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O ocaso da Groenlândia Nórdica

Colonizada pelo briguento viking Eric, o Vermelho, a 2 500 quilômetros da Noruega, os habitantes da Groenlândia Nórdica desapareceram 400 anos depois da sua chegada. O que aconteceu com a poderosa sociedade viking?

Por Da Redação Atualizado em 31 out 2016, 18h27 - Publicado em 26 Maio 2012, 22h00

Pedro Pracchia

Colonização
Na história da colonização do Ártico, são recorrentes os casos de civilizações que surgiram e repentinamente desapareceram. O clima é frio, instável, inclemente, e suas oscilações são responsáveis pelo aparecimento e desaparecimento de plantas e animais. Na época da colonização nórdica, a ilha passava por um período de clima ameno. A vegetação se espalhou a ponto de o viking Eric batizar o lugar de “terra verde”. O nome otimista motivou três frotas de colonos a rumar para o local. Estabeleceram-se no ano 1000. Construíram igrejas e fazendas, reproduzindo o modelo de vida que conheciam na Europa. Era o posto mais avançado da civilização europeia.

Sociedade
Os vikings eram violentos e conservadores. Foram dos últimos povos europeus a se converter ao catolicismo. Registros de contatos com povos nativos descrevem banhos de sangue. Queimavam mulheres na fogueira como bruxas e resolviam seus problemas no machado.

A sociedade funcionava como uma federação livre, sem moeda ou economia estabelecida, dividida em feudos controlados por chefes e pelo clero. Nenhuma das fazendas era autossuficiente; dependiam de trocas para a subsistência. No auge da ocupação, chegaram a ter 250 fazendas, com 20 pessoas cada uma e edificações dispostas em torno das igrejas.

Durante o verão, caçavam focas, deixavam o gado pastar, produziam laticínios, cortavam madeira, faziam negócios com barcos que chegavam da Europa, produziam e estocavam feno. Tudo planejado para a sobrevivência no inverno, quando ficavam enclausurados tecendo, planejando novas habitações, fazendo reparos nas construções e controlando as provisões. Em pouco tempo, perceberam que vacas não se adaptavam ao frio. Eram necessários muitos recursos naturais para mantê-las. Mas não queriam abrir mão da carne bovina -nem de velhos hábitos. Importavam da Noruega artigos religiosos (sinos, vitrais, castiçais, vinho, linho, seda, prata e joias) e artigos de luxo para os membros da elite. Ferro e madeira ficavam em segundo plano. Exportavam lãs e peles de animais, ursos polares vivos e mortos, chifres de narval (uma espécie de baleia) vendidos como chifres de unicórnio e presas de morsa.

Frio e teimosia
As menores alterações no clima eram suficientes para afetar as pastagens de feno e a quantidade de gelo no mar, o que influía diretamente na caça às focas e nas atividades comerciais da pequena civilização. E o tempo foi esfriando cada vez mais, a ponto de isolar a ilha. A madeira, já escassa, acabou de vez. Além das construções, os nórdicos usavam lenha e carvão para fundir metal e para aquecer a água.

A turfa – vegetal musgoso que recobre o solo – passou a substituir a madeira nas casas e nas fogueiras. Sem essa “pele” natural, a erosão e os ventos fortes deixaram o solo fraco e pouco produtivo. O metal começou a ser reaproveitado até perder a utilidade. Colher feno, esquartejar uma carcaça ou tosquiar uma ovelha passaram a ter grande grau de dificuldade. Enquanto isso, do lado “não explorado” da Groenlândia, os inuits (esquimós) pescavam baleias e focas, usavam gordura de baleia para se aquecer e faziam suas casas de gelo, de acordo com Jared Diamond no livro Colapso.

O bloqueio cultural dos colonizadores os impediu de se aproximar do grau de adaptação dos inuits, e a sociedade viking definhou. Vacas, cabras e até cães de caça foram comidos. As pessoas morreram de frio e fome. A sociedade nórdica desapareceu da Groenlândia em 1400.

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