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Prometeu, mártir e herói

Um dos mais poderosos mitos de todos os tempos conta a tragédia do titã que roubou o fogo do Olimpo para dá-lo aos homens. Simboliza o eterno combate pela liberdade e o conhecimento.

Por Da Redação - Atualizado em 31 out 2016, 18h10 - Publicado em 31 mar 1990, 22h00

Para os antigos gregos, a conquista do fogo estava intimamente ligada à luta pela liberdade. Basta ver como eles contavam a história do domínio do fogo — num dos mais poderosos mitos já criados pelo homem. Existia no Olimpo, a montanha em que moravam os deuses, um titã (deus gigante) muito brincalhão, chamado Prometeu (que significa o que pensa antes), descendente do casamento de Urano, o céu, com Gea, a Terra. Eles tiveram, entre outros filhos, Japetos, que viria a ser pai de Prometeu. Como Zeus, a divindade suprema, era filho de Cronos, o tempo, irmão de Japetos, Zeus e Prometeu eram primos. Ora, Prometeu vivia fazendo artes e piadas. Uma de suas brincadeiras, justamente, foi criar o ser humano, ou melhor, só o homem, o sexo masculino, e colocar nele uma centelha do fogo divino, a alma. Os homens assim criados assumiram o compromisso de homenagear Zeus com sacrifícios animais. Em troca, podiam usar o fogo, até então considerado exclusivo das divindades.

Mas pouco depois Prometeu fez outra brincadeira: escondeu a carne de um animal sacrificado, de modo que Zeus ficou só com os ossos e a gordura. Irritado ao descobrir o engano, Zeus retirou o fogo dos homens e proibiu que eles o utilizassem novamente. Os homens começaram a passar frio e fome, pois não podiam mais usar o fogo nem para se aquecer, nem para cercar a caça, nem para moldar as armas usadas na caça, nem para cozinhar os alimentos, dos quais muitos, como os cereais, deixaram assim de ser comestíveis. Penalizado com a situação dos homens — afinal ele fora o seu criador —, Prometeu fez uma brincadeira a sério: roubou uma brasa da forja de Hefaistos, o deus ferreiro, escondeu-a no oco de um pau, com o qual saiu do Olimpo, sem que os outros deuses percebessem que desse modo ele estava entregando o fogo de novo aos homens. Com isso, os homens puderam voltar a fazer tudo o que precisavam para sobreviver.

Quando soube que o fogo tinha sido roubado do Olimpo, Zeus ficou furioso e resolveu se vingar duplamente: dos homens e de Prometeu. Dos homens, Zeus se vingou criando a primeira mulher, Pandora, com a idéia de que as mulheres passassem a infernizar-lhes a vida. E, de fato, Pandora logo seduziu Epimeteu (que significa, o que só pensa depois), um irmão menos esperto de Prometeu. E Epimeteu, ao contrário do que lhe aconselhava o irmão, casou-se com Pandora. Esta então abriu uma caixinha — os antigos, por sinal, designavam o objeto “caixinha” pela palavra “boceta”— e da caixinha ou boceta saíram todos os males que desde então têm atazanado os homens, como as discórdias, as doenças e a necessidade de trabalhar duro para sobreviver. Em seguida, Pandora fechou a tampa da caixinha, com o que ficou presa dentro dela a Esperança, desde então inacessível aos homens. Contra Prometeu, a vingança de Zeus foi particularmente cruel.

O deus supremo ordenou que o deus ferreiro Hefaistos forjasse uma corrente indestrutível, de elos invioláveis — incumbência que ele aceitou de bom grado porque afinal fora de sua forja que Prometeu roubara o fogo. Com essa corrente a toda prova, Prometeu ficou acorrentado ao alto de um pico no Cáucaso — onde hoje fica a Geórgia, na União Soviética, portanto bem longe do Olimpo grego — condenado a ter o fígado eternamente devorado por uma águia. Cada vez que a águia terminava de devorar todo o fígado de Prometeu, a víscera renascia e a águia começava de novo a devorá-lo. Esse castigo impiedoso — e acima de tudo injusto, pois que mal podiam os homens mortais fazer com o fogo contra os deuses imortais? — deveria em princípio durar eternamente. E durou mesmo alguns séculos ou milênios, até que o herói Héracles (Hércules, para os romanos) entrou em cena. Para os gregos antigos, um herói era o filho de uma divindade com um ser humano, sendo portanto mais poderoso que um homem, mas não imortal como um deus. No caso, Héracles era filho de Zeus com a humana Alcmena. Ele matou a águia e com sua força literalmente hercúlea arrebentou a corrente dita indestrutível, libertando Prometeu.

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O mito de Prometeu acabou se tornando a metáfora de um mártir pela liberdade, a terrível saga de quem ousa se contrapor à tirania arbitrária dos que governam o destino humano, como no caso de Zeus. Prometeu representa também um símbolo da luta pela civilização e a cultura, pois diz a lenda que, com o fogo, ele outorgou também à humanidade, as artes e as ciências. A aventura da busca do conhecimento, a matéria-prima da liberdade, imprimiu na mente humana, desde os tempos antigos, um claro sentido de tragédia. O sofrimento de Prometeu, ao menos, é redimido pela intervenção de Héracles. Outra lenda, porém, é irremediavelmente implacável: a expulsão de Adão e Eva do Éden não teve volta. Eles foram punidos por provarem do fruto da árvore do bem e do mal, ou seja, por terem se apropriado de uma preciosidade, o saber, tão exclusivo da divindade como o fogo dos senhores do Olimpo.

A história emocionante da conquista do fogo e da cultura por Prometeu há milênios inspira poetas e prosadores, suscitando diversas interpretações do mito. Um dos primeiros foi o grego Ésquilo (525-456 a.C.), que em sua peça Prometeu acorrentado, até hoje considerada um hino à liberdade, mostra Prometeu, preso à montanha e perseguido pela águias conversando com sucessivos visitantes que lhe trazem notícias. O titã reage violentamente contra o castigo imposto por Zeus. Sabe-se que Ésquilo escreveu ainda dois outros textos sobre o mesmo tema, Prometeu libertado e Prometeu traz o fogo, mas essas peças se perderam. Cerca de 23 séculos depois, o dramaturgo alemão Johann Elias Schlegel, em 1797, e o poeta inglês George Gordon Byron, em 1816, escreveram também sobre Prometeu. Nessa época, o personagem inspirou uma das maiores mudanças na história da música ocidental. Até fins do século XVIII, de fato, não era costume os grandes compositores fazerem música de balé, deixada para autores quase desconhecidos. Mas o alemão Ludwig van Beethoven (1770-1827) abriu a primeira exceção para uma coreografia do italiano Salvatore Vigno e em 1801 compôs a música do balé As criaturas de Prometeu.

Exatamente dois decênios mais tarde, o poeta inglês Percy Bysshe Shelley (1792-1822), que passou os últimos anos da vida na Itália, lançou em 1821 a peça em versos Prometeu libertado. Shelley continuou a história de Ésquilo: Prometeu, que representa a espiritualidade, consegue destronar Zeus, símbolo do apego às coisas materiais, e assim começa uma nova idade de ouro para a humanidade. Depois foi a vez do suíço Carl Spitteler (1845-1924), que em 1880 publicou a epopéia Prometeu e Epimeteu, em que dá vazão a sua espiritualidade aristocrática e pessimista, que quer distância dos outros seres humanos. Não satisfeito com a beleza formal de sua obra, Spitteler tornou a publicá-la, reescrita, em 1924, por sinal, ano de sua morte, acrescentando ao trabalho uma recusa ao progresso material.

Talvez mais característica do espírito moderno seja a versão do francês André Gide (1869-1951), que em 1899 lançou o conto filosófico Prometeu mal acorrentado, fazendo uma reflexão sobre a luta de cada ser humano para conquistar seus próprios valores individuais e não os valores impostos pela sociedade. Gide escreve que Prometeu conseguiu comer a águia, símbolo das paixões que fazem o homem sofrer, e assim reencontrou seu equilíbrio. O titã da mitologia grega sobrevive ainda no nome do metal raro promécio, elemento ainda não encontrado na natureza, mas isolado em laboratório em 1947 — tal como o homem apropriou-se do fogo milênios atrás.

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Para saber mais:

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– Força, fígado

– Na montanha dos deuses

 

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