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Vidro

Ele nos trouxe copos, óculos, microscópios, espelhos e uma nova maneira de ver o Universo. Conheça a história do material que revolucionou a arte, originou a ciência e fez o Ocidente superar o Oriente

Juliana Carpanez

No século 16, as pinturas passaram a retratar o mundo de maneira fiel. Em grande parte da Europa, e principalmente na Itália, quadros até então cheios de símbolos e imagens achatadas deram lugar a figuras reais com informações confiáveis sobre espaço, luminosidade e perspectiva. Foi uma revolução para a cultura humana que deu origem ao Renascimento e precipitou o desmoronamento da ordem social medieval, mas por trás dessa enorme ruptura histórica está uma invenção banal: o espelho. Um dos mestres da época, Leonardo da Vinci, sempre comparava a figura da tela com aquela refletida em um vidro metalizado. Esse macete se espalhou por diversos artistas e se cristalizou em um movimento que valorizava o real e o humano em vez do divino. Graças ao vidro, o Renascimento mudou o mundo.

Não foi a primeira vez que o vidro causou revoluções. Sem ele, a trajetória da humanidade – e especialmente a do Ocidente – seria totalmente diferente. “Algumas substâncias, como madeira, bambu, pedra e argila, podem substituir esse material em algumas situações. Mas o vidro combina diversos usos práticos com a capacidade de aumentar nosso sentido mais potente, a visão, e nosso órgão mais formidável, o cérebro”, dizem o antropólogo Alan Macfarlane e o historiador Gerry Martin no livro Glass – A World History (“Vidro – Uma História do Mundo”, sem versão em português).

Pense na vida sem lâmpadas. Se o vidro não existisse, seria impossível produzir luz artificial, tornando tochas e velas indispensáveis. Não haveria espelhos, aparelhos de TV, computadores, rádios, máquinas fotográficas, óculos e lentes de contato. Carros, trens, helicópteros e aviões não poderiam circular, pois as janelas protegem pilotos e passageiros sem atrapalhar sua visão. Talvez esses veículos não fossem nem inventados. Se você gosta das tecnologias e confortos do mundo moderno, agradeça ao vidro mais perto de você. Grande parte do nosso conhecimento do Universo precisou de lentes e lâminas. Os microscópios possibilitaram o desenvolvimento da medicina, a criação de remédios, os estudos sobre vírus e bactérias e a descoberta do DNA. Nos telescópios, as mesmas lentes foram responsáveis pelo entendimento do espaço, destacando planetas e galáxias invisíveis a olho nu.

A humanidade está mergulhada na utilização do vidro, essencial à arte, à tecnologia, à ciência e ao nosso bem-estar. Usamos esse material com tanta freqüência em nosso dia-a-dia que nem o percebemos – ele se torna, digamos, invisível. Para ter noção de sua grandeza é necessário deixar de olhar o que está atrás de cada lâmina e focar toda sua atenção nela mesma, por mais difícil que isso possa parecer.

Fogueira das novidades

É impressionante que tanta coisa tenha sido feita com um material que, em última análise, não passa de areia. Esquente os grãos a mais de mil graus centígrados e eles viram um líquido que, ao esfriar, se solidifica como vidro. Dependendo da fôrma em que você a colocar, essa sopa de areia se transforma em coisas tão diferentes quanto um vaso, uns óculos ou uma janela. Essa receita básica se sofisticou com o tempo e passou a incluir outros elementos, dando origem a milhares de tipos de vidro. Para aumentar a resistência, mudar de cor ou facilitar a produção, passou-se a acrescentar substâncias como soda cáustica, urânio, cal, alumínio ou chumbo. No entanto, algumas dessas impurezas correm o risco de escurecer o vidro – apenas o material em estado puro é transparente.

Ninguém sabe direito como é que a humanidade descobriu essa nova substância. Uma das hipóteses mais aceitas fala que foi há 4 mil anos, em fogueiras feitas sobre solo arenoso que, queimado, dava origem ao líquido. Nas regiões onde a descoberta aconteceu – pelas redondezas do Oriente Médio, provavelmente Egito e Mesopotâmia – a intenção dos descobridores obviamente não era estudar microorganismos ou observar planetas. Eles o usavam principalmente para criar objetos decorativos, como vasos e potes. Mesmo assim, os objetos envidraçados viraram moda e se espalharam por todo o Mediterrâneo entre 1500 e 100 a.C. Foi nessa época que muitos novos objetos e técnicas de fabricação de vidro se desenvolveram.

Por volta de 2 d.C., a história do vidro cruzou com a de um personagem histórico mais conhecido: o Império Romano. Viciados nesse material, eles abusavam dele em vitrais, lentes, espelhos, na decoração de interiores e, é claro, em taças transparentes para beber o tão apreciado vinho. Os romanos criaram a base para o mundo envidraçado em que vivemos hoje e espalharam a matéria por toda a Europa.

O Ocidente passou a viver entre belos potes, vasos e janelas, mas, convenhamos, essas não são coisas capazes de mudar o rumo de civilizações. Quando o vidro iria mostrar a que veio? Uma primeira revolução aconteceu em 1285, no norte da Itália, época em que surgiram os primeiros óculos da história. As milhares de pessoas que dependem deles para ler este texto sabem que essa novidade sem dúvida mudou o mundo. Não demorou muito: ela logo se espalhou pela Europa e foi capaz de prolongar a vida profissional de trabalhadores em 15 anos ou mais. Uma prova do poder de fogo do apetrecho veio em 1445, com a invenção da prensa de Gutenberg: as publicações passaram a ter um padrão pequeno de letras e a venda de óculos explodiu. Era só a primeira revolução feita pelo vidro.

Novos mundos

Nem todas as alternativas de vidro disponíveis hoje existiam há centenas de anos. Mesmo com recursos tão limitados, cientistas de diversas épocas viram no material uma ferramenta bastante útil para entender as leis da natureza. No final do século 16, havia um clima de curiosidade, de busca por respostas, uma crença de que leis da existência se escondiam em um universo invisível e o papel do homem era descobri-las. Para testar as novas idéias que surgiram, era preciso abrir as portas desses mundos escondidos, e a chave estava nos vidros – fossem eles de microscópios, telescópios ou simples frascos. Foi o berço da ciência como a conhecemos – o estudo do mundo por meio do tripé verificação, repetição e possibilidade de contestação. Tudo naquele estilo de quem só acredita vendo.

O vidro é essencial nos laboratórios. É fácil de limpar, selar, moldar, pode ser utilizado como isolante, condutor, é resistente a altas temperaturas e agüenta fortes pressões, como aquelas criadas pelo vácuo. E, é claro, é transparente. Outra vantagem no campo da ciência é a realização de experiências em frascos de vidro. “Salvo raras exceções, este material interfere pouco nas reações químicas, porque a força de união entre seus átomos é muito alta. Portanto, não contamina o que está dentro dele”, diz o físico Walter Maigon Pontuschka, da USP.

Em meados do século 17, cientistas de várias partes da Europa começaram a combinar e aperfeiçoar lentes de aumento até chegar a algo bem parecido com os microscópios ópticos de hoje. Em 1665, na Inglaterra, o cientista Robert Hooke utilizou um desses instrumentos para observar pequenas cavidades em um pedaço de cortiça. Deu a elas o nome de células. Também analisou fósseis microscópicos a ponto de ter alguns dos primeiros indícios de que a evolução existia. Na mesma época, na Holanda, Antonie von Leeuwenhoek descobria bactérias e protozoários em qualquer objeto que colocasse embaixo de suas lentes. Esses instrumentos chegaram com poucas modificações até o século 20, quando deram origem a microscópios de elétrons e de tunelamento, capazes de estudar objetos pequenos como átomos.

A revolução causada pelo microscópio pode ser comparada às mudanças ocorridas com a invenção do telescópio, que também ocorreu no início do século 17. Trazer o distante para perto e revelar astros até então invisíveis criou a confiança de que o Universo possuía muitos fenômenos e verdades que se mal conheciam. A principal conseqüência dessa novidade, assim como daquela que revelou o mundo microscópico, foi a transformação dos conceitos e a crença de que nem sempre o óbvio é necessariamente o real.

Vida sem vidro

Mas será que muitas dessas evoluções não teriam ocorrido mesmo que nunca tivéssemos descoberto o vidro? Um bom retrato da importância do material está nos países que até o conheciam, mas não levavam seu uso a sério. No século 17, acessórios feitos com essa matéria foram levados para civilizações islâmicas, Índia, Japão e China, mas não fizeram sucesso. Isso porque nesses locais valorizavam-se muito os objetos de argila e porcelana, produzidos com arte havia gerações. “Os orientais têm curiosidade sobre vidros e cristais europeus, mas não sentem falta deles, pois acreditam que sua porcelana seja de ótima qualidade. Ela agüenta líquidos com altas temperaturas, não transmite para as mãos o calor dos chás, tem muito brilho e é bastante resistente”, escreveu Du Halde, um jesuíta francês que visitou a China no século 18.

Com tantas qualidades, mudar para quê? A resposta só veio tempos depois, quando a diferença entre regiões que utilizavam e não utilizavam o vidro pôde ser observada. Quando os jesuítas foram para a China, no século 17, serviram-se do material para impressionar os habitantes locais com seus conhecimentos sobre óptica, geometria e astronomia. Somente um século depois da chegada dos missionários, os orientais descobriram a importância de estudos que envolviam objetos transparentes. Com os japoneses a história foi idêntica. No século 18, eles redescobriram a matéria esquecida durante séculos e foram à loucura com os microscópios, ou mikorosukopyumu. “Cristais de sal têm forma hexagonal, enquanto a farinha é triangular. O mofo se parece com cogumelos e saquê é como água fervendo, cheio de bolhas em movimento”, descreveu um japonês maravilhado com a visão do mundo micro, então já bastante explorado pelos europeus.

A falta de óculos também pode ter influenciado a cultura desses dois últimos países, onde os habitantes têm dificuldades para enxergar longas distâncias, principalmente por uma questão genética. No caso do Japão, essa característica deu origem ao kabuki, teatro que enfatiza a interpretação corporal (o rosto dos atores é pintado com expressões fixas), algo fácil de ser identificado de longe. Já na China, a pintura típica tem seu fundo sempre borrado, sem definição exata, como a visão de um míope.

Essas histórias ficam ainda mais impressionantes quando lembramos que, até a Idade Média, o mundo árabe e o asiático estavam muito à frente da atrasada Europa. O livro de Macfarlane e Martin dá a entender que o vidro tenha muito da responsabilidade pela ultrapassagem tecnológica do Ocidente sobre o Oriente – um fenômeno histórico que se prolonga até hoje. O final da história é que, depois de usar o vidro para conquistar o mundo, o Ocidente criou formas de substituí-lo em muitos casos por outros materiais, como o plástico. Ê, ingratidão!

Para saber mais

Na livraria:

Glass – A World Histoy – Alan Macfarlane e Gerry Martin, The University of Chicago Press, 2002

O Vidro – Os Estilos na Arte – Giovanni Mariacher, Martins Fontes, 1992

O Vidro e sua Fabricação – Samuel Berg Maia, Interciência, 2003

Na internet:

http://www.glassart.org – Sociedade da Arte em Vidro

http://www.museumofglass.org – Museu de peças de vidro