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Os três reis magos eram iranianos

Não é forçação de barra: a mitologia em torno deles pode ter origem no zoroastrismo, uma religião persa.

Por Da Redação - Atualizado em 6 jan 2020, 19h18 - Publicado em 31 dez 2001, 22h00

Os reis magos só são mencionados em um dos quatro evangelhos, o de Mateus. O texto diz que “magos do oriente” ficam sabendo do nascimento de Jesus e seguem uma estrela que os leva até Jerusalém.

Lá, eles seguem até o palácio real e perguntam a Herodes, o Grande, onde é que vai nascer o “rei dos judeus”.

O soberano consulta estudiosos das Escrituras, então, e informa aos magos que o nascimento deve acontecer não em Jerusalém, mas ali pertinho, em Belém. Então pede que eles voltem depois para confirmar se o Messias nasceu mesmo.

Os homens mais uma vez seguem a estrela, agora até Belém (a 10 quilômetros de lá). Agora sim, finalmente. Já na presença de José e Maria, oferecem seus presentes ao recém-nascido – ouro, incenso e mirra (uma especiaria usada como perfume, e para embalsamar corpos).

Depois, os sujeitos são alertados em um sonho que não, não devem contar a Herodes onde Jesus está, e voltam para casa por um caminho alternativo.

Claro: Herodes, que era ele próprio o “rei dos judeus”, não estava a fim de concorrência, então mandou seus soldados matarem todos os meninos com menos de dois anos na região.

Claro que tudo isso é mitologia. Nenhum historiador busca evidências de magos, premonições das Escrituras e estrelas-guias sobrenaturais, claro.

Acreditar em tudo isso ou não é questão de fé nos textos sagrados. Ponto. Mesmo assim, alguns elementos dessa fé distanciaram-se do que está na Bíblia.

Por exemplo: não há menção a “reis” no Novo Testamento. Pois é. “A tradição popular é que definiu isso, porque trouxeram presentes caros”, diz o teólogo Irineu Rabuske, da PUC do Rio Grande do Sul. O Evangelho, aliás, nem diz que eles eram três: só se sabe que eram mais de um, já que são mencionados no plural.

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Nos 12 versículos em que trata do assunto, Mateus também não especifica quantos eram os tais magos. Como o grupo levou três presentes, porém, a tradição acabou derivando a ideia de que cada um teria trazido um tesouro para o bebê, e assim eles viraram um trio.

Os nomes deles também não aparece. As alcunhas “Gaspar”, “Melquior” e “Baltazar” são de textos bem mais recentes que o Novo Testamento (escrito entre os séculos 1 e 2). Cerca de 800 anos depois do nascimento de Jesus, eles ganharam nomes e locais de origem: Melchior, rei da Pérsia; Gaspar, rei da Índia; e Baltazar, rei da Arábia.

Em hebreu, esses nomes significam “rei da luz” (melichior), “o branco” (gathaspa) e “senhor dos tesouros” (bithisarea). “São personagens criados pelo autor do Evangelho de Mateus para simbolizar o reconhecimento de Jesus por todos os povos”, diz André Chevitaresse, professor de História Antiga da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

O mais provável é que esses personagens de Mateus sejam inspirados em sacerdotes do zoroastrismo, uma religião persa ligada à astrologia – daí a “estrela de Belém” e o “vindos do oriente”, onde ficava a Pérsia (que hoje se chama “Irã”).

Bom, se eles foram imaginados como persas mesmo, essa história tem algo de inusitado do ponto de vista geopolítico, como lembra o americano John Dominic Crossan, de 85 anos e considerado o maior especialista vivo em Novo Testamento: “Acho irônico que, no meu país, nós tenhamos três iranianos nos nossos presépios”.

Entenda o dia 06 de janeiro

Mas, ei: se Jesus nasceu no dia 25 de dezembro, como é que os reis magos chegaram lá só dia 06/01 – e ainda presenciaram o nascimento? A real é que tanto o Natal quanto o Dia de Reis são datas de outras celebrações.

25 de dezembro era o dia do deus Sol em Roma (outra divindade persa, chamada originalmente de “Mitra”). No século 4, a Igreja Católica decidiu comemorar nesse feriado o nascimento de Jesus (cuja data não consta na Bíblia).

O 06 de janeiro foi a data que a Igreja Ortodoxa tinha adotado para o nascimento. A Igreja de Roma, também no século 4, decidiu respeitar a sacralidade do 06 de janeiro. Mas, como o Natal já estava com outra data reservada, decidiram que o 06/01 celebraria a chegada dos Reis Magos. E o trio de iranianos acabou com fama de atrasado.

 

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