Casos de sarampo disparam nos EUA: como isso pode afetar o Brasil?
EUA tiveram mais casos de sarampo em 2025 e 2026 do que nos 20 anos anteriores somados. Entenda se isso implica algum risco para o Brasil.
Os Estados Unidos declararam o sarampo uma doença eliminada em 2000, uma das maiores conquistas da saúde pública do país. A doença é conhecida por ser extremamente contagiosa e causar manchas vermelhas na pele, além de febre alta, tosse e vermelhidão nos olhos. Não existe um medicamento capaz de combater o vírus diretamente: o tratamento serve apenas para aliviar os sintomas. A única forma de prevenção é a vacina.
Porém, nos últimos anos, surtos da doença voltaram a se espalhar pelo país. O recorde de casos havia sido registrado em 2025, com 2.289 infecções. Mas esse patamar acaba de ser ultrapassado: somente este ano, os Estados Unidos já registraram 2.318 casos, segundo um novo levantamento divulgado em 23 de julho pelo Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC).
Os números de 2025 e 2026, juntos, superam o total de casos registrados entre 2000 e 2024. Por isso, em novembro, especialistas irão se reunir para avaliar se o país irá perder o status de eliminação do sarampo.
Uma das principais explicações para o avanço da doença é a queda da cobertura vacinal nos Estados Unidos. A vacinação começou a diminuir durante a pandemia de covid-19 e, desde então, não voltou a atingir os 95% de cobertura considerados necessários para interromper a circulação do vírus. A maioria dos 35 surtos registrados em 2026 atingiu pessoas não vacinadas ou sem informação sobre o estado vacinal. Ao todo, 93% dos casos ocorreram nesses grupos.
O número não é total porque mesmo entre os que receberam uma dose de vacina, há cerca de 5% de chance de contrair a doença – mas com sintomas mais leves. A doença é uma ameaça especialmente para pessoas imunocomprometidas e bebês antes da idade vacinal (no Brasil, em geral, é preciso ter 12 meses de idade para receber a primeira dose, embora, em regiões de risco, o governo pode estipular uma dose extra prévia, para aumentar a proteção dos bebês).
E o Brasil?
O Brasil recebeu o certificado de eliminação do sarampo em 2016 e permaneceu sem registrar casos da doença até 2017. Em 2018, porém, o vírus voltou a circular no país, o que levou à perda da certificação. Entre 2018 e 2022, foram registrados mais de 39 mil casos. Depois desse período, houve uma queda expressiva, e o Brasil não registrou nenhum caso em 2023 e confirmou apenas cinco em 2024.
Com isso, em 2024, o país recuperou o certificado de eliminação do sarampo, status que mantém até hoje. Atualmente, os casos registrados costumam ser isolados e, na maioria das vezes, estão relacionados a viagens internacionais.
Em 2025, foram confirmados 38 casos, sendo 25 ligados a um surto em Tocantins, iniciado após a chegada de uma família vinda da Bolívia.
Os surtos que vêm ocorrendo nos Estados Unidos e em outros países do continente americano reforçam a importância de manter altas coberturas vacinais.
No Brasil, a vacina é a Tríplice Viral (que oferece imunização contra sarampo, caxumba e rubéola). Ela é oferecida gratuitamente pelo SUS em duas doses para pessoas entre 12 meses e 29 anos. Adultos de 30 a 59 anos que não estejam adequadamente imunizados devem receber uma dose. Em 2024, a taxa de imunização com a primeira dose era de 95,8% e, em 2025, 92,9%, segundo o Ministério da Saúde.
Ou seja: a atual situação dos EUA não significa que o Brasil esteja prestes a enfrentar um novo surto. De fato, pode ocorrer casos de pessoas infectadas chegarem ao país após viagens internacionais. Porém, quando a cobertura vacinal é alta (que é o caso do Brasil) e a vigilância epidemiológica atua rapidamente, essas cadeias tendem a ser interrompidas antes que o vírus volte a circular.
Quais os riscos do sarampo?
Em média, a cada mil pessoas infectadas com sarampo, uma tem encefalite aguda, uma inflamação cerebral que pode provocar danos permanentes. Segundo dados dos EUA, a cada mil casos de sarampo, entre 1 a 3 pessoas morrem por complicações neurológicas ou respiratória.
Outras complicações podem demorar a aparecer: mesmo 11 anos depois da infecção, os pacientes ainda podem desenvolver uma doença rara, degenerativa e fatal. É a panencefalite esclerosante subaguda (PESS), também conhecida como encefalite de Dawson. As chances são mais altas em crianças que foram infectadas antes dos dois anos de idade. Estima-se que cerca de 2 em cada 10.000 pessoas que contraem sarampo acabem desenvolvendo PESS. Entre os bebês, a taxa pode chegar a 1 em cada 609.
“Além disso, há uma complicação de início tardio chamada panencefalite esclerosante subaguda (SSPE). Essa doença rara, degenerativa e fatal do sistema nervoso central pode ocorrer de sete a 11 anos após uma infecção primária pelo sarampo, com as taxas mais elevadas observadas em crianças infectadas antes dos 2 anos de idade.







