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Como os morcegos usam seus sonares para atrapalhar uns aos outros

Às vezes, você precisa conquistar sua comida no grito

Por Victor Bianchin 26 jan 2026, 08h15 | Atualizado em 4 jun 2026, 16h33
Como os morcegos usam seus sonares para atrapalhar uns aos outros Priorizar nos meus resultados Google

Entre os insetos, é comum observar comportamentos de sabotagem a grupos rivais: algumas espécies de formiga, por exemplo, atacam trilhas rivais com feromônios de distração para interromper o fluxo de alimento. Outras, como da espécie Novomessor cockerelli, bloqueiam a entrada dos formigueiros de outras espécies com pedras e areia para atrasar seu trabalho. É uma selva lá fora!

Em mamíferos, esse comportamento não é tão comum, mas acontece. O morcego-de-cauda-livre-brasileiro (Tadarida brasiliensis), também chamado popularmente de morcego-orelhudo-mexicano, é um desses casos. Encontrada em várias regiões do Brasil, a espécie também está em grande parte das Américas, desde o sul dos EUA até o Uruguai.

As colônias desse pequeno animal podem chegar às centenas de milhares de indivíduos. Com tanto morcego assim disputando comida (sua refeição favorita são pequenos insetos, como besouros e mariposas), não é de admirar que a espécie tenha desenvolvido táticas para afastar competidores.

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Assim como é comum entre morcegos, os cauda-livre voam pela escuridão para capturar presas, emitindo ondas sonoras agudas (um processo chamado de ecolocalização) que rebatem nas presas — uma onda sonora que volta rapidamente é sinal de que a comida está próxima. Essa habilidade é vital para o forrageamento, ou seja, a exploração do ambiente em busca de alimento. Mas há quem queira melar esse processo.

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Um estudo de 2014 descobriu que esses morcegos ativamente tentam atrapalhar o forrageamento dos colegas. Os morcegos interferentes produzem um sinal ultrassônico exatamente no momento em que o morcego que busca alimento emite seu chamado de alimentação. Com isso, eles “bloqueiam” os sinais de ecolocalização dos rivais e fazem com que errem seus alvos.

“Um morcego estava tentando capturar um inseto usando sua ecolocalização. O segundo morcego emitia outro som que me pareceu uma tentativa de interferir ou interromper a ecolocalização do primeiro. Na maioria das vezes, quando o segundo morcego emitia esse som de interferência, o morcego que tentava capturar a mariposa errava o alvo”, descreveu Aaron Corcoran, biólogo da Universidade Wake Forest (EUA), que liderou o estudo.

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Para realizar a pesquisa, os cientistas instalaram microfones ao longo dos trajetos feitos pelos morcegos e mediram as diferenças de tempo entre os sons. Alguns desses sons foram gravados. Em seguida, foi feito um experimento: os pesquisadores tocaram esses sons para morcegos que estavam prestes a atingir um alvo. Resultados: esses animais erravam as presas, atrapalhados pelo som.

Foi um estudo importante porque foi a primeira evidência de um animal que utiliza sinais acústicos para bloquear ativamente o sistema sensorial de um congênere em uma competição alimentar.

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De 2014 para cá, houve novas descobertas: em 2022, um estudo descobriu que os morcegos da espécie Myotis daubentonii aumentam a intensidade de suas ondas para contrabalancear sons de interferência. O próprio Aaron Corcoran publicou uma pesquisa subsequente, também em 2022, onde apontou uma nova descoberta: os morcegos usam estratégias diferentes para dispensar os concorrentes dependendo da quantidade de rivais.

Quando há poucos morcegos competindo por comida, os animais emitem uma espécie de canto, destinado a afastar rivais. Já quando há muitos indivíduos caçando ao mesmo tempo, eles usam os sinais de interferência. Isso indica uma adaptação flexível às condições competitivas no ambiente.

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