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Nazistas na NASA

Como cientistas alemães que devastaram a Inglaterra foram parar nos programas espaciais dos EUA e da União Soviética.

Por Tiago Cordeiro - Atualizado em 13 dez 2019, 15h13 - Publicado em 22 nov 2019, 15h12

Todos os anos, desde 1963 até 2012, a Associação de Medicina Espacial concedeu o prêmio Hubertus Strughold para pesquisadores que encontram soluções para melhorar a saúde dos astronautas. O nome escolhido não é casual: Hubertus Strughold é considerado o pai da medicina no espaço.

Pioneiro nos estudos sobre o efeito da falta de gravidade para o organismo humano, ele liderou o desenvolvimento das roupas utilizadas pelos astronautas das missões Gemini e Apollo. Strughold era um carrasco nazista. Vários dos médicos alemães que realizaram experimentos com humanos no campo de concentração de Dachau estavam ligados a ele. Como líder do Instituto da Medicina na Aviação da Aeronáutica alemã, a Luftwaffe, ele orientou médicos que realizaram cirurgias invasivas sem anestesia e mergulharam presos em água gelada, entre outros procedimentos grotescos.

Morreu em paz, no Texas, em 1985, aos 88 anos. Só em 2012 seu passado veio à tona numa reportagem do Wall Street Journal. O prêmio com seu nome deixou de existir. O caso de Strughold não foi isolado. Os americanos disputaram com os soviéticos as mais úteis mentes do nazismo, que foram cruciais para o desenvolvimento do programa espacial dos dois países.

Caça-talentos

Os Estados Unidos coletaram mais mentes do que os russos. Enquanto os soldados de Josef Stalin se aproximavam de Berlim, os americanos despacharam emissários na frente, para negociar com os cientistas alemães. “Nós desprezávamos os franceses, morríamos de medo dos soviéticos e não acreditávamos que os britânicos pudessem bancar nossas pesquisas. Sobraram os americanos”, afirmou, anos depois, um engenheiro de foguetes alemão em entrevista para os historiadores Frederick Ordway e Mitchell R. Sharpe.

Ao longo do primeiro semestre de 1945, à medida que os soviéticos se aproximavam e Hitler cometia suicídio, cerca de 1.600 pessoas, entre engenheiros alemães e seus familiares, fugiram para a área da Europa controlada pelos Estados Unidos. Quando os soviéticos ocuparam a Alemanha, encontraram instalações vazias onde antes ficava o centro de produção do V-2, a fábrica Mittelwerk, na Turíngia.

A primeira foto do espaço, tirada por um V-2 capturado pelos americanos e lançado por cientistas e militares dos EUA, em 24 de outubro de 1946. Reprodução/Wikimedia Commons

A ação de busca, convencimento e retirada de cientistas recebeu o codinome Operação Paperclip. Extremamente bem-sucedida, recrutou, entre tantos, Werner Dahm, responsável por desenvolver os revolucionários túneis de vento supersônicos utilizados para criar os foguetes nazistas. Seria chefe da Divisão de Aerodinâmica da Nasa. Konrad Dannenberg, outro engenheiro alemão, assumiu um posto expressivo: gerenciou o Programa Saturn, o foguete lunar.

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Mas o nome nazista mais conhecido da Nasa, e também o mais influente dentro do programa espacial americano, foi Wernher von Braun. Como chefe da equipe que desenvolveu o V-2, Von Braun participou de diferentes organizações políticas nazistas, incluindo a SS. Como chefe, foi responsável também por coordenar o trabalho escravo na fábrica que matou mais gente que os próprios foguetes.

Assumiu um posto de chefia na Agência de Desenvolvimento de Armamentos Balísticos, onde criou o foguete Jupiter-C, utilizado para enviar ao espaço, em 1958, o primeiro satélite americano. Nos anos 1960, o departamento foi anexado à Nasa, onde suas contribuições se mostraram cruciais para o sucesso da Apolo 11.

26 de março de 1958: lançamento do Jupiter-C, desenvolvido por Wernher von Braun. Os EUA começariam atrás na Corrida Espacial, mas a presença dos ex-nazistas seria uma vantagem. Bettmann/Getty Images
Wernher von Braun entrou para a história como uma espécie de vilão redimido. Com sua contribuição foi realizada a mais espetacular jornada humana de todos os tempos. Morreria relativamente jovem, aos 65, na Virgínia, de câncer, em 1977. Até seu fim, alegou que não era um carrasco nazista, mas meramente um cientista que chefiara o desenvolvimento e o fabrico de armas avançadas. Não gostava muito de lembrar em que condições foram feitas: os V-2 foram construídos na fábrica Mittelwerk, suprida com o trabalho do campo de concentração Mittelbau-Dora. Eram principalmente eslavos, que trabalhavam no subterrâneo, até a morte. 20 mil prisioneiros pereceriam no processo: mais que o dobro que as 9 mil vítimas do V-2. Von Braun admitiu considerar as condições do campo “deploráveis”, mas disse ter se sentido impotente para mudar qualquer coisa. As vítimas não confirmam: Guy Morand, um membro da Resistência Francesa, testemunhou que o cientista pessoalmente ordenou um açoitamento. Outro sobrevivente, Adam Cabala, falou da completa indiferença do cientista, agindo como se estivesse numa empresa, não se abalando nem ao passear entre corpos. Reprodução/Wikimedia Commons

Mudança forçada

Os russos chegaram atrasados, mas também fizeram sua colheita. Ofereceram aos pesquisadores que sobraram algo que os americanos não podiam: a possibilidade de continuar vivendo na Alemanha. O físico Helmut Gröttrup, especializado no desenvolvimento de sistemas de orientação para mísseis, foi um que não aceitou a proposta dos Estados Unidos. Acabaria se arrependendo.

Gröttrup assumiu a direção de um centro de pesquisa e desenvolvimento de foguetes na cidade de Bleicherode. Os russos não tinham a papelada a respeito dos V-2 e contavam com o especialista para lembrar de como ele era fabricado. Em 1946, a instalação já produzia novamente os foguetes nazistas. Até que Stalin resolveu que a equipe, assim como os trabalhadores ligados à produção aeronáutica e nuclear, deveria ser realocada para território russo.

Em outubro de 1946, sem aviso prévio, aproximadamente 7 mil pessoas, incluindo famílias, foram retiradas de casa no meio da madrugada e colocadas em 92 trens rumo à União Soviética. Gröttrup estava entre elas. Sua indústria foi reinstalada na cidade russa de Podlipki. Cercado por técnicos alemães, viveu em terras russas até 1953. Os ex-nazistas, porém, não foram postos na chefia, como nos EUA. Suas ideias eram incorporadas pelas equipes de engenheiros russos, que as adaptavam em projetos próprios.

Em meados da década de 1950, os soviéticos haviam dispensado os alemães. Moscou considerava que já tinha aprendido tudo o que precisava. Gröttrup retornou para a Alemanha e migrou para o lado ocidental. Os profissionais nazistas não receberiam nenhum crédito soviético. Difícil sentir pena deles.

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