko do cargo em 1965. O legado de Vavilov seria reabilitado na opinião pública na década de 1960, sob o governo de Leonid Brezhnev. Atualmente, 80% do banco genético consiste em variedades que não existem mais em nenhum lugar do mundo. De tempos em tempos, elas precisam ser germinadas, para então produzirem novas sementes que renovarão o estoque.

Os cadernos do botânico, preservados e em exposição no Instituto.
Os cadernos do botânico, preservados e em exposição no Instituto. Luigi Guarino/Flickr/CC

 

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