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Informação é comida. Escolha bem o que você consome.

O feed é como um pacote de salgadinhos: viciante e praticamente sem nutrientes. Entenda como a analogia entre conteúdo e alimentação pode ajudar a lidar com a informação.

Por Maria Clara Rossini 15 jul 2026, 12h00
Informação é comida. Escolha bem o que você consome. Priorizar nos meus resultados Google

Durante a maior parte da história da humanidade, comida era algo difícil de encontrar. Ingerir uma refeição gordurosa ou açucarada, com muitas calorias, era como ganhar na loteria. Quem conseguisse absorver e armazenar o máximo de energia podia passar mais tempo sem comer – uma vantagem quando toda refeição era incerta.

Carregar um pneuzinho no abdômen era um baita negócio. Ter um apetite especial por comidas calóricas, também. Os indivíduos viciados em gordura e açúcar tinham mais chances de sobreviver, se reproduzir, ter seus genes transmitidos para gerações futuras. É por isso que, hoje, ninguém resiste a hambúrgueres e sorvetes.

Evolução dos humanos acelerou nos últimos 10 mil anos

 

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Já faz alguns milhares de anos que não somos mais caçadores-coletores. Hoje temos fontes quase inesgotáveis de calorias. O problema é que somos uma máquina com peças e manual de instrução de centenas de milhares de anos atrás. Nosso corpo reluta em se livrar dos quilos extras (mesmo com dieta e exercícios), e isso pode gerar problemas de saúde. O excesso de calorias, antes uma vantagem, virou problema.

Nada disso é novidade, claro. Mas o divulgador científico Hank Green propõe um raciocínio interessante: usar a história da alimentação como analogia para a forma como consumimos conteúdo. Vamos explicar.

Em falta

A informação também era escassa na Pré-História, e em alguns casos era tão importante quanto a comida. Um farfalhar de folhas poderia indicar a presença de um predador. Era necessário extrair o máximo de informação a partir de um sinal sonoro – o tamanho do bicho, qual era sua distância e para qual direção correr. Quem conseguisse processar e armazenar esse conhecimento de maneira mais eficiente saía na frente.

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A convivência em grupos cada vez maiores, com relações sociais complexas, também exigiu um processamento mais rápido, preciso e eficiente da informação. A hipótese do cérebro social, uma das mais aceitas para explicar nosso desenvolvimento cognitivo, aponta a comunicação entre indivíduos como um dos principais motores evolutivos dessa massa cinzenta.

O acesso à informação ficou mais fácil com o surgimento da escrita, 5 mil anos atrás. Assim como a comida, o conhecimento chegava primeiro a uma elite alfabetizada. A imprensa no século 15 e o rádio e a televisão no século 20 democratizaram a coisa.

Mesmo assim, durante a maior parte da História ainda havia algum esforço para chegar à informação. Até algumas décadas atrás, era necessário ir à biblioteca, ler o jornal ou consultar enciclopédias para descobrir algo novo.

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Não é mais assim. O Brasil tem 272 milhões de celulares em uso – 1,3 dispositivo por habitante. Diferentes estudos associam o uso intenso de smartphones e redes sociais a problemas de sono, ansiedade, depressão, dificuldade de concentração, entre outros.

Evoluímos para enfrentar um cenário de escassez de comida e de informação, e agora tentamos resolver os problemas que vieram com a hiperabundância.

Os novos ultraprocessados

Até os anos 1980, a dieta brasileira era quase toda composta de comida de verdade – alimentos de origem animal ou vegetal que passaram por nenhum ou pouco processamento. Foi por volta daquela época que os produtos ultraprocessados começaram a ganhar espaço nos supermercados.

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Esse tipo de alimento parte de uma matéria-prima básica (milho, soja, etc.) que é processada para gerar ingredientes que não existem sozinhos na natureza (amido modificado e gordura hidrogenada, por exemplo). Em seguida, são recombinados para virar um novo produto, que é entuchado de aditivos para dar cor, sabor e textura agradáveis: salgadinho de pacote, macarrão instantâneo, biscoito recheado, refrigerante… 

Os aditivos dão a esses produtos um sabor e aroma extremamente intensos, algo que os pesquisadores chamam de “hiperpalatáveis”. O resultado é um bug no nosso cérebro, que não consegue se contentar em comer pouco. Para piorar, esses alimentos costumam ter poucos nutrientes e quase nenhuma fibra, o que nos daria a sensação de “barriga cheia”. Almoce em um fast food e às 15h você já estará com fome de novo.

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Nada disso é por acidente. As empresas competem pelos clientes criando sabores cada vez mais atraentes e palatáveis, que ativam os circuitos de desejo do cérebro e os fazem ansiar pelo próximo salgadinho. De repente, a comida de verdade perde a graça.

Em um caminho similar ao da indústria alimentícia, as big techs, como Google, Meta e ByteDance (dona do TikTok), passaram anos testando fórmulas até encontrar a maneira mais irresistível de empacotar a informação e entregá-la ao usuário. Hoje, os vídeos curtos combinados a um algoritmo refinadíssimo são o estado da arte de captura de atenção.

Rolar o TikTok é como comer um pacote de salgadinhos. É um poço de prazer, mas na maioria das vezes não entrega os “nutrientes” necessários para a sobrevivência. Nessa analogia proposta, os nutrientes seriam o conhecimento necessário para navegar e interpretar o mundo ao nosso redor. É o que aprendemos na escola, na faculdade, com livros e notícias aprofundadas, por exemplo. Não é incomum terminar o dia com três horas passadas no Instagram e ainda sentir que não absorvemos nada.

(Curiosamente, o termo brain rot, que se refere a um conteúdo superficial, significa “cérebro podre”, adjetivo que usamos para comida).

Isso não significa que faça mal o tempo todo. Tá tudo bem comer um bombom de vez em quando. E assistir a alguns vídeos bobos pode ser divertido. O problema é quando eles passam a ser sua principal fonte de consumo – seja para se alimentar ou para se informar.

Sabemos que adotar uma alimentação saudável não depende só de força de vontade. Ela passa por questões psicológicas, econômicas e sociais. Nem todo mundo tem tempo de cozinhar em casa – e aí uma coxinha com energético no caminho do trabalho pode virar um café da manhã. Vídeos encaminhados por WhatsApp, stories, trends e memes acompanham a correria do dia a dia.

Como a comida, informação de qualidade também custa tempo e dinheiro. Consumir conteúdo “offline”, sem notificações apitando ou a tentação de abrir o TikTok a cada minuto, tem se tornado sinal de status e de saúde mental.

São problemas que precisam de políticas públicas, como o acesso amplo a alimentos saudáveis e a regularização das plataformas. Mas vale a reflexão para o dia a dia. Num cenário em que o desgaste mental é cada vez mais frequente, devemos pensar sobre o que estamos consumindo no feed do celular da mesma forma que nos importamos com o que vai no nosso prato. Isso dificilmente vai eliminar o vício das redes, mas pode nos ajudar a tomar decisões mais conscientes.

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