GABRILA65162183544miv_Superinteressante Created with Sketch.

A hepatite que ia para o arquivo X

Lúcia Helena de Oliveira

Há seis meses, os cientistas desvendaram um dos maiores mistérios da Medicina. Eram 50 milhões de inexplicáveis casos de inflamação no fígado, surgidos nos últimos nove anos. Depois de uma tremenda investigação internacional, finalmente encontraram o culpado. Trata-se de um novo vírus da doença, identificado como tipo G.

As vítimas não sentiam nada. Em apenas um de cada dez casos, surgiam sintomas, como febre e sensação de quebradeira no corpo, lembrando uma gripe. De repente, os médicos descobriam que esses indivíduos tinham o fígado danificado por uma hepatite, nome genérico para as inflamações desse órgão vital (veja infográfico abaixo). Mas não conseguiam encontrar nenhum vírus. “Esses casos eram chamados hepatite X, porque a gente não sabia quem estaria atacando o organismo daquele jeito”, lembra Harold Margolis, do Centro de Controle de Doenças (CDC) em Atlanta, Estados Unidos. Cerca de 4% de todas as hepatites eram X. Em janeiro passado, X virou G, o sexto tipo de vírus causador da doença, isolado graças a uma cuidadosa investigação realizada nos Estados Unidos, Austrália, Alemanha, Inglaterra e Grécia.

Depois de examinar 877 doadores de sangue americanos, os cientistas do CDC concluíram que 1,7% deles são portadores do vírus G. “No Brasil, a porcentagem deve ser assustadoramente maior”, garante o gastroenterologista Hoel Sette Júnior, diretor do Hospital Emílio Ribas, em São Paulo, que está realizando as primeiras análises em doadores brasileiros, cujos resultados serão divulgados em setembro. Nem todos vão desenvolver a doença, mas podem transmiti-la.

Ninguém sabe se o mal tem remédio

As hepatites receberam o nome de letras à medida em que foram descobertas (veja quadro ao lado). Tudo indica que o Brasil tenha casos de A a G, mas a notificação oficial não é obrigatória no país. “Esse é um dos nossos maiores problemas de saúde pública e ficamos sem saber o tamanho da encrenca”, critica Hoel Sette Júnior. Atualmente, a maior preocupação dos especialistas é a hepatite C. Não é à toa: estima-se que existam 300 000 brasileiros com o vírus causador da doença e, metade deles, nem desconfia.

A hepatite G também é uma doença grave e igualmente transmitida pelo sexo ou por transfusão de sangue. Ela não gera aqueles sintomas clássicos como a cor amarelada da pele ou enjôos. “Durante oito a vinte anos, o fígado sofre calado”, diz Sette. “Quando o mal é percebido, o paciente pode estar com cirrose avançada ou câncer hepático.”

“Por enquanto, porém, os testes genéticos são a única forma de descobrir se alguém é portador ou não”, explica o gastroenterologista Antonio Eduardo Silva, professor da Escola Paulista de Medicina. “Em um futuro breve, devem surgir exames mais simples.” Segundo o médico, detectar os portadores é fundamental. “Na hepatite C, o uso de medicamentos pode eliminar o vírus antes de maiores danos”, compara.

Os cientistas sabem que o vírus G é muito parecido com o C. Para este, a medicação mais usada é o interferon. Ela age de dois modos: pode matar o vírus e ainda estimular o sistema imunológico. “Mas o tratamento só funciona em um quinto dos casos e os efeitos colaterais, como enjôos, são terríveis”, diz Silva. Ele e sua equipe vêm testando o uso de uma nova droga, a ribavirina, que não causa as mesmas conseqüências desagradáveis. A dúvida é se ela pode ou não eliminar os vírus C. Uma dúvida maior ainda é se algum desses medicamentos conseguirá derrotar o novo vírus G.

PARA SABER MAIS

NA INTERNET:

Centre of Disease Control (CDC), http://www.cdc.gov/ncidod/diseases/ hepatitis/hepatitis.html

O fígado faz-tudo

Ele realiza nove tarefas simultâneas. Qualquer falha em uma delas faz o corpo inteiro correr perigo

Trituração

Quebra as moléculas das substâncias absorvidas pelo corpo, como as da comida.

Defesa

Destrói eventuais micróbios que driblaram as defesas do intestino e chegam junto com os alimentos.

Renovação

Elimina as células sangüíneas que já estão velhas demais.

Seleção

Separa as moléculas que podem ser úteis das que são tóxicas.

Transformação

Faz os nutrientes virarem energia ou matéria-prima para as células do corpo.

Fabricação

Produz a bile, para o intestino digerir as gorduras, e os fatores de coagulação do sangue.

Limpeza

Processa o lixo do organismo, transformando-o na uréia que será eliminada pelos rins.

Armazenagem

Estoca energia para qualquer eventualidade.

Socorro imediato

Nos jejuns muito prolongados, extrai proteínas dos músculos, que são transformadas em energia para o coração e o cérebro.

A ação dos vírus

Existem agentes que atacam diretamente o fígado. Outros levam o próprio sistema imunológico a partir para o ataque. Tudo indica que os vírus C e G da hepatite são terríveis porque podem agir das duas maneiras.

Ataque direto

Os vírus das hepatites A e D usam o fígado para se multiplicar. Depois de terem feito várias cópias de seu material genético, eles estouram a célula invadida. Os “clones” infectam as células sadias ao redor e assim por diante. Se a doença não é controlada com repouso e remédios, a lesão no órgão vai ficando cada vez maior.

Ataque indireto

O vírus da hepatite B não prejudica a célula do fígado diretamente. Mas, ao infectá-la, acaba deixando pedaços de sua cápsula protetora para fora. Eles funcionam como rastros, que são logo notados pelo sistema imunológico. Então, com o objetivo de destruir o vírus invasor lá dentro, as células de defesa agridem o próprio fígado.

O que pode acontecer

Existem os linfócitos T que, feito matadores, liqüidam os vírus agressivos. E há também as células supressoras, que suspendem a batalha, quando é hora do sistema imunológico recuar. Para o doente, não é bom ter nem matadores nem supressoras demais.

Reação exagerada

Em 1% a 5% das inflamações, o sistema imunológico reage violentamente à presença do vírus. Destrói as células infectadas com tanto vigor que acaba afetando o próprio o fígado. Sem tempo de se recuperar dessa auto-agressão, o paciente morre. São os casos fulminantes.

Total equilíbrio

Na situação ideal, os linfócitos T destroem cerca de um terço das células infectadas. Então, as supressoras pedem trégua. Nesse período, o fígado se regenera, criando mais células sadias. Passados alguns dias, inicia-se um novo combate. Esse vaivém faz com que o paciente demore cerca de dois meses para se recuperar completamente.

Inimigo subestimado

Quando as células supressoras dominam a cena, a defesa nunca liqüida todas as células infectadas porque, mal começa a batalha, surge a trégua. Com isso, os vírus ganham tempo para se reproduzirem dentro do fígado. A doença se torna crônica. Aos poucos, as células destruídas por eles se transformam em uma cicatriz, conhecida por cirrose.

As iniciais do mal

Os vírus E e F existem, mas são raríssimos. Veja como são os tipos mais comuns.

Tipo A 42% das hepatites

Transmissão: água e alimentos contaminados por esgoto.

Características: os sintomas são febre, mal-estar, pele amarelada. A dieta é livre, mas os pacientes ficam em repouso. Cerca de 99% deles se livram do vírus.

Tipo B 32% das hepatites

Transmissão: água e alimentos contaminados, transfusão de sangue e relações sexuais.

Características: um terço dos casos se tornam crônicos e 10% viram cirrose ou câncer. Já existe vacina contra esse tipo.

Tipo C 20% das hepatites

Transmissão: relações sexuais, transfusão de sangue e drogas.

Características: os sintomas, quando aparecem, lembram os da gripe. Metade dos portadores não desenvolvem a doença. Os outros, evoluem para cirrose ou câncer.

Tipo D 2% das hepatites

Transmissão: água e alimentos contaminados.

Características: como na hepatite A, geralmente os doentes se curam. O vírus D só é muito perigoso na gravidez. Não se sabe por quê, mas 20% das grávidas contaminadas morrem.

Tipo G até 4% das hepatites

Transmissão: relações sexuais, transfusão de sangue e drogas.

Características: não apresenta sintomas na maioria dos casos. Não se sabe qual a porcentagem de gente contaminada que pode terminar com problemas graves, como a cirrose e o câncer. Os cientistas não conseguiram sequer enxergar o vírus causador pelo microscópio para fotografá-lo.